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Frases de Carlos Alberto Rodrigues Alves

45 frases

MERCEDES: GRACIAS A LA VIDA! Morreu Mercedes Sosa, a voz das veias abertas da América morena. Cantora que fez os corpos de tantos amedrontados se mobilizarem para resistência.
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MERCEDES: GRACIAS A LA VIDA! Morreu Mercedes Sosa, a voz das veias abertas da América morena. Cantora que fez os corpos de tantos amedrontados se mobilizarem para resistência. Nos pesados anos de chumbo, os que optaram pela força do fuzil entenderam, e com razão, que suas músicas lhes eram mais perigosas que a luta armada. Por isso, trataram de prendê-la , e deportá-la. Erraram ao perceber que ela se tornaria ícone de “una Hermana mas hermosa que se chama liberdade” Erraram também ao não imaginarem que quanto mais as botas pesadas lhe espezinhasse, tanto mais forte ela deixava sair de sua voz e de seu bumbo-engajado, os versos e a alma do poeta : “Os poderosos podem matar uma, duas ou três flores, mas não podem impedir a chega da primavera”. Assisti “ la Negra” no teatro Guaíra, quando ela voltava de seu exílio em Paris e Madri. Período de redemocratização do Brasil. Período que estavam voltando as flores. O teatro veio abaixo quando ela cantou Yo tengo tantos hermanos Que no los puedo contar En el valle en la montaña En la pampa y en el mar Cada cual con sus trabajos Con sus sueños cada cual Con la esperanza delante Con los recuerdos detrás Yo tengo tantos hermanos Que no los puedo contar Morreu Mercedes Sosa nessa primavera. Sua voz está mais florida que nunca! Algumas de suas utopias se concretizaram. Outras ainda nascerão de suas canções pois estas não podem morrer jamais. Eu que um dia a vi esta guerreira ao vivo, continuo ouvindo-a quando empunho meu violão para cantar a canção que traduz o nome de Mercedes: “Gracias a la vida que me há dado tanto...”!

A ARTE DE ENVELHECER Manchete que estava estampada no jornal do bairro: "Velho de 51 anos morre atropelado no dia mundial sem carro".
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A ARTE DE ENVELHECER Manchete que estava estampada no jornal do bairro: "Velho de 51 anos morre atropelado no dia mundial sem carro". Quase morri também! 51 anos...velho??? Eu tenho 52 ! Em compensação, no mesmo dia, recebi de um amigo, um artigo em que a jornalista Regina Brett, de Cleaveland, celebrava sua chegada aos 90 anos no apogeu de seu trabalho criativo e cheia de energia. Alguns dos seus segredos: * Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que se trata a jornada deles. * Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe, Deus nunca pisca. * Respire bem fundo. Isso acalma a mente. * Ninguém é responsável pela sua felicidade, além de você. * Perdoe tudo de todos. * O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta. * Deus te ama por causa de quem Ele é, não pelo que você fez ou deixou de fazer. * Seus filhos só têm uma infância. * Tudo o que realmente importa, no final, é que você amou. * A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente Quando disse para o meu amigo Mário que também pretendo chegar “lá-pela-casa-dos-noventa-cem", ele reagiu dizendo: " Não vamos limitar a graça de Deus"!

JESUS E A VIOLA Jesus quando andava pela Galileia sempre carregando São Pedro na boleia
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JESUS E A VIOLA Jesus quando andava pela Galileia sempre carregando São Pedro na boleia passava certa feita, por uma das pairagens da Palestina e em uma bela capela, foi convidado pra ver ali rezando, um povo ensimesmado Pararam os dois na porta! Só um pouquinho... Depois seguiram em frente, os dois pelo caminho. Lá adiante-e-pelas-tantas, espiaram um casebre alegre onde se ouvia uma viola roceira-bem-brejeira. Estava nas mãos de um violeiro que tirava versos em fé em forma de toada, de pagode, e chamamé: Se um dia eu chegar no céu Viola entra primeiro Viola cheia de fitas, ta dengosa, ta bonita A festa estava uma alegria que até o mestre seduzia visto que Ele , pegando a viola, entrou também na cantoria deslizou nas cordas seus dedos com maestria e ao som de divinas canções harpejou a viola em vinte-e-uma-afinações indo embora só quando já raiava o dia e quando então abençoava os foliões Diz a lenda que São Pedro com ar indignado perguntou ao Bom Mestre: Por que Senhor? Lá atrás os fiéis estavam a rezar e não quiseste aquele santo-chão pisar? E mais adiante , numa festa-de-farra-não-modesta, não só quiseste entrar, mas também dela fizeste “questã” de participar!!!? O Senhor, em tom sereno, então lhe respondeu: É verdade compadre! Lá atrás estavam rezando... Porém vi muita gente a maldade ruminando. Aqui não! Todos estão felizes e cantando! E os males-do-coisa-ruim estão exorcizando! Aprenda essa verdade se é que tu me prezas: Uma boa fé cantada, vale mais que cinco rezas!...

