Nos momentos
Em que penso
Nas coisas que penso
Chego mesmo a pedir
A opinião do silêncio
Que se cala
Ouço a voz do vento
Vejo a sombra que vem lá de fora
O gato do telhado
Nada fala mais alto nesse instante
Que a luz da Lua
Sobre o desencanto
que me causa a noite
Não existe mais
A beleza do mistério ou espera
Quisera ...não há mais nada além
Que o Fogo da vela, por demais tremulante
Mas se a gente olha direito
De fora pra dentro
Pode ser que seja a hora
De cerrar pra sempre essa janela
E mandar a Lua ir embora
Aqui dentro do peito
A opinião do silêncio
Faz sentido e fala mais alto
E num ato propenso à mudanças
Quando a Luz me alcança
Há essa dança bruxuleante
Essa sombra felina
Essa bagunça progressiva
Ao mesmo tempo
Mansa e silenciosa
Coração deserto
A vida desmorona
E se torna em ruinas
Eu penso em silêncio
No ruído ausente
A conclusão é nada
Sozinho nessa confusão
Fraterna
Mas que não termina
A falta de paz
Que a quietude tanto traz
Há essa eterna madrugada
Em que tornou-se a vida.
Edson Ricardo Paiva.
"O pensamento
é uma uma obra do acaso
Diferente dos pássaros
Que foram feitos pra voar
E voam
Gente feita pra pensar
Destoa da multidão, quando pensa
E quando pensa
Pensa que voa"
Edson Ricardo Paiva.
Lentamente
Assim germina a semente
Num passo ingrato e quase inaudível
Desata o laço
Pequeno pedaço que se vai
Sem deixar lembrança
Também não leva saudade
Nada se perpetua
Os passos na rua
Apressadamente
Brancura dos dentes
Sorriso na escuridão revela
O que a claridade escondia
Lentamente, dia-a-dia
Como enorme carruagem que vem
E quando passa
Atropela
Depois se afasta lentemente
Talvez a vida tenha sido
Por acaso e sem igual
Mas sempre tem prazo a cumprir
E faz doer e fica mágoa e apaga
E quase sempre acontece
de forma proposital.
Edson Ricardo Paiva
Qual seria a graça dessa vida
Se fosse feita eternamente de certezas
E a gente tivesse a receita
E conhecesse o momento exato
da morte, do erro
e de encontrar o grande amor
Que um dia há de perder.
A mesa posta na hora certa
A resposta sempre positiva
Nenhum curativo ou corte do dedo
Aquela pessoa que deixou saudade
Ao morrer na infância da gente
Ainda está viva
O alívio imediato
Ausência do medo
Comida que a gente gosta
No prato de porcelana
O segredo da vida pintado
No óleo sobre tela
Pendurado na nossa parede
No gancho a rede
Lençóis de algodão egípcio
Seria muito bom no início
Mas que graça tem isso pra nós?
Se gente aprende muito mais
Devido ao amor fingido
A dúvida da falsa amizade
Na pergunta sem resposta
Presença muda
Olhar evasivo
A lágrima que ficou
A tristeza que invade
Chuva no final de tarde
Justamente
Quando era hora de voltar pra casa
Faz parar um pouco e lembrar
Que ninguém te espera
Me diz a graça que tem essa vida
A ser sempre um circo de feras
O pote de ouro
Dinheiro contado
Dois Sóis a brilhar de dia
A estrela
que havia na madrugada
Se apaga pra eternidade
A menor distância
Entre a dúvida
e a suposta verdade
O rosto escondido atrás das mãos
Toda a certeza que existiu na vida
A frágil alegria
Chega um dia em que nada é igual
Não passa de cristal que se quebrou
Qual seria a graça dessa espera
Se um dia
A gente não chegasse à conclusão
Que a própria vida em si
Não passou de mera ilusão?
Edson Ricardo Paiva
O navio passa ao longe
Chaminé sem fumaça
Frieza que instalou-se
E junto a si trouxe apenas
A ausência triste e constante
De pequenas coisas
Que já não mais existem
O som da onda a quebrar na pedra
Ecoou triste e cortante
Trazendo a saudade
de tudo que o Mar tragou
Incontáveis naufrágios
Que causaste e que não viste
Até mesmo a tua imagem
Que vinha-me sempre à mente
Agora já nem vem mais
Sumiste também no horizonte
Mas eu sei que não tens
Quem te conte
A tudo que ocorreu aqui
Nesse lugar distante
O tempo passado
É como um Mar que leva
E levou-te eternamente
Pra longe do que restou.
