"Lisboa"
Lisboa
Reflexo doce do Tejo
Caminho de luz coada
De encontros
Com água
Azul
E pedras da calçada
Gente e brumas
Cheiros e mágoas
Lágrimas de um tempo que se esgota
Penoso
Quando nos afastamos
E nos esquecemos
De amores
Barcos
E gaivotas
Não me olhes assim
Não me olhes assim
Não olhes
que fico trémula e temo
que os meus olhos ceguem
e apenas te sigam
em caminhos da noite
Tenho medo de ver-te
só pela rota dos dedos
na lisura do teu corpo apetecido
Não me olhes assim
Não olhes
Vilma Nunes- Edgardo Xavier
Entre Nós
Entre nós
Os silêncios
São palavras
Penduradas no olhar
Entre nós
O desejo
É o que vejo
À flor da tua pele suada
E sem palavras
Dizemos tudo
Sobre o mar do nosso fogo
Outra Pele
Sinto a luz da tarde
como outra pele
e saio de mim
O gosto é acre
no tempo das promessas
e o ar anil quando arde
no teu corpo
de seda e jasmim
Não leio palavras nos teus olhos
mas sei a prata dos silêncios
e o barulho dos sentidos
Sei que pelo amor
até as pedras
adoçam os gumes
e se moldam à mão
que lhes trava o voo
Pelo amor
sangram as escarpas
seixos e papoilas
Há vermelho nos trigais
Vontade
Despida de roupa
e de falsidade
quero a nudez pura
na plenitude da tua pele
acesa
Quero-te assim
iluminada e tensa
como quem pensa
que me pode perder
e só me tem a mim
Por coração uma pedra
e no corpo este vazio
Crescem a sede
e as mágoas
no parado deste frio
Se vens acordo
e esqueço
que o coração de pedra não sente
Volto a ser rio
AMAR É CRESCER POR DENTRO
Contigo todas as palavras
São de renda ou de cristal
Contigo vestem-se de prata as manhãs
E as horas
Suspendem-se dos teus olhos
Imóveis
Como fotos do tempo
Sou a pedra em que te apoias
Acordo ao som do teu nome
E cego para tudo o que não seja
A luz que vem de ti
Cantam em mim as tuas alegrias
Soam cá dentro as tuas mágoas
Sou toque de ave-marias
Sou som de todas as águas
Sou o arrepio das folhas
Na bebedeira do vento
Amar é ser tudo isto
Amar é crescer por dentro
Sintra, 04/05/2007
Edgardo Xavier
Não leio palavras nos teus olhos
mas vejo com a sua luz
um tempo de céu
um paraíso
um mar que me seduz
Não leio palavras nos teus olhos
leio a prata dos silêncios
e o barulho dos sentidos
Mágoas
Inquieto
desço pela margem da tarde
para a lisura do teu colo
Piso as horas pelos caminhos do teu olhar
e mergulho no tempo
até que venhas e me beijes
com a verdade do teu riso
Nunca o tempo foi preciso
no parado das noites vazias
como então
Nunca antes a aurora
emudecera no limiar da luz
como no dia em que
te cobriste de indiferença
para ficando
sair
Navegavas pelas palavras
com rigor de pedra
à superfície do amor
Paixão
Paixão é uma cascata de luz
No rio cego da noite
Um estrondo no ermo da nave gótica
A violência doce de um fim anunciado
O tudo e o nada
Do tempo que nos remete
Sem mapa
Para a certeza das galáxias
Sem ti sou uma pedra aos tombos
Na calçada
Umas vezes batida
Outras parada
Só nos teus olhos me faço ave
E voo sem destino
À gargalhada.
"Tragédia"
Tragédia em todos os actos
é quando sem ver o azul
repetidas vezes
descreves negro
sentes noite
e não percebes o aroma
das camélias
que se escondem no breu
Como eu
Em Silêncio
Amar-te em silêncio
E estar só
Não é ser forte,
É queimar a alma
Devagar
Como brasa sob cinza
Á revelia do olhar
O desejo queima
E acorda o corpo
Para um destino
De fogo
Ou de mar
E sou crista de onda
Ou céu de prata
E a lua é só uma lata
Sem valor
Sempre que estás comigo
Só então me reconheço
Como um pedaço de ti
Que recusa a independência
Sou livre sempre que voas!