SOBRE DEUS E O DIABO NUM REPIQUE DA VIOLA Foi Guimarães Rosa quem melhor descreveu... Foi Glauber Rocha quem melhor encenou... Mas foi a dupla Edu Lobo e Capinam quem melhor cantou a trama acima. Tudo está codificado em poucas palavras na canção “Viola fora de moda”, um mantra…
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SOBRE DEUS E O DIABO NUM REPIQUE DA VIOLA Foi Guimarães Rosa quem melhor descreveu... Foi Glauber Rocha quem melhor encenou... Mas foi a dupla Edu Lobo e Capinam quem melhor cantou a trama acima. Tudo está codificado em poucas palavras na canção “Viola fora de moda”, um mantra bem aos moldes-mágicos da literatura surrealista. Nela, o “Tinhoso”, debochado, apresenta-se para tentar fazer um pacto com um violeiro infeliz. Esse violeiro é uma metáfora de nós mesmos na dança da vida. Veja a releitura que, tirando as alparcas dos pés, arrisco a fazer: “Moda de viola” Moda de viola é o espaço artístico/religioso onde sempre há pelejas místicas entre Deus e o “Cão”. Disso sabem muito bem os violeiros que , no sertão do Urucuia, entre um benzimento e outro, vivem proclamando nas noites de lua cheia: “Bom violeiro ou vem de Deus ou vem do “Demo”. “De um cego infeliz podre na raiz, ah, ah” A canção é um lamento “de profundis” que brota de uma alma que se sente relegada ao Hades-da-condição-humana. O violeiro é cego, infeliz e podre na raiz. Mas, apesar do inferno da inutilidade, ele ainda canta, nem que para isso precise ouvir um eco de sarcasmo-sepulcral: “ah, ah”! Violeiro não vive só de amor e comédia. Ele tira versos da tragédia que o amarga nos dramas históricos. Faz coro com Nietzsche: ”Amo aqueles que não sabem viver a não ser como os que sucumbem..." “Vivo sem futuro, num lugar escuro, e o diabo diz, ah, ah” Nos porões da existência, esse assum-preto-sub-homem, escancara a sua falta de perspectiva. Mais..., tem que ver cara-a-cara o responsável direto pela situação: o “Bode-preto”, que, não bastasse ser o causador da infelicidade, deixa a dor ainda mais cruel por continuar a soltar sua ironia-de-penumbra-dantesca ao final da frase melódica: “ah, ah”!... No livro sagrado de Jó, o “Cujo” aparece como um ministro do primeiro escalão de Deus, responsável pelo “controle de qualidade do criador”. Parece que aqui o caso é semelhante. “Disso eu me encarrego, moda de viola não dá luz a cego, ah, ah!” No auge da moda aparece o nó da trama bem à moda roseana: a possibilidade de um pacto com o “Gramulhão”. A frase “disso eu me encarrego” é um eco das palavras apresentadas a Jesus: “Tudo isso te darei se prostrado me adorares”. Aqui o “Coisa-ruim” subestima o instrumento sagrado do moribundo dizendo que ela não dá luz a cego. Era como se dissesse, “jogue fora tua viola e vem comigo” . E ainda continua impingindo-lhe a gargalhada-da-desgraça: “ah, ah”...! Seguem acordes sem palavras... Conclusões inconclusas: Amigo violeiro: Não acredite no “Tristonho”. Ele é o pai da mentira! São Gonçalo o espantou. Para isso não usou a cortante espada de São Jorge, mas o poder exorcizante de seus acordes-rio-acima-e-celestiais. Uma viola bem tocada vale por duas rezas! Agüenta aí cantador! Está escrito nas veredas do Grande Sertão: “Deus é paciência; o contrário é o diabo”. Lembre de outro musicante que, fazendo caminho , cantarolava: “Faz escuro, mas eu canto porque amanhã vai ser bom”. Saiba que nos ponteios da vida, o "Todo Poderoso" não tem concorrente. Portanto faça o “Oculto” picar a mula repicando a viola, mesmo que ela seja como a minha, assim, fora de moda!

O RIO PARANAPANEMA Nasci não-muito-longe das barrancas do Paranapanema. Esse rio que passa na minha aldeia, não é o Tejo e nem o Nilo, mas também é cheio de contos, causos e cantos.
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O RIO PARANAPANEMA Nasci não-muito-longe das barrancas do Paranapanema. Esse rio que passa na minha aldeia, não é o Tejo e nem o Nilo, mas também é cheio de contos, causos e cantos. Místico que sou, sempre acreditei que os rios têm alma. Choram, guardam segredos, sangram e sorriam. Também pensava assim Tales de Mileto, filósofo grego, segundo o qual a água é o elemento primeiro do universo. Meu rio, que hoje recebe o status de “rio mais limpo do Estado de São Paulo”, vira e mexe é alvo de interesses escusos. Estes, aliás, sempre travestidos de um pseudo-progresso-autossustentável como canta a canção de uma viola engajada: " Meia dúzia de carrascos movidos pela ambição Tentaram matar o rio com indústrias na região O povo da redondeza fez das tripas coração A empresa criminosa bateu com a cara no chão" Sempre que sei de novas investidas contra o “Panema” tenho vontade de armar uma esquadra de barcos-cheios-de-carrancas, iguais aquelas do Rio São Francisco, para espantar esses maus-espíritos-que--se-entocaiam na região. Mas aí, há amigos que me convencem que a poesia e o canto dos violeiros locais, são a melhor cruzada para mobilizar o povo e proteger o rio. De fato, a voz e a viola de Tião Carrero e Pardinho sempre se ouve em suas águas abençoadas: "O rio Paranapanema é obra do Criador É espelho das estrelas o mundo do pescador No livro da natureza vai entrar mais um poema Vamos cantar a beleza do rio Paranapanema O rio Paranapanema deságua no Paraná Mas toda a sua beleza deságua no meu cantar" ( Para meu pai que me levava pescar no Panema)

SOBRE A ARTE DE ENVELHECER Estava estampada no jornal do bairro: "Velho de 51 anos morre atropelado no dia mundial sem carro".
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SOBRE A ARTE DE ENVELHECER Estava estampada no jornal do bairro: "Velho de 51 anos morre atropelado no dia mundial sem carro". Quase morri também! 51 anos...velho!!! Eu tenho 52! Em compensação, no mesmo dia, recebi de um amigo, um artigo em que a jornalista Regina Brett, de Cleaveland, celebrava sua chegada aos 90 anos no apogeu de seu trabalho criativo e cheia de energia. Alguns dos seus segredos: Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que se trata a jornada deles. Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe, Deus nunca pisca. Respire bem fundo. Isso acalma a mente. Ninguém é responsável pela sua felicidade, além de você. Perdoe tudo de todos. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta. Deus te ama por causa de quem Ele é, não pelo que você fez ou deixou de fazer. Seus filhos só têm uma infância. Tudo o que realmente importa, no final, é que você amou. A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente Quando disse para um amigo Mário que também pretendo chegar “lá-pela-casa-dos-noventa-cem", ele reagiu dizendo: " Não vamos limitar a graça de Deus"!