Edson Ricardo Paiva.
Quando você precisar
Usar calçado que machuca
Vestir roupa quente no calor
Acalmar gente louca com olhos de ternura
E ser obrigado fazer coisas absurdas
Pelo valor da mensagem subliminar
Quando você entender
O motivo de cada sacrifício
Sentir vontade de matar gente
Que não cumpre compromisso
A ainda assim sentir um enorme alívio
Por ter engolido em seco e não ter feito isso
Abrir mão
Do resultado esperado
E deixar de lado
A própria vida
Compreender que é preciso abandonar-se
Deixar-se ficar
Anular-se
Esquecer-se
E ainda assim fazê-lo
Não para agradar àqueles
Que estão longe ou perto
Você o fez
Porque era o certo
E fez sem pedir opinião
Nem abraçar palavras bonitas
Ou religião
Nem ideologia
Fez porque acredita
e mais nada
Talvez nesse dia, finalmente
Você esteja pronto a entender
O Mundo e a vida
Aprenda primeiro
Que qualquer idiota é capaz
de seguir a maioria
ou a minoria, se isso lhe apraz
Fazer simplesmente
Porque todo mundo faz
E tornar-se idêntico a eles
Mas é preciso um pouco mais que isso
Pra poder um dia morrer em paz
Sabendo que foi honesto
Feliz de não ter sido igual ao resto
Orgulhar-se por ter sido autêntico.
Edson Ricardo Paiva
Nem sempre o pensamento
Te traz as melhores respostas
Pois existem coisas
Que simplesmente não as tem
E a ninguém é permitido
Estar correto o tempo todo
Não há quem tenha vivido neste mundo
E que não tenha cometido
Muito mais erros que acertos
E é nesses momentos
Que o pensamento
Muitas vezes surdo e mudo
Tem tudo pra tornar-se um grande amigo
Por não trazer-te
A solução mais errada
Pode ser
Que com um pouco de sorte
O Pensamento apenas conclua
Que se for
Pra confiar cegamente
Nas próprias soluções e inteligência
Melhor não saber de nada
Pois, além de normalmente estar errada
As tuas loucas ideias poderão carregar-te
Pra um lugar escuro e distante
Bem pior que tudo
Que pensa saber que sabe
Essa tua pouca inteligência.
Edson Ricardo Paiva.
Por cada porta
Creia
Existe ...sim, a opção
De deixar ou não
O melhor lugar que existe
Pra guardar a paz em segredo
Coração, que se leva
E medo também
Ninguém poderá jamais
Buscar noutro lugar
O oposto
Ao que existe em si mesmo
A paz ausente estava lá
E em nenhum lugar do mundo
Jamais achará
Se não tiver
As distâncias conflituosas
Uma dose de algo que foi de graça
Não há dinheiro
Que faça voltar agora
Chora o coração, sem paz
Se perdeu ao passar pela porta
O caminho era outro
Volta a escuridão da noite
Apesar da Lua e as estrelas
Muito além de tudo isso
De vez em quando e eternamente
Pense que jamais vai vê-la
Um traço tortuoso
Uma pedra lançada
Pedaço bonito
do tempo que passou
E se perdeu
Assim prossegue a vida.
Edson Ricardo Paiva.
Um sono suave
Pode ser até
Que algum sonho tenha havido
Mas aquela doce vida
Era tão boa
Que a gente nem pensava
Em perder tempo à toa, sonhando
Lá em casa
A gente até quase ria, de vez em quando
Uma voz mais grave
Invariavelmente
Nenhum de nós tinha feito nada
Nas asas do tempo
Um avião de papel ... um brinquedo
Uma luz acesa lá fora
Pode ser que fosse a Lua
Eu não sei quem foi que guardou
As chaves do lugar
Onde se põe para sempre
A lembrança sem par
Do som dos teus passos no portão
Que hora bonita tinha o dia
Silhueta distante
Um vulto no final daquela rua
Uma festa calada
Era muda a alegria, mas era
Essa vida que voa nas asas do tempo
Quando menos se espera
O suave, a voz grave, a alegria
os teus passos.
Até mesmo a própria Lua, tão brilhante
Ainda brilha
Porém hoje brilha menos
Brilha bem menos
Que no tempo bonito e distante
Ninguém sequer o desenhou
Mas tudo isso vai pra sempre estar escrito
Aqui e ali
Nos pedaços mais simples
da vida da gente
Eternamente
Nos espaços vazios do telhado
Que chovia
No traço da luz da Lua
Que fugia do Céu
E invadia o quarto na escuridão
Na ilusão das asas
de um pequeno avião de papel.
