Já não sei mais a diferença de ti, de mim, da coisa perguntada, do silêncio da coisa irrespondida.
Frases de Cecília Meireles
328 frases
“Acima de nós, em redor de nós as palavras voam e às vezes pousam.”
Se as respostas foram dadas e você não faz parte da solução, então é porque o problema é você!
Permita que eu que me conforme em ser sozinha.
A vida só é possivel reinventada.
O instante existe (...) Não sou alegre nem sou triste: (...) Não sito gozo nem tormento. Atravesso noite e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço. não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.
Pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
Se volto sobre o meu passo, é já distância perdida. Meu coração, coisa de aço,
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Se volto sobre o meu passo, é já distância perdida. Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida.
Inscrição na Areia O meu amor não tem importância nenhuma.
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Inscrição na Areia O meu amor não tem importância nenhuma. Não tem o peso nem de uma rosa de espuma! Desfolha-se por quem? Para quem se perfuma? O meu amor não tem importância nenhuma.
Apresentação Aqui está minha vida - esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento.
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Apresentação Aqui está minha vida - esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento. Aqui está minha voz - esta concha vazia, sombra de som curtindo o seu próprio lamento. Aqui está minha dor - este coral quebrado, sobrevivendo ao seu patético momento. Aqui está minha herança - este mar solitário, que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.
De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto.
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De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto. Subo monte, desço monte. Eu ando sozinha ao longo da noite. Mas a estrela é minha.
Pássaro Aquilo que ontem cantava já não canta.
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Pássaro Aquilo que ontem cantava já não canta. Morreu de uma flor na boca: não do espinho na garganta. Ele amava a água sem sede, e, em verdade, tendo asas, fitava o tempo, livre de necessidade. Não foi desejo ou imprudência: não foi nada. E o dia toca em silêncio a desventura causada. Se acaso isso é desventura: ir-se a vida sobre uma rosa tão bela, por uma tênue ferida.
Sou entre flor e nuvem, estrela e mar. Por que havemos de ser unicamente
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Sou entre flor e nuvem, estrela e mar. Por que havemos de ser unicamente humanos, limitados em chorar? Não encontro caminhos fáceis de andar. Meu rosto vário desorienta as firmes pedras que não sabem de água e de ar.
O que está perdido na vida Vive atráves da essência do seu ser Que é sustentado pelo poeta
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O que está perdido na vida Vive atráves da essência do seu ser Que é sustentado pelo poeta Na memória e no verso
Suspensas Fugas Para pensar em ti todas as horas fogem: o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
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Suspensas Fugas Para pensar em ti todas as horas fogem: o tempo humano expira em lágrima e cegueira. Tudo são praias onde o mar afoga o amor. Quero a insônia, a vigília, uma clarividência deste instante que habito – ai, meu domínio triste!, ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim. Vejo a flor; vejo no ar a mensagem das nuvens - e na minha memória és imortalidade - vejo as datas, escuto o próprio coração. E depois o silêncio. E teus olhos abertos nos meus fechados. E esta ausência em minha boca: pois bem sei que falar é o mesmo que morrer: Da vida à Vida, suspensas fugas.
