Anos atrás eu escrevia
Minha poesia rupestre
Escondida à luz do dia
Inexistia um guia
Não carecia de mestres
E também não havia
Erros mortais
A queimar em alguma pira
Como em qualquer
Livro que eu já tenha visto
Um misto de verdade e invenção
Me adentrou o coração
Um ser que tocava lira
E encomendou-me um poema
Que tivesse o amor como tema
E eu fui atender a tal pedido
Sem saber
Que o diabo é pai da mentira.
Aquilo que às vezes turva as águas
Muitas vezes fertiliza a terra
Sem, no entanto, torná-las impuras
Não é sobre qualquer assunto
Que podemos fazer analogia
Há águas que aparentam muito claras
Mas, na verdade, a pureza
É coisa por demais rara
E então, passam- se anos
Antes que chegue o dia
Em que a gente possa
Finalmente perceber
O quão escuras eram elas.
Belas paisagens
Terrenos exibindo verdes relvas
Se você escavar
Há por descobrir que aquele lugar
É somente um aterro
Não serve pra nada
Era apenas uma paisagem
Pra ser olhada de longe
Muito longe.
O que mais me impressiona
É perceber que nesta vida
Nada mais me pode impressionar
Deixei meu viver de lado
Parei de sonhar acordado
Eu, que tanto quis saber
Agora acho tudo assim...
Sem graça
As emoções me abandonaram
Eu não sinto mais falta de nada
Coração oco
Alma vazia
Não entendo como foi que um dia
Eu pude gostar da vida
E querer bem a este mundo
Que me esqueceu
Assim
Pra mim tanto faz
Por favor, vida
coisa abandonada
Me esqueça no meio da estrada
me deixe sumir em paz
Uma formiguinha
caminhava sobre o piso de cimento
Seguia em linha reta
O local tinha sido varrido
Não havia nada à carregar
Era apenas e tão somente
Um inseto perdido
Num lugar desconhecido
Às vezes
Eu também me sinto assim
Quanto tempo faz
Que tudo foi levado pelo vento
Tanto tempo faz
Que uma seta indicou o caminho
Que a tudo conduzia
Ao inexorável fim
E tentando ser amável
O mundo esqueceu de mim.
Ontem
Minha alma saiu a passear
Em meio a lugar desconhecido
Estrada larga
Escura madrugada
Iluminada pela luz de estrelas
Olhando para elas perguntei
Qual força Deus usou
Para erguê-las lá no Céu
E que tecido Deus usou
Pra fazer o véu da noite
E quem será o noivo
de tão bela criatura
Hoje
Noite escura iluminada
À luz de vela
abro a janela
Estrelas não há
Somente o som de água corrente
que vem lá do meio da mata
A escuridão traz o perfume
e a serenata
vagalume solitário
iluminava intermitente
A galha da cigarra
Que aproveitava a escuridão
pra fazer farra
E nem percebe do morcego a chegada
Em pouco menos de um segundo
Só se ouvia
O som do sossego e mais nada
O tempo e a necessidade
Transformam uma simples trilha
Em uma cada vez mais longa Estrada
Meus pés apenas fizeram esse caminho
E não há nada que eu queira abandonar
Ao longo de suas margens
Além das flores que plantei
Enquanto fazia esta viagem
À qual nós chamamos de vida
Cujos passos ninguém conta
Muito menos as perdas
de Pequena, média e grande monta
As vitórias
Estas deixo à Humanidade
No dia em que minhas pernas
Não mais puderem caminhar
E meus olhos não mais conseguirem
Vislumbrar seus horizontes
Mas hoje eu ainda caminho
Com meus passos cada vez mais lentos
pois hoje nada é como antes
Talvez por não haver
Mais nenhum lugar aonde eu ir
Pois descobri que ainda preciso
buscar a mim mesmo
Aquele que deixei ficar
Em algum lugar desta jornada
Hoje eu sei
O tempo e a necessidade
me ensinaram
Que a mim mesmo preciso encontrar
Mais nada.
