Águas de Forestier
O vinho que toca seus lábios
desperta o pecado
em um pobre pagão
que sonha com o paraíso,
onde todas as águas
se transformam em vinho,
dos rios, lagos, marés e cachoeiras,
salgadas, doces, porém todas vermelhas.
Lavando seus pés,
molhando os seus seios,
escorrendo sobre todo seu corpo
o doce veneno,
que nos embriaga a sede de outras paixões.
Pequenos Bacos
brincando de serem anões,
e todo pecado será desculpado
por todo motivo impulsionado por prazer.
Toda musa será deusa,
Se pensarmos nos fenômenos da bossa-nova, do movimento hippie, da jovem-guarda, tudo poderia ser visto como desabafos coletivos. Até os movimentos darks e punks na década de 80 na Inglaterra nos ajudam a diagnosticar que, quanto mais a sociedade se encontra reprimida, mais ela parte para os processos de catarse.
Seria desejável que estudos futuros analisassem algumas semelhanças entre os jogos lotéricos e a Internet, porque o próprio processo dos sorteios seria alienante, e o próprio ato de jogar seria uma catarse, com as pessoas apostando porque precisam sonhar com uma realidade que elas não
podem alcançar.
Há pessoas que consideram o povo brasileiro mal resolvido política e culturalmente pelo o fato de que aqui existe uma paixão nacional pelo
futebol e pelo carnaval, e que a vida política do povo brasileiro gira em torno da “temperatura” destes dois eventos sociais. É comum ouvir que o futebol e o carnaval são o ópio do povo, e que razão do povo ser ignorante está nessas duas raízes culturais.
Foi no auge do tacherismo que os darks e punks nasceram. As
pessoas fogem da realidade porque a realidade não dá segurança e conforto
às pessoas. Nem sempre elas são manipuladas ou alienadas; muitas vezes guardam seus problemas na memória, como se fosse uma gaveta trancada onde os mesmos se armazenam. Elas podem autoalienarem - se ou estarem
predispostas a serem alienadas, segundo a vontade dos meios de
comunicação, do sistema ou do governo.
Quando o país esteve mergulhado em um período de massacre social
como o da ditadura, podemos indagar porque se correu coletivamente para
processos de catarse. Acredito ser este um fenômeno relacionado à Internet de
hoje. A Internet é a catarse do momento, como o futebol foi na década de 70, e como o LSD foi na década de 60, bem como a ideologia do paz e amor.
Apesar de algumas vezes gastarmos nosso tempo com uma série de descobertas e invenções que nem sempre resultam em inovações
positivas para o mundo, em outras ocasiões estas mesmas descobertas são reveladas a partir de fases negativas da humanidade, caracterizadas por guerras, chacinas, e outras barbaridades, provenientes da natureza humana.
Nos países de Terceiro Mundo se vê que cantores sertanejos e jogadores de futebol vão se tornando classes emergentes, enquanto professores estão cada dia mais pobres. Ilude-se o pai que acha que, comprando um computador para seu filho, está garantindo a ele um futuro melhor. As coisas não são tão simples assim, e esta é uma das tantas questões do porque a política é fundamental.
O que há de novo, além do fato do homem projetar em si mesmo
a vontade de se comunicar com seu semelhante, desse sentimento do álter,
da busca do outro como elemento de complementação de si mesmo, de
compartilhar com o outro a sua forma de ser e estar no mundo? De falar de si
mesmo ao outro, usando gestos, palavras, códigos e até, quase de forma metafórica visual, de transpirar no computador?
O fato da revolução dos meios de comunicação vir precipitando no planeta uma sintonia entre países, só imaginada antes em obras de
literatura de ficção científica, não esclarece ou mostra que as prioridades
políticas do século XX são de ficção científica também, nem que a modificação na relação tempo-informação muda a relação desenvolvimento sociedade.
Verificamos que a culpa alienatória atribuída durante anos somente à televisão talvez não seja somente da televisão, mas englobe universos políticos e psicológicos que a televisão talvez só tenha reafirmado e não criado na sociedade. Aí, vale uma análise não somente sócio - política quanto à luz da psicologia social; estudar o fenômeno do porque em um meio livre como a Internet as pessoas têm ainda necessidade de falsificar suas
emoções e suas identidades.
Com a aquisição de meios de comunicação potencializados por
essas novas tecnologias, que nos levam onde queremos ir sem que
precisemos sair de casa, ou seja, tudo da rua para casa, do público ao
privado: o supermercado, a universidade, o banco e as diversões, como cassinos e outros.
O próprio processo eleitoral hoje, devido as novas tecnologias de
comunicação, torna-se cada vez mais conturbado, cada vez menos
democrático, porque estamos a cada dia mais elegendo o político mais bem
maquiado pela computação gráfica, pelos comícios eletrônicos ou pelo
marketing visual – virtual , ao invés de fazê–lo pelas propostas e pelos
programas políticos por ele apresentados, ou pela racionalidade que deveríamos exercer antes de votar.
É o cirurgião plástico eletrônico que
procura despertar a perfeição artificial no telespectador, no receptor e no seu
narciso adormecido na imensidão do virtual, vendendo diariamente uma nova imagem do feio para se comparar com o belo ao olhar o espelho da fantasia pluralista que invade nossa intimidade em nossos lares, quotidianamente.