Edson Ricardo Paiva.
Se a gente fosse olhar direito
O que podia ser tão simples
Complicado, carregado de defeitos
Pode ser que sem querer
a gente compre
O que há muito
Deus já tinha dado
Parece
Que olhando do Céu
Esse pedaço esquecido
O tempo do verbo
Ficou no passado
E por menos que se divida
No final da tarde
É madrugada
Nada mais
Além de espaço
O vácuo Indescritível
Um sinal de igualdade
Um papel amassado
À esquerda o passado
Do lado direito o moderno
Qual se fosse o resultado
de tudo que a vida trouxe
Mas por menos que a gente divida
O produto final é nada
Na mente da gente
Um inferno e um Céu
Um tempo presente
Eternamente passageiro
Transitório
Inclusive o mundo inteiro
Até mesmo o papel
e a conta que estava errada
Na regra de três
Muito simples
A linha torta
Três retas
O passado retratado
Era quadrado
Fica sempre mais difícil
Quando o simples, complicado
Colocando distante o bem perto
Escrevendo o errado
Por seus próprios méritos
O tempo presente
No momento seguinte
Pretérito.
Edson Ricardo Paiva.
Depois de tudo
Após, talvez, à própria vida
Há que vir a vez de se mostrar
O que esconde
Esse imenso mar de ilusão
Que chega mesmo a ser sombrio
Pois quando amanhece o dia
Resta ainda sobre ele
Um denso nevoeiro, que se formou
Durante a longa madrugada fria
Pode ser que um dia saiba
O que é que havia
Atrás daquele muro alto
Que eu via na infância
E que ficava
Debaixo da lava do vulcão
da ilha de Java
Só que esse
Escondido
do outro lado da lua
Num lugar onde morrem os medos
e que ao mesmo tempo
É a nascente
de todos os sonhos
Que de tão sonhados foram
Desgastaram
Um lugar onde o grito jamais alcança
Por mais que apertasse os olhos
E lançasse no breu do meu quarto
Um gemido baixo e lancinante
Tristemente guardado
E que só quem o ouvia era eu.
Edson Ricardo Paiva.
Nem sempre
Olhar para os dois lados
Antes de atravessar uma estrada
É suficiente
Cuidado
Por querer viver o que não lhe cabe
Muita gente destrói a vida
Vende a alma
E só percebe
Quando descobre que agora
É coisa morta, que se pensa viva
Que não sente nenhuma paz
Nem mesmo na própria calma
E deseja a morte querida
E tem medo também da morte
Por não ter sabido viver
Se um pobre sabe sentir-se rico
Pode ser mais rico
Que um rei que não sente nada
As pétalas secam
As folhas caem
A árvore que mais cresceu
No final daquela estrada
Um dia há de ver-se
Enfraquecida desde as raízes
Por árvores que, infelizes a rodeavam
Isso é tudo que se deve saber
A respeito da vida.
Edson Ricardo Paiva.
Eu não gosto nem de lembrar
do dia que conheci a vida
Eu fiquei assim, meio na dúvida
Se vida era um lugar
uma pessoa
ou um pensamento pensado à toa
enquanto na sala de espera
Não sei nem se bem vida ela era
Me lembro que ouvia falar
Que era linda
Mas isso dependia
de que forma a gente a olhasse
Acho que foi por isso
Que no dia em que a olhei
Face a face
Percebi que nela havia
uma certa graça
Mas nada que não se desfaça
Com o correr dos dias
Enquanto ela se revela
Hoje eu penso que ela podia
Ser tão bonita
Mas eu sinto que ela se irrita
Quando ouve alguém dizer
Que a vida é bela
Essa vida irritada, agora
Me faz olhar pra ela e sentir
Vontade de dizer
Que por ela não sinto nada
Talvez, quem sabe
Uma ponta de saudade
do tempo que ouvia falar
Mas não a conhecia de verdade
É por isso que agora
Nada me dói saber
Que por mais ameaças
de ir embora, ela faça
A maior parte de mim
Já passou pela porta
E a parte que ficou
A bem da verdade
Nem se importa.
Edson Ricardo Paiva.
