— A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos.
Frases de Carlos Drummond de Andrade
498 frases
O anonimato combina o prazer da vilania com a virtude da discrição.
O animal não aprende nossas virtudes, se as tivermos, porém adquire nossos vícios. O animal costuma compreender mais e melhor a nossa linguagem do que nós a deles. Não se sabe por que os irracionais falam tão pouco, e os racionais tanto.
Certas amizades comprometem a ideia de amizade.
É preciso regar as flores sobre o jazigo de amizades extintas.
A ambição torna os homens audazes; a audácia sem ambição é privilégio de poucos.
Para se alcançar um ideal é necessário ter ambição. E ter ambição é perder de vista o ideal.
O animal de circo faz prodígios que o domador, se fosse animal, seria incapaz de executar.
A superioridade do animal sobre o homem está, entre outras coisas, na discrição com que sofre.
O amanhecer é uma festa para convidados que estão dormindo.
Às vezes sou tentado a me admirar, e isto me causa a maior admiração.
Pouco importa o objeto da ambição; ela vale por si, independente do alvo. Sempre necessitamos ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos faz desambiciosos. Todas as ambições se parecem, mesmo que se contradigam; só a desambição não tem similar.
Não é obrigatório ter motivo para estar alegre; o melhor é dispensá-lo.
INOCENTES DO LEBLON Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas?
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INOCENTES DO LEBLON Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe emigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem.
Precisamos descobrir o Brasill! Escondidos atrás das florestas, com água dos rios no meio,
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Precisamos descobrir o Brasill! Escondidos atrás das florestas, com água dos rios no meio, o Brasil está dormindo, coitado.
Tudo é possível só eu impossível.
Havia uma pedra no caminho, no caminho havia uma pedra.
A noite dissolve os homens A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos.
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A noite dissolve os homens A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança… Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. E o amor não abre caminho na noite. A noite é mortal, completa, sem reticências, a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio… Os suicidas tinham razão. Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos, teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, minha carne estremece na certeza de tua vinda. O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio… Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.
museu da inconfidência São palavras no chão e memória nos autos.
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museu da inconfidência São palavras no chão e memória nos autos. As casas inda restam, os amores, mais não. E restam poucas roupas, sobrepeliz de pároco, a vara de um juiz, anjos, púrpuras, ecos. Macia flor de olvido, sem aroma governas o tempo ingovernável. Muros pranteiam. Só. Toda história é remorso.
Balanço A pobreza do eu a opulência do mundo.
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Balanço A pobreza do eu a opulência do mundo. A opulência do eu A pobreza do mundo. A pobreza de tudo a opulência de tudo. A incerteza de tudo na certeza de nada.
NASCER DE NOVO Nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto,
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NASCER DE NOVO Nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto, a dor de formas repartidas. Tão doce era viver sem alma, no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Agora, na revelação frontal do dia, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas. Sondamos, inquirimos sem resposta: Nada se ajusta, deste lado, à placidez do outro? É tudo guerra, dúvida no exílio? O incerto e suas lajes criptográficas? Viver é torturar-se, consumir-se à míngua de qualquer razão de vida? Eis que um segundo nascimento, não adivinhado, sem anúncio, resgata o sofrimento do primeiro, e o tempo se redoura. Amor, este é o seu nome. Amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir. O real veste nova realidade, a linguagem encontra seu motivo até mesmo nos lances de silêncio. A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: Não sou eu, sou o Outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz a ser retrato, espelho, semelhança de gesto alheio aberto em rosa.
Órion A primeira namorada, tão alta Que o beijo não alcançava,
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Órion A primeira namorada, tão alta Que o beijo não alcançava, O pescoço não alcançava, Nem mesmo a voz a alcançava. Eram quilômetros de silêncio. Luzia na janela do sobrado.
Entre as desesperanças da hora, e à falta de melhores notícias, venho informar-lhes que nasceu uma orquídea...
O tempo consumido em aprender coisas que não interessam priva-nos de descobrir as interessantes.