CASAR PODE DAR CERTO O bar do alemão é um dos pontos turísticos mais oníricos de Curitiba. Dia desses eu estava lá com o Quinha e o Sérgio, amigos de copo e de cruz.
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CASAR PODE DAR CERTO O bar do alemão é um dos pontos turísticos mais oníricos de Curitiba. Dia desses eu estava lá com o Quinha e o Sérgio, amigos de copo e de cruz. O garçom me trouxe um torpedo com palavras-em-alto-astral: “Reverendo: Tome um chopp em nossa homenagem. Há 17 anos o senhor realizou nosso casamento”. Ass: Viviane e Cristian. Guardei o guardanapo com carinho, atendi ao pedido do casal e fiquei feliz ao lembrar que casar pode dar certo. Depois, compartilhei com os amigos as palavras que pronunciei na cerimônia. Eram mais ou menos assim: Que os beijos de vocês, namorados, jamais fiquem secos Que os abraços de vocês, amantes, jamais fiquem frouxos Que os pés de vocês, andarilhos da ternura, encontrem-se à noite Que os olhos de vocês, cúmplices, vejam-se o dia todo Que as palavras de vocês, poetas, sejam sempre leves Que os lábios de vocês, filhos da felicidade, sejam sempre doces ao coração E que vocês, bailarinos da vida, dancem sempre a dança mágica do amor. Como disse, casar pode dar certo! Portanto, um brinde para quem conquistou tal façanha! Rev. Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE A TURMA DE TEOLOGIA 1980 Existem coisas que são mais belas no mundo da saudade. Tentar fazê-las voltar ao presente, muitas vezes , é um exercício fadado ao desencantamento.
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SOBRE A TURMA DE TEOLOGIA 1980 Existem coisas que são mais belas no mundo da saudade. Tentar fazê-las voltar ao presente, muitas vezes , é um exercício fadado ao desencantamento. Digo isso como prelúdio a uma informação. Minha turma de teologia completará em pouco tempo, 29 anos de formatura e os colegas mais nostálgicos trabalham, herculeamente, na promoção de um reencontro. Ainda não estou convencido a ir. As razões são simples. Acho que tenho medo de me sentir tentado a comparar a música alegre que nos embalava naquele tempo, com a canção mais cadenciada que nos acalenta hoje em dia! Ah, sim! Preocupa-me também ser chamado de barrigudo! Por outro lado, acho que não me sentirei confortável se presenciar algum colega conformado em ser um sólido-habitante-do-presente-à-espera-da-aposentadoria. Quero mesmo é guardar daquele tempo, as imagens de nossas bravatas estudantis, as armadilhas banhadas que fazíamos aos professores e as heresias escandalosas que impingíamos aos monges mais santarrões. Outras tantas lembranças que ainda me fazem sorrir, só sairão da caixa de Pandora no juízo final. Aos meus amigos que lá irão deixo-lhes, saudosamente, uma frase musical que ilustra meu pensamento : A gente era feliz e sabia...

SOBRE MINHA PARÓQUIA Alguns amigos que me vêem pastoreando a cidade durante a semana, perguntam-me constantemente, sobre minha paróquia, pois querem ir lá no domingo. Digo-lhes sempre que "O mundo é minha paróquia". Como eles insistem e me pedem carinhosamente mais detalhes sobr…
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SOBRE MINHA PARÓQUIA Alguns amigos que me vêem pastoreando a cidade durante a semana, perguntam-me constantemente, sobre minha paróquia, pois querem ir lá no domingo. Digo-lhes sempre que "O mundo é minha paróquia". Como eles insistem e me pedem carinhosamente mais detalhes sobre minha Pastoral, cito-lhes o poema-teológico de Emily Dickinson: “Alguns guardam o domingo indo à Igreja, eu o guardo ficando em casa tendo um sabiá como cantor e um pomar por santuário. Alguns guardam o domingo em vestes brancas, mas eu só uso minhas asas. E ao invés do repicar dos sinos na Igreja, nosso pássaro canta na palmeira. É Deus que está pregando, pregador admirável! E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final, eu o encontro o tempo todo no quintal.” Quando eu termino de recitar este catecismo, alguns desses irmãos repetem felizes e com devoção: Amém, estamos salvos!

SOBRE A MÚSICA No principio era a música, a música estava com a vida e a música era a vida. Ela estava no princípio no assobio dos ventos, na dança das árvores e no sussurro dos riachos.
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SOBRE A MÚSICA No principio era a música, a música estava com a vida e a música era a vida. Ela estava no princípio no assobio dos ventos, na dança das árvores e no sussurro dos riachos. E a música se fez canto e habitou entre nós, cheio de encanto e de paixão. É por isso que vivemos mergulhados em mares músicais. Em todo lugar e a qualquer hora. Seja como canção, como videoclipe, como erudita, como popular, atonal ou eletrônica. “Na rua, na chuva , na fazenda, ou numa casinha de sapé”. Conforme profetizou Fernando Pessoa Qualquer música, ah, qualquer, logo que me tire da alma Esta incerteza que quer Qualquer música calma! Qualquer música - guitarra, Viola, harmônio, realejo... Um canto que se desgarra... Um sonho em que nada vejo... Qualquer coisa que não vida! Jota, fado, a confusão Da última dança vivida... Que eu não sinta o coração! Nós somos o que cantamos. Em escalas de tons maiores ou menores, transcritas em pautas existenciais, harpejamos acordes nos quais ressoam nossos sonhos, nossas decepções, nossas saudades e nossas alegrias. Ainda que não saibamos distinguir um bemol de um sustenido , em cantos, em ritmos-e-harmonias-por-nós executados-ou-ouvidos, traçamos nossa vida. Afinada ou desafinadamente! (Carlos Alberto Rodrigues Alves, amigo e pai do Kauan, menino bom, que ouve todas as noites minhas cantigas de ninar)