Os pássaros comemoram
cantando o amanhecer
de mais um dia
Mas não é
Em todos os cantos do Mundo
Que existe alegria
Muitas vezes
Junto à chuva que cai
uma lágrima discreta
ali vai, despercebida
Nem sempre é correta a afirmação
Que um sorriso se traduz em alegria
Há almas cujo medo
Conduz em segredo
Por caminhos parecidos
às paisagens existentes
em nossos piores pesadelos
Mas sorriem
Há semblantes alegres
Semelhantes
à simples cartões de visita
E o que mais me irrita
É que há pessoas
Que tem todos os motivos pra sorrir
e choram
Outros dias há de vir
Os Sóis se vão
As estrelas também não se demoram
Olhai os Lírios do Campo
Sejais pois
Iguais aos pássaros
Que despreocupadamente comemoram.
Toda pessoa tem sempre alguém que é para ela o Centro do Universo. Se você não é o Centro do Universo de ninguém, lembre-se: A Terra também não é o Centro do Universo, mas até onde sabemos; ainda não há quem consiga chegar a um lugar melhor que este aqui.
Azar de quem não te elegeu!
Viver sem precisar
pedir conselhos
Mas estão todos
ocupados demais
admirando a própria beleza
diante dos seus espelhos
para enxergar
as coisas que ali não refletem
O que é que vale à pena?
Talvez tudo
Talvez uma pequena parte
Não há resposta precisa
Nenhuma decisão é clara
A única certeza
É que nesta vida cara e indecisa
haverá um dia um ponto final.
Até lá vamos nos perguntando
Ou vivendo sem nos dar conta
Nenhuma resposta
Exposta após o sinal de igualdade
estará isenta
De uma nova descoberta
causar-lhe inadiável desmonta
e tudo começa de novo
A resposta escondida
Pode estar dentro de um peixe
Que aparenta inocência
Te olhando através do vidro do aquário
Pode estar dentro do espelho
Ou no conselho daquele andarilho
a quem você negou uma moeda
Tudo na vida vale à pena
Mesmo quando parece que não
Um dia no passado
Você se sentia enfadado
Na companhia de gente
A quem deixou de perguntar
Algo que hoje
Essa ausência de resposta te tortura
Me responda realmente
Será que não vale à pena
Ou é a gente
Que não sabe onde buscar
Aquilo que muitas vezes
Esteve tão evidente?
Mandaram eu escrever um poema
Cujo tema fosse a palavra problema
Por achar coisa difícil perguntei:
Como assim
O problema está no início
ou está no fim?
Está no Mundo ou em mim?
O problema pode estar atrás da porta
Só os mortos não tem problemas
Os fracos e os fortes os tem
E mesmo estando presente
Ele pode vir lá do passado
Num dedo quebrado,
Embarcou no bonde errado,
Recebeu um mal olhado.
Todos temos um problema
Que julgamos ser individual
e na verdade é coletivo
e afeta a toda a Humanidade
difícil saber qual é
às vezes
a gente toma o problema nos braços
e aperta contra o peito
com toda força
Por medo de perder
E ficar de coração vazio
Ainda bem que não pediram
Pra apontar a solução.
Eu vou deixar de lado
Essa tristeza sem cura
Esse meu mundo assombrado
por tanta frieza
tanta incerteza
tantos juramentos
de procedência obscura
Viverei agora de crimes
Que me alegrem o coração
Vou escrever frases
que não rimem
vou exercer
a prática ilegal da poesia
Conquistar corações
que não me pertencem
Me vingar
daqueles que me esqueceram
Fazer as pazes comigo mesmo
Me cansei de tanto cinismo
Vou causar um cataclismo
nos corações de gente ingrata
À partir desta data
Serei simplesmente feliz
Contente com aquilo
Que fiz ou deixei de fazer
vou criar um novo estilo
Que só será compreendido
depois que eu morrer
e assim
vou deixar ao mundo
esta dúvida e esta dívida
Esse sentimento profundo
Que me lacerava a alma
Oriundo da ausência de calma
Que me causaram nesta passagem
Vou viver noutras paisagens
Vou viver sem compromisso
Se não pude ser feliz
Vou deixar ao menos
de ser infeliz
Só isso.