Mar Absoluto Foi desde sempre o mar, E multidões passadas me empurravam
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Mar Absoluto Foi desde sempre o mar, E multidões passadas me empurravam como o barco esquecido. Agora recordo que falavam da revolta dos ventos, de linhos, de cordas, de ferros, de sereias dadas à costa. E o rosto de meus avós estava caído pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas, e pelos mares do Norte, duros de gelo. Então, é comigo que falam, sou eu que devo ir. Porque não há ninguém, tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos. E tenho de procurar meus tios remotos afogados. Tenho de levar-lhes redes de rezas, campos convertidos em velas, barcas sobrenaturais com peixes mensageiros e cantos náuticos. E fico tonta. acordada de repente nas praias tumultuosas. E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos. "Para adiante! Pelo mar largo! Livrando o corpo da lição da areia! Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!" Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas. A solidez da terra, monótona, parece-mos fraca ilusão. Queremos a ilusão grande do mar, multiplicada em suas malhas de perigo. Queremos a sua solidão robusta, uma solidão para todos os lados, uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo, e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia. O alento heróico do mar tem seu pólo secreto, que os homens sentem, seduzidos e medrosos. O mar é só mar, desprovido de apegos, matando-se e recuperando-se, correndo como um touro azul por sua própria sombra, e arremetendo com bravura contra ninguém, e sendo depois a pura sombra de si mesmo, por si mesmo vencido. É o seu grande exercício. Não precisa do destino fixo da terra, ele que, ao mesmo tempo, é o dançarino e a sua dança. Tem um reino de metamorfose, para experiência: seu corpo é o seu próprio jogo, e sua eternidade lúdica não apenas gratuita: mas perfeita. Baralha seus altos contrastes: cavalo, épico, anêmona suave, entrega-se todos, despreza ritmo jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si, da sua terminante grandeza despojada. Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões: água de todas as possibilidades, mas sem fraqueza nenhuma. E assim como água fala-me. Atira-me búzios, como lembranças de sua voz, e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino. Não me chama para que siga por cima dele, nem por dentro de si: mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom. Não me quer arrastar como meus tios outrora, nem lentamente conduzida. como meus avós, de serenos olhos certeiros. Aceita-me apenas convertida em sua natureza: plástica, fluida, disponível, igual a ele, em constante solilóquio, sem exigências de princípio e fim, desprendida de terra e céu. E eu, que viera cautelosa, por procurar gente passada, suspeito que me enganei, que há outras ordens, que não foram ouvidas; que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos, e o mar a que me mandam não é apenas este mar. Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças, mas outro, que se parece com ele como se parecem os vultos dos sonhos dormidos. E entre água e estrela estudo a solidão. E recordo minha herança de cordas e âncoras, e encontro tudo sobre-humano. E este mar visível levanta para mim uma face espantosa. E retrai-se, ao dizer-me o que preciso. E é logo uma pequena concha fervilhante, nódoa líquida e instável, célula azul sumindo-se no reino de um outro mar: ah! do Mar Absoluto.
Canção da tarde no campo Caminho do campo verde estrada depois de estrada.
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Canção da tarde no campo Caminho do campo verde estrada depois de estrada. Cerca de flores, palmeiras, serra azul, água calada. Eu ando sozinha no meio do vale. Mas a tarde é minha. Meus pés vão pisando a terra Que é a imagem da minha vida: tão vazia, mas tão bela, tão certa, mas tão perdida! Eu ando sozinha por cima de pedras. Mas a tarde é minha. Os meus passos no caminho são como os passos da lua; vou chegando, vai fugindo, minha alma é a sombra da tua. Eu ando sozinha por dentro de bosques. Mas a fonte é minha. De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto, meu peito é puro deserto. Subo monte, desço monte. Eu ando sozinha ao longo da noite. Mas a estrela é minha.
CANÇÃO EXCÊNTRICA Ando à procura de espaço para o desenho da vida.
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CANÇÃO EXCÊNTRICA Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Em números me embaraço e perco sempre a medida. Se penso encontrar saída, em vez de abrir um compasso, protejo-me num abraço e gero uma despedida. Se volto sobre o meu passo, é já distância perdida. Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida. Já por exausta e descrida não me animo a um breve traço: - saudosa do que não faço, - do que faço, arrependida.
Não faças de ti um sonho a realizar. Vai. Sem caminho marcado. Tu és o de todos os caminhos.
Canção Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos,
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Canção Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos, que os ventos me arrastam contra o meu desejo! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto, nácar de silêncio que o mar comprime, ó lábio, limite do instante absoluto! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço a anêmona aberta na tua face e em redor dos muros o vento inimigo... Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te digo...
Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender.
De que são feitos os dias? - De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças.
EXPLICAÇÃO O pensamento é triste; o amor, insuficiente; e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
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EXPLICAÇÃO O pensamento é triste; o amor, insuficiente; e eu quero sempre mais do que vem nos milagres. Deixo que a terra me sustente: guardo o resto para mais tarde. Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece. A antigos ventos dei as lágrimas que tinha. A estrela sobe, a estrela desce... - espero a minha própria vinda. (Navego pela memória sem margens. Alguém conta a minha história e alguém mata os personagens.)