BOM PRINCÍPIO Passei o “ bom princípio” no meio do mato, com o cheiro do capim-limão, nas barrancas do Paranapanema. Sem foguetórios, sem TV, sem comilança! Era-me necessário fazer, sem nenhuma bravata, um poético e silencioso protesto contra o inferno-nosso-de-cada-dia;
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BOM PRINCÍPIO Passei o “ bom princípio” no meio do mato, com o cheiro do capim-limão, nas barrancas do Paranapanema. Sem foguetórios, sem TV, sem comilança! Era-me necessário fazer, sem nenhuma bravata, um poético e silencioso protesto contra o inferno-nosso-de-cada-dia; Passei o “ bom princípio”, no meio dos sapos, dos martins-pescadores e dos pirilampos. Sem músicas breganejas, sem novelas e sem arruaças! Era-me necessário fazer, sem nenhuma piequice, uma saudação à família, à natureza e à minha viola; Passei o “ bom princípio” no meio do vale, com o sussurro das águas, envolto aos devaneios dos sacis-pererês. Sem relatórios piedosos, sem sacerdotes por perto, sem salamaleques! Era-me necessário fazer, sem nenhuma igrejice, uma confissão-de-fé-diferente para o ano novo. Por isso cantarolei, sob os acordes da viola caipira e com a alegria luxuosa dos compadres que conheci, meu salmo-caboclo, em altíssimo astral: SARMO VINTE E TREIS O sinhô é meu pastô e nada há de me fartá Ele me faiz caminhá pelos verde capinzá Ele tamém me leva pros córgos de águas carmas Inda que eu tenha que andá nos buraco assombrado lá pelas encruzinhadas do capeta não careço tê medo de nada a-modo-de-quê Ele é mais forte que o “coisa-ruim” Ele sempre nos aprepara uma boa bóia na frente de tudo quanto é maracutaia E é assim que um dia quando a gente tivé mais-prá-lá-do-que-prá-cá nóis vai morá no rancho do sinhô pra inté nunca mais se acabá... Êêêêêêtttttta sarmo bão sô!!! Vi então que o sertão compreendeu e o ano novo amanheceu em paz...

SOBRE O ANJO DA MORTE QUE ME RONDOU O filósofo-educador Edgar Morin, autor de "O homem e a morte", lembra que a ciência que pesou o sol, continuou como que intimidada e trêmula diante do outro sol, a morte. Não é o meu caso! Tenho uma hiper-consciência de minha finitude. Por is…
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SOBRE O ANJO DA MORTE QUE ME RONDOU O filósofo-educador Edgar Morin, autor de "O homem e a morte", lembra que a ciência que pesou o sol, continuou como que intimidada e trêmula diante do outro sol, a morte. Não é o meu caso! Tenho uma hiper-consciência de minha finitude. Por isso não tenho medo da morte! Aprendi isso com meu pai que, antes de morrer me pediu , enfaticamente: “ Meu filho, coloque no meu túmulo esta frase ‘ aqui jaz alguém muito a contra gosto’”. Digo isso como prelúdio a uma informação a meus amigos. Fui visitado esta semana pelo anjo da morte. Não morri como prova esta página que estou escrevendo! Mas estive quatro dias nos porões do Hades, na UTI. Suspeita de enfarto, angina, veia entupida, seja lá o que for, problema cardíaco enfim! Que cenário dantesco vivenciei! De um lado um irmão canceroso, de outro lado um irmão aidético. Ambos terminais! Eu no meio, como Jesus na cruz. Com uma diferença: O da minha esquerda e o da minha direita já estão no paraíso! Depois de minha infernal-purgação no hospital, com aparelhos-de-alta-técnica-e-alta-violação-a-este-vil-pecador, com mapeamentos-invasores-de-todas-minhas-intimidades, com exercícios-hercúleos-a-moda-do-Sísifo, o referido anjo resolveu me poupar. E me passou algumas lições: Primeira delas: - Amor e humor acima de tudo! Obrigado meu alegre anjo, mas você sabe que isso faço com sucesso. Que o digam minha família, meus amigos de fé, meus camaradas! Até aí estou aprovado! Conforme orientação de meus médicos este foi um dos segredos deste brasileiro-estatura-mediana-rubro-negro-de-coração, ainda estar vivo e ativo no planeta terra! Segunda lição: - Já que a vida é curta, curta cada momento da vida! Sabedoria de Hipócrates: “Breve é a vida, longa a arte! Fugidio é o momento, difícil a decisão, sábia a escolha”! Também sei disso meu sábio anjo! Vivo isso como filosofia de vida. Até aqui tenho nota dez! Terceira lição: - Trabalhe menos! Você não vai ficar rico! Faça só o que você gosta! Esta lição ainda não aprendi meu prudente anjo! Estou reprovado! Há muito tempo que não quero ficar rico, mas preciso pagar o de ontem! Que fazer? Devo evocar Vinícius de Moraes? “Depois faço a loteca com a patroa Quem sabe o nosso dia vai chegar E rio porque rico ri à toa Também não custa nada imaginar” Ou devo procurar ajuda de meus irmãos-de-fé-camaradas-de-vida-boa-sem-stress-sem-conta-pra-pagar??? Oh! Meus-gnomos-meus-elfos-meus-emos-meus-alquimistas-devotos-de-Onã-o-bárbaro: Marcão, Reginaldo, Edmar, Alessandro, Jaime, Dr. Luiz Antonio, Mânfio, queiram me dar a fórmula... Acho que nem vocês vão me ajudar! O jeito é continuar driblando a morte! Por enquanto, estou tendo sucesso! Enquanto ela não me encontra, vou zombando dela. Quando ela chegar, com suas carrancas, lembrarei do Tagore: "No dia em que a morte bater a tua porta que lhe oferecerás? Porei diante de minha hóspede o vaso cheio de minha vida. Não a deixarei ir de mãos vazias...'” Anjo da morte! Fique tranquilo, ainda não é chegada a minha hora! Quero viver mais 200 anos... (Aos amigos que torceram para que eu ficasse por aqui mesmo)