Alma
Procure a mansidão
Evite celeumas
Tente enxergar a Luz
Existente
Em toda escuridão
Tenha calma
Venha a fleuma
Encare seus problemas
Com um sorriso nos dentes
Viver se faz premente
Se não choveu
E se perdeu
Aquilo que semeou
Lembre-se
O Sol ainda não se apagou
Hoje ele calcinou a terra
Amanhã
Ele haverá de evaporar os mares
E nuvens virão
Com ares de bem aventurança
Alma
Não perca a esperança
Lembre-se
O mundo gira
E em alguma dessas voltas e revoltas
Você há de finalmente entender
Que é preciso ver muitos ocasos
Antes de saber
Que nunca chove por acaso
Estradas existem
Para que possamos
decidir nossos caminhos
Os quais nem sempre nos é dado
O direito de escolher
E não há como saber
O que há no fim de cada uma
seguimos sozinhos
Nos sentindo acompanhados
Não há nada e nem ninguém
A lhe apontar constantemente a direção
das águas que haverão
de aplacar eternamente a sede
e trazer-lhe o alento desejado
do amor incondicional
Se me tivessem dado o direito a escolher
(Pois as estradas também não escolheram Sê-las)
Talvez eu tivesse escolhido
A Estrada que leva às Estrelas
Estrelas não existem
Somente pra serem olhadas
Mesmo assim, no fim
Existem noites em que as procuramos
Não vemos nada
Estamos presos a outros caminhos
Muros marcados
Pelas manchas que lhes faz o tempo
Portas trancadas
Chuvas sem telhado
Coração sem abrigo
dias e mais dias
Sem ouvir palavra amiga
Não me basta aguçar os ouvidos
Se não há quem as diga
Caminhos existem
Para que a gente finque os pés no chão
Querendo ou não
O conhecimento
Nem sempre traz riqueza
Muito menos a riqueza
O verdadeiro amor ou amizade
A única coisa que existe
É o caminho e a caminhada
Esta é a única verdade
Mais nada
Caiu uma gota
Gotejou
Gota de quê?
Parece que molhou
Formou uma mancha
Qualquer falha...
ela se espalha.
Tem algo de mística,
não dá pra explicar
com minha parca linguística.
Caiu na folha de papel
onde eu ia escrever
um triste poema;
A ideia me sumiu
A gota foi deixando a folha rota
a folha era tão branca...
Agora está impura,
me distraí
olhando a mancha
esqueci a inspirada tristeza
ela passou; não tem mais nada,
findo o assunto.
A magia da mancha
Fazendo véu
movendo Estrada
Algo inerte ela alimenta
E aumenta, no meio do nada
Uma simples lágrima
No branco do papel
Em certos momentos
da vida indecisa
Pode dizer muita coisa
De vez em quando eu vou à Lua
Hoje, não sei se voltei de lá
E fui direto ao fundo do Mar
Este lugar é tão pequeno
Me deixes ao menos querer
Assim como sempre me deixaste
Partir e ir embora
Sei que nem ao menos percebeste
Mas viajaste comigo no tempo
A sessenta minutos por hora
Achando tudo errado
O que quero, o que penso e o que faço
Neste tempo e neste espaço
Criticando o meu sucesso
e aplaudindo meus fracassos
Não sei se te deste conta
Mas um dia estarei partindo
E pra sempre estarei por lá
Aproveites hoje o meu abraço
Pois não voltarei jamais
Pra este lugar ao seu lado
e tu, que tanto me preteriste
Finalmente há de saber
O que é ser triste.
"Faça-se a Luz"
E assim se fez
Próclise e ênclise
O Alfa e o Ômega
e desde o início
mesmo antes
que soprassem os ventos
Passou a ser reivindicado
como se fosse criação
de criaturas sem talento
criatividade
ou vergonha na cara mesmo
depois que inventaram
o "Copia e cola"
hoje em dia
quase ninguém dá bola
em apropriar-se
do trabalho alheio
Sem ter a menor ideia
do que o criador quis dizer
Nem no início
e nem no meio
Gente de inteligência curta
A Sabedoria vem de Deus
O diabo ensina toda essa gente
que depois vem
e furta
O poema e a poesia alheia
Há dias em que parece
Que a gente amanheceu
e levantou
Com dois pés esquerdos
não há nada e nem há flores
Que impeçam
Um amor de acabar mais cedo
Malograda a esperança
O Jeito
é colocar o pé na estrada
Larga ou estreita
E a gente não entende
Só aceita
Há dias em que mesmo sob o Sol
Tudo é cinza, tudo é triste
A gente nem mesmo tenta
Só desiste
E se pergunta
Se um dia haverá
de sorrir novamente
Não aceite,
Não desista,
Nem pergunte
Apenas tente.
