Na novela O Rei do Gado (1997) da Rede Globo, uma sem-terra, interpretada pela atriz Patrícia
Pillar, acaba se casando com o proprietário de terras e criador de gados interpretado por Antônio Fagundes. A novela mostrou que, em vez de a sem-terra continuar no
movimento e tentar ganhar uma causa coletiva, era mais fácil pensar em si
própria e se aliar à classe dominante. Esse é o pensamento neoliberal, da
globalização e do capitalismo sem força de atrito, como relata o capítulo “Um computador em cada mesa, em cada casa” do livro de Bill Gates, ou seja, cada um no seu universo particular e não coletivo.
Podemos adaptar o sentido simbólico da construção de uma linguagem arquitetônica ao conteúdo ideológico de uma linguagem política,pois a arquitetura não dá só a forma a um determinado espaço físico ou a um
objeto, uma vez que é por meio dela que o uso da palavra transforma-se em
mensagem.
No final dos anos 80 e início dos anos 90, a Globo apostava que o
futuro da tevê por assinatura estava na transmissão direta por satélite para
casa - e criou a Globosat. Na mesma época, o grupo Abril, principal
concorrente da Rede Globo na TV por assinatura no sistema de transmissão
por microondas, criou a TVA. Estudos da HBO, TV a cabo dos EUA, diz que o
Brasil tem potencial de mercado superior ao resto da América Latina e pode chegar a 7 milhões de assinantes em cinco anos. Algumas empresas, hoje em poder do Multicanal, foram negociadas por cabeças de gado.
Dentre as prioridades estratégicas dos militares estava a consolidação do vasto território e unificação dos 120 milhões de brasileiros do
censo da época. Torres de microondas foram construídas a cada 60
quilômetros, ligando as principais cidades, de forma que os sinais pudessem chegar a cada canto do país. O poder financeiro da Globo lhe dava condições de alugar a metade das ligações todo tempo
Em certo sentido, portanto, as novas tecnologias de comunicação servem para influenciar a redemocratização da sociedade quando quebra monopólios, mesmo que depois outros monopólios
estrangeiros ocupem o lugar. Mas temos que ver que o lugar de origem de domínio do primeiro já não é o mesmo, e pode se modificar pelo fato de não haver estagnação do mesmo poder no mesmo lugar.
A professora Lúcia Santaella, em “Produção de Linguagem e
Ideologia”, nos fala do uso da ideologia dominante, mostrando que a visão
política de uma sociedade se faz pelos determinantes econômicos, e que a
construção se ergue por elementos de dominação, sendo a própria arquitetura
política um meio de poder.
PIOR QUE O EXÍLIO.
O exílio
eterna dor,
mas pior
que o exílio
é viver eternamente
sem saber
qual é o lugar da gente,
é morrer
sem saber onde
a alma pertence
e o coração regressa.
A mídia cria uma espécie de vertigem coletiva, pois em maior ou
menor dimensão a figura da mídia é articuladora de transferência de valores na sociedade, ditando regras morais, costumes, comportamentos e dando a
aparência, numa visão fria e desenvolvida em estúdios, de que a sociedade é realmente aquilo que ela desenvolveu dentro de seu espelho contextual.
Nesse conjunto de ligações comunicacionais, os desejos internacionais se tornam ainda mais internacionais, porque os canais de proliferação de idéias se multiplicam em nível global. O que temos que analisar, portanto, é se o resultado dessa política internacionalista das mídias comprova ou não
uma integração internacional das nações, e se o encadeamento da política internacional deles pode ou não reforçar o sentimento local de nação.
Não é de estranhar, por exemplo, que a comunicação mundial esteja
dividida entre grupos relacionados aos mesmos grupos fortes econômicos
mundiais, e os mesmos que gozem dos benefícios que hoje a globalização
representa para os países ricos e desenvolvidos; portanto não é de estranhar que a democracia seja propriedade privada de alguns e franquia paga por outros, pelo fenômeno da globalização.
A própria imprensa joga confetes em si mesma e se convence de que seu poder é a prova de fogo. As novas tecnologias de comunicação
aumentaram esse poder de fogo, são a “bomba atômica” do século, pois as
informações que percorrem o mundo em maior velocidade destronam
governos, criam “cortinas transparentes” em oposição à antiga cortina de ferro, e os jornalistas sabem que a profissão deles é aliada ao poder.
Assisti a um seriado da Rede Globo, chamado Decadência, que
fazia uma abordagem irônica sobre as seitas evangélicas. Em especial, a
Globo tentava atacar o Edir Macedo, e o artista Edson Celulari, que fazia o
papel do personagem Emannuel, um motorista que vira bispo e enriquece, num dado momento da história fala que ninguém quer ser feliz depois que morre, e por isso as religiões evangélicas estavam ganhando fiéis, pois elas prometiam a felicidade aqui e agora.
Vendem e convencem. Induzem a sociedade a sentir determinados desejos e vontades que não são suas, da natureza social, porque ninguém nasce com dependência de cigarros ou bebidas, com vontade de comer chocolate, tomar Coca-cola ou comer pipoca quando vai ao cinema: são padrões de conduta adquiridos através dos meios.
Quando se observa que o número dos países mais desenvolvidos, o grupo dos oito, é quase semelhante ao número dos grupos que dominam a produção mundial de comunicação, divididos em sete grupos que formam o Império da Mídia, constata-se que comunicação e poder estão vinculados sempre, são montadores políticos eternamente. Mas quando blocos econômico-políticos se sobrepõem um ao outro, se castra a diversidade cultural pelo abuso do poder, do capital e da informação estrangeira.