A PORTEIRA DO SÍTIO DO ANGELIM “ O real da vida se dá, nem no princípio e nem no final. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” . Guimarães Rosa Prezado compadre Angelim:
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A PORTEIRA DO SÍTIO DO ANGELIM “ O real da vida se dá, nem no princípio e nem no final. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” . Guimarães Rosa Prezado compadre Angelim: Quem chegar ao teu sítio verá, deslumbrado, que ali existe uma porteira que esconde segredos aos olhos normais. Impossível tentar comprendê-la apenas pelas leis da física. O poeta que a fotografou , emoldurou-a numa pintura em-preto-e-branco! Posso entender suas razões! Uma foto colorida é muito explícita , não dá a quem olha a possibilidade de fazer voar o pensamento. Já um retrato preto e branco sugere coisas, estimula a criatividade e dá asas à imaginação. É mais que uma cópia do original. “ O essencial é invisível aos olhos”, dizia “ 'Zé Perri'”! Somente quem possui a arte de ver com a alma é que pode usufruir da magia de ver além-das-coisas. Para Drumond, uma pedra no caminho é mais que uma pedra. Para Neruda, uma cebola é uma catedral. Assim também quem tiver olhos-além-das-leis-físicas, verá que a porteira que dá identidade ao teu recanto sagrado , tem uma mística, um ar transcendental, um feitiço que somente poetas-cantadores-do-sertão poderão entender. Parece tão fechada que por ela é impossível passar os burocratas, os teóricos racionalistas, os religiosos fundamentalistas. Parece tão mansa que é um convite escancarado para quem quiser adentrar a um universo habitado por coisas-de-outro-mundo. Dizem que a gente vê o que a gente é. Talvez isso explique o porquê deste singelo-aprendiz-de-violeiro ter sido seduzido pela magia que adorna a paisagem bela e bucólica do teu sítio. Eu pelo menos, toda vez que fico visualizando a onírica porteira , vejo nela satíricos sacis fazendo algazarras, fantasmagóricas almas-penadas fazendo ranger suas enferrujadas dobradiças, além de amantes-de-veredas-tortuosas vindo ali em noites-de-lua para reafirmar seus votos ou chorar suas despedidas. Tudo isso ao som de violeiros ponteando variações sobre a vida-e-a-morte. Fantástico retrato pintado com o tom dos personagens místicos do Guimarães Rosa, sempre inspirados por “um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz”! A quem estiver lendo minha carta endereçada ao compadre Angelim, e quiser certificar se tudo o que estou dizendo é verdade, basta apear no endereço http://www.angelim.mus.br/. Fique olhando a porteira! Quem conseguir ver outros mil personagens dali saindo, não pense que está ficando doido. É apenas um sinal de que está adquirindo olhos de um poeta-violeiro. Agora, quem adentrar propriamente no sítio do meu compadre, com certeza , não vai querer mais voltar para o lado de cá. Mas isso já é outra história... Viva Miguelim! Abraço do compadre Carlos Alberto

SALMO DA PAZ SONHADA A esta hora exatamente, Em que acordos de paz são incapazes de paz
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SALMO DA PAZ SONHADA A esta hora exatamente, Em que acordos de paz são incapazes de paz Existe, em algum canto de um casebre distante, Uma pintura pobre, mas rica, que diz: Lar Feliz! A esta hora exatamente, Em que os imperadores insensíveis Dizem que a guerra é santa, Existe, em algum lugar do planeta, um profeta que protesta na praça com o povo. A esta hora exatamente, Quando paira no ar um presságio de pavor, Existe em capela qualquer, quem se apressa na prece e pede: Venha o Teu Reino, Senhor! A esta hora exatamente, Quando as estrelas atômicas profanam o céu do Senhor Existe em alguma várzea poluída Um menino que empina uma pipa, como a pomba da paz. A esta hora exatamente, Em que sobe da terra o sangue das mulheres silenciadas, Existe em algum quintal, uma senhora de idade que planta em seu novo jardim Uma, duas, três rosas com amor. A esta hora exatamente, Em que o berro estridente exalta o holocausto Existe em algum barraco uma criança nascendo, Trazendo e fazendo o futuro... Senhor, que os teus pequenos sinais de vida enfraqueçam as grandes pretensões da morte E que possamos cantar sob mil bandeiras brancas A paz que traz o bem que um dia vem... Salmo do Carlos Alberto Rodrigues Alves para judeus e palestinos

