Todas as palavras são conhecidas, mas renascem com a criança.
Frases de Carlos Drummond de Andrade
498 frases
A educação visa a melhorar a natureza do homem, e isto nem sempre é aceito pelo interessado.
O humorismo é a aptidão para despertar nos outros a alegria que não sentimos.
O ano passado O ano passado não passou, continua incessantemente.
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O ano passado O ano passado não passou, continua incessantemente. Em vão marco novos encontros. Todos são encontros passados. As ruas, sempre do ano passado, e as pessoas, também as mesmas, com iguais gestos e falas. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer, de sol pleno, de descambar como no repetidíssimo ano passado. Embora sepultos, os mortos do ano passado sepultam-se todos os dias. Escuto os medos, conto as libélulas, mastigo o pão do ano passado. E será sempre assim daqui por diante. Não consigo evacuar o ano passado.
Passagem do ano Passagem O último dia do ano
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Passagem do ano Passagem O último dia do ano não é o último dia do tempo. Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão. O último dia do tempo não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olho e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até se Deus… Recebe com simplicidade este presente do acaso. Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer. O recurso de se embriagar. O recurso da dança e do grito, o recurso da bola colorida, o recurso de Kant e da poesia, todos eles… e nenhum resolve. Surge a manhã de um novo ano. As coisas estão limpas, ordenadas. O corpo gasto renova-se em espuma. Todos os sentidos alerta funcionam. A boca está comendo vida. A boca está entupida de vida. A vida escorre da boca, lambuza as mãos, a calçada. A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
O avarento perfeito economiza a ideia de dinheiro evitando falar nele.
A aventura não está nos fatos exteriores, mas na capacidade de figurá-los e vivenciá-los.
O artista não sabe que o mundo existe fora da arte; por isso atreve-se a criar.
O trabalho constitui ao mesmo tempo mais-valia e não valia, conforme o ângulo de que o consideramos.
A arte vivifica a humanidade e aniquila o artista.
A história das artes não registra os nomes de dois artistas geniais: o primeiro pintor e o primeiro escultor.
A obra de arte é o resultado feliz de uma angústia contínua.
O divertimento do aviador é andar de pé no chão.
O artista plástico violenta a realidade para melhor ou para pior; é um terrorista bem ou malsucedido.
Os cavaleiros do Apocalipse, apenas quatro, não dão conta do serviço.
Os dicionários registram as palavras amorosas e omitem os ruídos que as entremeiam ou substituem.
Há uma hora propícia ao arrependimento: a da morte, quando já não é possível nos arrependermos dele.
O aforismo constitui uma das maiores pretensões da inteligência, a de reger a vida.
Não se inventou ainda a anedota triste, para ocasiões fúnebres.
Cartas de amor: imitação nem sempre feliz da linguagem real do amor.
Tudo é mais simples diante de um copo d’água.
A alfabetização é a primeira coluna da estrutura social; o analfabetismo pode ser a segunda.
É mais fácil conceber um anjo sob aspecto de pessoa que se pareça com ele do que como anjo propriamente dito.
Os temperamentos ávidos de guerrear sofrem com a paz e distraem-se no amor.