Eu penso em como será
No dia em que a gente parar
Pra pensar em como teria sido
Tem horas que posso ver
Até as cores dos vestidos
Mesclados de amores vindouros
Cabelos floridos
Mulheres do passado
Homens de riscado
Talheres de ouro
Mas precisamos aceitar
Que tudo isso
Hoje é um sonho
E que está tão longe
Sorrisos guardados
Que podiam ser ridos
Esquecidos
Eu penso em como seria
Se fôssemos precavidos
E tivéssemos cuidado
de... juntos
Separar as pedras
Aquelas, que agora hão de ficar
Eternamente juntas
Nós não vamos saber nunca mais
Quão bela coleção de poesias
Poderia estar oculta
Aquelas
Que jamais vamos lê-las
Numa tarde de alegria passageira
Que podia ter sido
Eternamente verdadeira
Mas a gente foi deixando
Pra um dia depois
Eu penso em como será
Quando todo mundo perceber
Que podia ter sido
e não foi.
Edson Ricardo Paiva
Conforme o passar dos dias
Depois de algum tempo
Você passa a compreender
Que os dias passam
E as pequenas coisas mudam
E se a gente pudesse mudar
As grandes coisas de lugar
A gente as mudaria
Talvez seja este o motivo
Porque Deus as fez tão grandes
Veja que na verdade
Toda a grandeza do Universo
Mil vezes multiplicada
Pela duração da eternidade
Quando pra bem se quer
Pode caber no espaço
De um pequeno pensamento
E se o pensamento acontecer
Numa noite de frio
Há de restar pra sempre
Um lugar vazio.
Edson Ricardo Paiva
Enquanto vivos
Não se pode evitar a vida
Enquanto vida
Abarrotada de surpresas
A única certeza
Que se pode esperar do outro dia
É que esse dia amanheça
Dito isto
Ainda não se escreveu
O imprevisto
Alegria presente
Embrulhada em papel de tristeza
Se não existe gratidão
Pelo presente
Não deve esperar mais nada
Além de uma ingrata vida
Porque tudo é incerto
E existem dois tipos de tempo
Que passam pela gente
Tem aquele que passa perto
Que não pára, que é efêmero
e que sempre termina.
Termina por mudar
Somente a nossa cara.
E tem aquele que a poucos
A bem poucos...ensina
No tempo certo, a experiência
Esse, muda nossa essência
E termina por ficar guardado
Embalado com o papel da saudade boa
E que esconde o sentido da vida
Pois a vida é aquela bela amiga
Que sempre haverá
de trazer-te surpresas
A beleza da amizade entre você e ela
Se revela na maneira
Como você, mal ou bem, reage diante delas
E até que apareça quem possa impedir
A vida de agir assim
A única certeza, que se espera do outro dia
É que esse dia amanheça
Mas sem garantia de um fim.
Edson Ricardo Paiva.
No dia em que a gente nasce
O tempo a viver é pouco
Entretanto a gente perde
Muito tempo sendo louco
Louco o suficiente
A ser cego e não perceber
Que o tempo a viver é pouco
E que nada na vida é da gente
Nem mesmo a gente
Somente a nossa vontade
Então, sinta a brisa morna
A beijar o teu rosto
Assim que esse dia termina
Nenhum dia na vida retorna
Veja o vidro do relógio
Envelhecer com as horas
A genuína verdade
Passa na nossa frente
E toda oportunidade
Que vai e não volta
Era verdadeira
O ponteiro sempre volta
Pois o tempo, na verdade
Passou pelo vidro
Ao levar-lhe o brilho
Assim são as coisas
Que a gente perde
Ouça o sino da velha igreja
Veja há quanto tempo ele badala
E mesmo assim você
Não saberia dizer
Sobre ser a mesma vibração
de cada badalada triste
A vida se cala, quando não se ouve
Na simplicidade, a verdade da vida
Embarcamos na viagem
Mas há muito nos esquecemos
da boa sensação
Que é olhar o trem sobre trilhos
Enquanto ainda na estação
Há muito eu não olho o brilho
das gotas de chuva bater no chão
É assim que o tempo trabalha
E é dessa maneira que perdemos
A batalha pela vida
Porquanto a vida não é batalha
É apenas vida
Veja, que enquanto crianças
A gente deseja crescer bem depressa
E nessa pressa em crescer
Se esquece de guardar um pouco
da criança que deixou de ser
Pra poder sê-la outro dia.
Mas nenhum dia na vida volta
O tempo, o vidro do relógio
O beijo morno da brisa
A imprecisão no badalar dos sinos
E quando menos se espera
Um dia o trem sai dos trilhos.
Edson Ricardo Paiva.