JONAS DE ARAGUARI Poetas, seresteiros, namorados... Todos vós que assentais junto ao rio Jordão...
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JONAS DE ARAGUARI Poetas, seresteiros, namorados... Todos vós que assentais junto ao rio Jordão... Vós todos que salmodiai na embaixada dos papagaios... Peço-vos licença para algumas coisas: Primeiramente, para pontear na viola um canto de paz pela vida. Acontece senhores, que nesse primeiro-de-ano que se aproxima, como ocorre há 75 janeiros, um homem-de- bem e que traz em seu nome o sentido da paz, verá mais uma vez seu povo congregado para celebrindar a vida-que-lhe-renasce-todos-os-dias. Por isso peço-vos que anuncieis nos sinos das catedrais que vai rolar a festa na casa da dona Waldete. “O povo do gueto mandou avisar Pode vir, pode chegar Misturando o mundo inteiro Vamos ver no que é que dá Tem gente de toda cor Tem raça de toda fé” Peço-vos licença também , para registrar no cyberespaço que ele é meu amigo. E isto não por causa da cor da pele, não por causa do tempo que passamos jogando conversa fora e nem tampouco pelas nossas afinidades futebolísticas. Nossa amizade é coisa gratuita, coisa além do tempo e do espaço... A ele lhe cai bem o poema de Oscar Wilde: “Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa”. Finalmente, peço-vos licença para agradecer a esse devoto-do-divino, os belos retratos de sua sagrada família, fotografados pelas suas lentes-do-amor na página do Orkut e sintetizadas na auto apresentação desse poeta-profeta: “Jonas Alves da Silva, brasileiro, casado, advogado. Tenho dois filhos casados, dois netos, uma neta e um bisneto. Minha esposa há 50 anos e para sempre, Waldete Tilmann Ribeiro da Silva (Bodas de Ouro - 2 de maio)” Isso é uma declaração de amor! E como diz seu conterrâneo Drumond, nas suas maravilhosas sem-razões do amor: “Amor é dado de graça com amor não se paga Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse...” Por isso mesmo Marcão!... No descortinar da próxima quinta-feira, deixe um pouco de lado seu Vademecum! Marcinha!... Manda preparar os pãezinhos de queijo! Pedroca!... Aperte o agogô e afrouxe o afoxé! Você Guilherme!... Libere seus colares coloridos! Enfim... Poetas, seresteiros, namorados de Araguari: “Esquentai vossos pandeiros Iluminai os terreiros que nós queremos sambar” É chegada a hora de escrever e celebrar o ano novo que “cochila e espera sempre” no coração menino-e-valente do mestre Jonas. Parabéns mano velho! Para você a benção dos celtas: "Que a sorte das colinas te abrace. Que teus bolsos estejam pesados e teu coração leve. Que a boa sorte te persiga, e a cada dia e cada noite tenhas muros contra o vento, um teto para a chuva, bebidas junto ao fogo, risadas que consolem aqueles a quem amas, e que teu coração se preencha com tudo o que desejas". (Homenagem da família ao amigo nascido no mesmo ano em que nasceram Rubem Alves, Eva Wilma, Lourenço Diaféria e Garrincha)

SOBRE O ADEUS A MEU PAI ZITO " Se queres viver bem, pensa na morte" Monges medievais Meu pai foi embora...Mas ainda estou a ouvir a voz do meu bom e velho amigo. Agora não mais da janela do seu quartinho, onde sempre ele esperava a próxima brisa benfazeja. O cenário é outro, ma…
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SOBRE O ADEUS A MEU PAI ZITO " Se queres viver bem, pensa na morte" Monges medievais Meu pai foi embora...Mas ainda estou a ouvir a voz do meu bom e velho amigo. Agora não mais da janela do seu quartinho, onde sempre ele esperava a próxima brisa benfazeja. O cenário é outro, mas ainda sua sabedoria paira no ar. Quando a sua voz calou com a morte, seu coração seguiu falando. Ouçam: “ A vida é uma tentativa, às vezes bem sucedida, de se driblar a morte. Tentei de todas as maneiras me manter em pé. Tal como o anjo torto do Garrincha, meu jogador predileto, driblei-a várias vezes...Eu gostava até de dizer, num jeito de brindar a vida : - quebro mas não vergo. Vejo, do alto de uma outra dimensão, um de meus filhos me saudando emocionado, com citações inspiradas pelo Brecht : 'Há homens que lutam a vida inteira, estes são os imprescindíveis.' Agradeço-lhe pois de fato não perdi a garra de viver jamais. Mas agora , deitado e inerte, sou rodeado de pessoas queridas que choram minha partida. Chegou o momento em que as carrancas da morte se defrontaram cara a cara comigo. Jamais as temi. Pelo contrário, por saber que a morte é uma irmã gêmea da vida, tive para com ela, sempre uma relação de boa vizinhança. Dela escapei várias vezes, dela ri para valer, com ela aprendi sempre. Agora é a vez dela... Já havia pedido para meus queridos que no meu túmulo fosse colocado este epitáfio: ' Aqui jaz um homem, muito a contragosto'. As pessoas que levam a vida muito a sério jamais compreenderão. Irão dizer: ' está aí um homem blasfemo! Imagine um homem querendo contrariar os desígnios divinos!'. Não é nada disso! O que eu quero é simplesmente dizer que a vida é boa e enquanto não chega sua irmã temos que inventar esperanças para fazer valer nossa passagem por aqui. Vejam estas pessoas a me rodear. Choram profundamente a saudade. Não a saudade de quem se sabe, que um dia voltará. A saudade que choram é aquela da canção do Chico que diz: ' ó metade amputada de mim...' É a saudade de se arrumar um quarto para o qual a pessoa amada jamais voltará. É a saudade registrada na moda de viola que eu cantava com meus netos : ' a tua saudade corta como um aço de navaia'. Chorem queridos! Mas não o choro do desespero! Chorem a saudade de quem sempre soube que há tempo de chegar e tempo de partir, tempo de cantar e tempo de prantear, tempo de nascer e tempo de morrer. Recebo a amiga morte como presente. Embora tivesse ensaiado em me assustar, ela me veio de forma branda, o que me deu até oportunidade de lembrar um verso de Tagore, que deixo para vocês: ' No dia em que a morte bater à tua porta que lhe oferecerás? Porei diante de minha hóspede o vaso cheio de minha vida. Não a deixarei ir de mãos vazias...'” (Para minha irmã Luciana, fiel escudeira de meu pai até o último momento) Postado por Revº Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE O RIO PARANAPANEMA Nasci não-muito-longe das barrancas do Paranapanema. Rio que passa na minha aldeia, que não é o Tejo e nem o Nilo, mas que também é cheio de contos, causos e cantos. Místico que sou, sempre acreditei que os rios têm alma. Choram, guardam segredos, sangr…
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SOBRE O RIO PARANAPANEMA Nasci não-muito-longe das barrancas do Paranapanema. Rio que passa na minha aldeia, que não é o Tejo e nem o Nilo, mas que também é cheio de contos, causos e cantos. Místico que sou, sempre acreditei que os rios têm alma. Choram, guardam segredos, sangram e sorriem. Também pensava assim Tales de Mileto, segundo o qual a água é o elemento primeiro do universo. Meu rio, que hoje recebe o status de “rio mais limpo do Estado de São Paulo”, vira e mexe é alvo de interesses escusos. Sempre travestido de um pseudo-progresso-autossustentável: "Meia dúzia de carrascos movidos pela ambição Tentaram matar o rio com indústrias na região O povo da redondeza fez das tripas coração A empresa criminosa bateu com a cara no chão" Sempre que ouço novas investidas contra o “Panema” tenho vontade de armar uma esquadra de barcos-cheios-de-carrancas para espantar esses maus-espíritos-que-andam na região. Mas aí há amigos que me garantem que a poesia e o canto dos violeiros são a melhor cruzada para mobilizar o povo e proteger o rio. De fato, a voz e a viola de Tião Carrero e Pardinho sempre se ouve em suas águas abençoadas: "O rio Paranapanema é obra do Criador É espelho das estrelas o mundo do pescador No livro da natureza vai entrar mais um poema Vamos cantar a beleza do rio Paranapanema O rio Paranapanema deságua no Paraná Mas toda a sua beleza deságua no meu cantar "