Pelas Mãos te Sei
Pelas mãos te sei
pelos dedos te leio
formas e vazio
luz e esteio
corpo
sede
raiva
e os olhos magoados
de claridade agreste
Espessos os lábios
presas as palavras na garganta
e o teu olhar
a ditar estes silêncios de veludo
Mudo também é o som da noite
imenso jardim de estrelas
e passos sem destino
Basta saber que me esperas
à esquina de qualquer hora
Basta-me sentir a vida
como um sopro leve no rosto
e provar o mosto
do teu vinho
rubro e aceso
com sabor de vida
ao jeito da idade
Homem
menino
velho
destino
e o tempo a tecer rugas e mágoas
a gerar fontes
onde choramos
os amores perdidos
na calma podre das seivas
Petrificadas
"A música vem de ti"
A música vem de ti
promessa ainda demorada
na luz do tempo
no pó da estrada
A música vem
e chegam também
a urze e o azul
que te precedem
Serás flor na aurora branda
emoção de um lírio por dizer
pedra
corpo
verde e água
na tua boca calada
antes de acontecer
A música vem de ti
Pausa
Vem e traz o ar de posse
As certezas e a intimidade
Sê a estátua de carne
Neste momento de silêncio
Muda e quieta
Como uma boca pousada
No meu sono
Traz-me de ti
O tudo e o nada
Do abandono
E acampa no trevo
Acre e macio
Deste corpo em festa
Depois, vê o que resta
Da minha fome e do cio
Retoma a tua gesta
Deixa-me vazio
Perto
Risco o teu nome na areia
Ao silêncio dos reflexos
Sais-me dos dedos
Mas é na boca que me deixas
O sabor a rosas que há em ti
Sei de caminhos e ruas
Sei de tempestades
Sei de corpos e cidades
Mas a ti amor
Só te adivinho
Contigo
As ausências
São a pausa desejada
Tu é que trazes
Estrelas e luar
À minha noite fechada
Amanhã quando vieres
A este pedaço de céu
Que iluminas
Estarei do outro lado
Da circunstância
Ao alcance do olhar
Sentinela do Tempo
Sentinela do tempo,
Vigio o teu corpo
Adormecido
E aguardo por ti
À esquina da aurora
Plena de vida
Para partilhar
Mais que a boca
Beijam-me os teus olhos
Na lisura da manhã
Mais que o corpo
Afagam-me os teus dedos
Sob a coberta de lã
E sem palavras ardemos
Carne, sangue e beijos
Com sabor de hortelã
Ai tanto caminho andado
Ai tanto caminho andado
Tanto tempo
Tanto fado
Tanta pedra no meu prado
Tanta cinza
Nas minhas nuvens de Maio
Ai tanto caminho andado
Em silêncio
Em agonia
Antes de ter-te a meu lado
A partilhar o telhado
Na minha terra bravia
Ai tanto caminho andado
Na monda dos meus trigais
Sede de Agosto e papoilas
Água fresca
Céu aberto
Riso aceso
E a tua boca tão perto
Duelo
À carne expectante
anuncio o meu corpo
em trovoada de sentidos
Há dores
cheiros
gemidos
na tua terra queimada
Na promessa de redenção
crestam-se os lábios
E as chagas
É tempo amor
Sangra-me a sede mais feroz
e mistura a tua noite
ao meu veneno
Afecto
Recupero-te
na febre do tempo que arde
como a ternura
mansamente
Sou como pedra jacente
na melancolia dum lago
expectante
Na minha boca
a tua sede
Incendeia a madrugada
Apolo
Vens do fundo desta noite
Como uma aurora vibrante
Trazes-me o sol e o tempo
Doces
Como mel a escorrer
Da memória
Vens do fundo desta noite
E do centro da glória
Lavar-me o olhar
De silêncios e deserto
Desperto
Sou a tua seara em flor
O teu azul do mar
O teu céu
Sou o Apolo que viaja
Nos teus olhos