Eu hoje abri a janela
Vi que o Sol brilhava lá no Céu
Ainda outro dia
Eu estava num lugar distante
Ainda outro dia
Eu era outra pessoa
Ainda outro dia
O Mundo era um lugar muito bom
E a vida era boa também
Agora
O Sol ainda brilha lá fora
As outras estrelas
Se apagaram quase todas
Os ventos que sopravam
As folhas que caiam
A água me parece
Ter-se evaporado
Hoje o novo dia
Me trouxe a vida nova
Mas hoje eu vejo
O quanto envelheci também
Talvez eu tenha me esquecido
A outra vida e o outro eu
Num canto qualquer do passado
Hoje, além de mim
Ninguém percebeu
Que o Sol ainda brilha lá fora
Com a mesma linda intensidade
dos dias de outrora
E os dias tem sido assim
Parece que agora ficamos
Eu e o Sol
E talvez por algum tempo
O Sol ainda brilhe lá fora.
Edson Ricardo Paiva.
Das coisas que vi nesta vida
Eu tento guardar lembranças
Mas somente as que forem boas
Me resta seguir o caminho de ida
E me basta saber que não tem volta
Pois, se existir ... desconheço
Grosso modo, aprendi que eu não posso
Mudar o mundo e as coisas que discordo
E em contrapartida, percebi desnecessário
Mudar o meu jeito de olhar a vida
Pois, também não me vejo obrigado
A aceitar as coisas, do jeito que as coisas são
Nem preciso acreditar que o impossível
Não será possível um dia
Basta saber que esse dia
Não é hoje, ainda
O tempo tem vontade própria
Por isso, apesar de as coisas mudarem
Com o tempo que passa
Há lugares onde o tempo
Não passa e nem quer passar
Inútil querer mudar ... ao que for
Inquebrantavelmente inútil
Toda a verdade, resumida
O preço do que não se vende
Se aprende, sabendo o valor
Que dinheiro não compra
Mas a estrada é bem larga
E um dia, a tudo se paga
A lei mais bonita
É aquela
A qual o tempo não se furta
Em fazê-la cumprida
Conquanto, jamais foi escrita
Portanto
Não se muda
Nem se apaga
Crepita qual chama
Na cera da vela
Oscila e bruxuleia
Chega a ser divertido
Ver brincar com a sorte, par em par
Uma bela manhã de azar, muda a vida
A lição aprendida
Se guarda, após elucidada
Portanto se engana
Quem pensa que da vida
Não se leva nada.
Edson Ricardo Paiva
A vida, aqui neste mundo
É tão minha, quanto a tia Sarah
Em um antigo álbum de figurinhas
Por mais eu a quisesse
Jamais pude achá-la
Assim a vida caminha
Aquilo que hoje não tem
Amanhã não há diferença
Se tinha ou não tinha
O ponteiro do relógio na parede
Mente
E mente mesmo quando
Não diz nada
Cada hora vivida é uma ilusão
Que a gente a pensa vivida
Mera imagem de espelho
Que a mente projeta
Essa gente, meramente abjeta
Moldura iludida, que longe se vê
A pintura, a caravana e o deserto
Se olhar a areia mais de perto
No reflexo, um Oceano de Estrelas
Convexo e cediço, cujo olhar carrega
Em sua esteira
A vida verdadeira
Inteiramente não passa
Mera entrega pra um mundo de sonhos,
Mesmo a quem
Se nega a vê-la assim e perceber
O feitiço do tempo
Eternamente irritadiço,
E que também não vê
A menor graça em tudo isso.
Edson Ricardo Paiva.
Cada dia na vida
É um dia que se vai
Na noite, perdida
Esquecida
de viver a vida
Essa gente meramente
Pensa em pensar que pensa
E tão intensamente não pensa
Que a vive propensa em longe vê-la
Trazendo nas mãos
Uma enorme porção
de nada, algo disforme
Não sacia a sede
Insaciada fome
A mente vazia
Pensa linda a cena
Sentindo-se plena
Em contato
Com gente pequena
Cuja mente
Mais vazia ainda.
Edson Ricardo Paiva.
Eu peço a Deus
que me livre de estar perto
no dia em que toda existência
Tiver sido um livro que já foi lido
Eu quero viver no Saara
Cujas estrelas no céu
Não param nem para brilhar
Eu também quero um olhar amigo
Que me leve no abrigo de uma oração
E que eu traga comigo, em meu coração
Qual sarça não consumida
Um jogo de paciência
Maior que o poder do fogo
A força que não supera
A divina ciência, aquela que ensina
Ser a simples passagem do tempo
A semente que cresce
Pra envelhecer em floresta
E agora aquele imenso mar, evapora
Mas eu vou estar bem distante
Quisera trazer comigo nesse dia
Uma boa lembrança qualquer
Poder renascer criança
Num lugar onde Deus quiser.
Edson Ricardo Paiva.