SOBRE UM ONZE DE SETEMBRO Era um onze de setembro Nem mesmo Dante teria pintado inferno tão horrendo
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SOBRE UM ONZE DE SETEMBRO Era um onze de setembro Nem mesmo Dante teria pintado inferno tão horrendo Primeiro, os aviões do apocalipse Depois , as explosões da morte O fogaréu-do-juízo-final que se seguiu Cessou a voz do cantor Em seu lugar se ouviu o som e o lamento da profecia: “Era Raquel chorando por seus filhos; não querendo ser consolada, pois eles já não existem mais." Mataram os poetas e os profeta Mataram o Salvador Milhares seriam mortos depois... Os anjos-da-morte haviam triunfado Os "yankees" haviam hasteado suas bandeiras Assim se desabou a arquitetura da liberdade... Era o dia onze de setembro de 1973, o Chile-país-irmão, chorava e enterrava seus filhos... (PARA QUE NÃO NOS ESQUEÇAMOS DE NENHUM DOS HOLOCAUSTOS)

A VIOLA DO MEU PAI Está no meu ranchinho, bem guardadinha, uma viola especial. Não tem a nobreza da Maria Deodorina, nem o astral da Tereza. Aliás, estas são bem casadas com seus respectivos sinhozinhos-poetas-amantes .Minha viola nem nome de batismo tem... Mas ela é especial p…
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A VIOLA DO MEU PAI Está no meu ranchinho, bem guardadinha, uma viola especial. Não tem a nobreza da Maria Deodorina, nem o astral da Tereza. Aliás, estas são bem casadas com seus respectivos sinhozinhos-poetas-amantes .Minha viola nem nome de batismo tem... Mas ela é especial por ter uma mística que a faz transcender os tempos e os templos sacerdotais...Os cantos-e-os-contos dos contadores-de-causos. Mandei fazê-la, daquela boa madeira que só as luas-minguantes sabem, e muito bem, fecundar-com-seu-feitiço...Coisas-e-segredos-de-alquimia!!! Eu queria, muito, presentear meu velho pai, violeiro dos bons...Daqueles de ouvido absoluto. Porém...ah!, porém... quando o Marco da Viola, nosso luthier, me entregou a “menina-com-todas-as-suas-dignidades” afim de chorar nos braços do meu velho, foi eu quem chorou primeiro. É que meu pai havia partido para a-terra-do-sem-fim bem antes do combinado. Por isso, minha viola é especial: suas cordas são fios de nostalgia-da-mais-pura-cepa...Ali eu posso ouvir o som que faz falta a esta minha alma rebelde e fugidia. No seu tampo sinto um colo onde aconchego meu corpo oprimido. Como teria sido o casamento dela com o meu-mais-virtuoso-violeiro? Somente os bons violeiros saberiam dizer... E isso, só depois de acarinhar os braços dessa-saudosa-sem-nome. Não deixo qualquer um encostar a mão nela. Ela foi santificada para ser possuída por sons angelicais. Foi oferecida em um altar-especial para quem, agora, mora perto do “Zé-Côco-do-Riachão”.Sempre pensei que uma das missões do violeiro é ser possuído por querubins celestiais para fazer com que a dor dos mortais possa se tornar uma bela coreografia. Assim também pensava meu pai, cujo último momento, foi belo como um por-do-sol e como um “trenzinho-do-caipira” adentrando as matas... Que as notas que gotejarem dela sejam, portanto, assim também... Angelim-da-Maria-Deodorina e Cláudio-da-Tereza: Vocês serão bem-vindos para abençoar essa menina chorosa.