Tem dias que são assim
As tardes de domingo
Varrem as tristezas
para baixo de um tapete
que Deus guardou dentro de mim
Pra Ele pisar, quando vier me visitar
E então, me basta lembrar que Deus existe
E já nem me sinto mais
assim...tão triste.
O Castor constrói a barragem
A abelha faz colméia
A aranha teia
O ser humano, castelos de areia
Mas esse tal de ser humano é complicado
Quando abandona os castelos de lado
os pobres animas bem sabem:
contra esse ser desvairado
Nãe existe outro animal que tenha escudo
Um dia o cara vem e acaba tudo.
Me lembro de uma colina
Que eu via na minha infância
Nunca fui lá
Só via de longe
Aquela paisagem tão mansa
Poderia desejar
muita coisa nesta vida
Mas se eu pudesse fazer um pedido
Queria hoje romper a distância
Que o tempo cruel demarcou
E estar lá agora com minha amada
Sentar-me com ela
E olhar o mundo ao longe
Fazer fogueirinha
declamar para ela poesia
Erguê-la lá no Céu
Somente com palavras
Convencê-la de que a amo
Olhá-la sorrindo
Perceber o quanto é lindo
o seu sorriso contrastando
o Sol que finda mais um dia
À noite olhar estrelas
As que estão no firmamento
E mais aquelas que subiriam
Em movimentos lentos
Ao despregar-se da fogueira
Deitar-me ao lado dela
Fazer planos...
Passaram-se tantos anos
O Sol se pôs muitas vezes
Fizemos coisas complicadas
estando juntos
Mas esta coisa delicada e pura
Não
Passa-se a vida
E a gente deixa escapar
a oportunidade de realizar
os sonhos mais singelos
Que foi deixando pra depois
e quando a gente vê
Passou-se quase tudo
E a gente pensa na colina
distante no tempo e no espaço
O amor, este permanece
A colina
Acho que não existe mais
Esquece!
Se sinto saudades na vida?
Claro que eu sinto
Sinto saudades da minha infância
das casas onde morei
das ruas onde brincava
dos amigos que não vi mais
tenho saudade até
de algumas pretensas namoradas
Mesmo que por elas
eu não sinta mais nada
além do desejo de que sejam felizes
nos caminhos escolhidos
Assim como estou feliz
Com que eu escolhi e me escolheu
Tenho saudade
daquele que um dia eu fui
Saudade da ingenuidade
Saudade da confiança que sentia
em gente que não merecia
Saudade das pessoas
Que eu havia idealizado
E que com o tempo
descobri que eram outras
Sim
Eu sinto saudade das coisas
Nas quais eu acreditava
Sinto saudades até
dos fantasmas que me assombravam
e que hoje eu reconheço
Que não me fizeram mal
Não sinto saudades apenas
das coisas das quais me esqueci
Mas eu não vivi à tôa
ou minha memória é muito boa
ou é amor demais no coração
sinto saudades dos meus irmãos
de todos eles, sem exceção
Sinto saudades dos professores
das escolas e até
das passagens pela Diretoria
saudades dos inspetores:
A Dalva e o Seu Osvaldo
que corrigiam o menino que eu era
Queria abraçá-los hoje em dia
Sinto saudades dos primos
das tias, dos amigos, dos avós
Que amaram todos nós
talvez de maneira igual
Quem vai saber?
Se não foi, também não faz mal
Eu sinto saudade da vida
E de tudo que eu vivi
Mas não gostaria de viver
novamente a mesma vida
Passou
Foi muito bom e sou grato
Faria tudo de novo
mas desta vez faria melhor
se tivesse que fazer
Mas o passado Deus não muda
Só não sinto saudade de Deus
Pois Ele estava lá, naquele tempo
E ainda está aqui agora
Guiando meus pensamentos
E fazendo carinho com o vento
que entra pela janela
Enquanto eu escrevo estes versos
Meu "muito obrigado" a todos
Que passaram
Agradeço a Deus por ter ficado
Eu tive uma vida bela
da qual vou sentir saudades