O DESERTO PODE SER BELO OU A DEUSA DIANA PEQUENO Somos seres imersos num caleidoscópio multicolorido e traspassado pelo sol da vida. Ali protagonizamos cenas múltiplas. Algumas , acompanhadas de pavor, outras, carregadas de arrepios alegres. As cenas tristes queremos que sejam…
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O DESERTO PODE SER BELO OU A DEUSA DIANA PEQUENO Somos seres imersos num caleidoscópio multicolorido e traspassado pelo sol da vida. Ali protagonizamos cenas múltiplas. Algumas , acompanhadas de pavor, outras, carregadas de arrepios alegres. As cenas tristes queremos que sejam exorcizadas pois elas nos são metáforas de masmorras e cálices-de-fel. As cenas alegres almejamos que sejam eternas pois sua beleza nos comprova que temos uma fagulha de Deus dentro de nós. Estas cenas nos apontam para o fogo-apolínico e o vinho-dionisíaco da vida. Em tempos de um grande deserto, lá pelos duros anos de chumbo, eu ouvia Diana Pequeno, mulher linda cuja voz me dava a impressão de que um anjo tinha fugido do céu. Sua missão: lembrar que o deserto podia ser belo. A geração moderna-sem-estética não a conhece. Ela me era a voz do vento de um novo dia que iria chegar. Ela me era o cheiro do bom perfume do amanhã. Ela me era o prelúdio da sinfonia que ainda vou compor cujo nome é "Pelos Poros da Paixão". Não sei por onde anda essa deusa mas sua voz continua a sussurrar nos meus ouvidos. Evocando as cenas de nossos desertos que ainda vão florescer, resgatei-a nessa outra modernidade chamada youtube. Veja e ouça se não tenho razão: http://www.youtube.com/watch?v=FYHF5TQGjEA

MEU PROGRAMA NESTE DIA DO INDIO Neste domingo, dia do índio , eu que sou tataraneto de um deles, quero fazer uma homenagem a mim mesmo e a minha família. Vamos esquecer os trabalhos , descer a serra do mar e subir a um paraíso musical onde cantam pintassilgos , pintaroxos, melr…
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MEU PROGRAMA NESTE DIA DO INDIO Neste domingo, dia do índio , eu que sou tataraneto de um deles, quero fazer uma homenagem a mim mesmo e a minha família. Vamos esquecer os trabalhos , descer a serra do mar e subir a um paraíso musical onde cantam pintassilgos , pintaroxos, melros, engole-ventos, saíras, inhambus, patativas, tordos, tujus, tuins , tiés-sangue, tiés-fogo , rouxinóis, coleiras , trigueiros , colibris , macucos e outros pássaros da orquestra sinfônica de Passaredo, bela música de Chico Buarque e Francis Hime. Deste autêntico-programa-de-índio , além da pajelança neo-ortodoxa, do cachimbo da paz e da rodada de chá-de-cana, consta que faremos uma meditação sobre um texto sagrado escrito pelo chefe índio Seatle e endereçado ao presidente dos EUA. Ei-lo ecologicamente correto, belo e romântico, como almeja nossa alma indígena: Não há um lugar calmo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar para escutar o desabrochar das flores na primavera ou o bater das asas de um inseto. E o que resta da vida se um homem não pode escutar o choro solitário de um pássaro ou o coaxar dos sapos à volta de uma lagoa à noite? O índio prefere o suave murmúrio do vento, encrespando a face do lago e o próprio aroma do vento levado pela chuva ou perfumado pelos pinheiros. Quando retornar para a cidade, quero de novo, estar sintonizado com as batidas do meu coração. E com minha pressão arterial no compasso da mãe natureza: calma, serena e tranquila! O grande Senhor do sol, da lua, das montanhas, dos ventos , das águas, dos passarinhos e de todos os peles-vermelhas me ajudará na bela empreitada.

ANGELIM, UM VIOLEIRO APAIXONADO Angelim, meu compadre e menestrel dos violeiros, está apaixonado. Coisa boa!
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ANGELIM, UM VIOLEIRO APAIXONADO Angelim, meu compadre e menestrel dos violeiros, está apaixonado. Coisa boa! Estar apaixonado é estar acometido de uma doença para a qual não se quer cura. Ele vai se casar. E casamento de violeiro não é como outro qualquer. Não há promessas, há confissões de amor e desejos... Quem gosta de promessas é político! Violeiro gosta é de cantar a vida que brota dos sonhos e saudades... Por isso ele é sincero! Sua princesa já terá lido a oração das mulheres celtas: Ama teu homem e segue-o, Mas somente se ambos representarem um para o outro O que a Deusa mãe ensinou: amor, companheirismo e amizade. Ele, por sua vez já terá cantado para sua amada a oração de Renato Teixeira e Almir Sater: Quando o amor começa, nossa alegria chama, e um violeiro toca em nossa cama ... (...)Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca A viola, o violeiro e o amor se tocam... Por ambos saberem que “ são demais os perigos desta vida pra quem tem paixão” farão tudo para que possam viver um grande amor. Portanto amigos, a mim me resta apenas abençoá-los assim: Que vocês se abracem sempre, sem se sufocarem Que vocês se ajudem sempre, sem se anularem Que vocês se aproximem sempre, sem invadir o espaço do outro Que vocês se amem não apenas "POR CAUSA" , mas "APESAR DE..." Isso mesmo compadres! A mim me resta apenas pedir ao bom Deus que vocês sejam mais que marido e mulher! Que vocês sejam amigos, amantes, filhos-de-Deus, filhos-da-liberdade, filhos-da-vida, filhos-da-felicidade...

AOS MEUS ALUNOS DE DIDÁTICA Meus alunos me pediram para fazer um decálogo para serem bons professores. Disse-lhes que não há receitas prontas afinal como dizia Guimarães Rosa, “ Mestre não é aquele que ensina mas aquele que de repente aprende”. Porém senti-me desafiado em aprese…
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AOS MEUS ALUNOS DE DIDÁTICA Meus alunos me pediram para fazer um decálogo para serem bons professores. Disse-lhes que não há receitas prontas afinal como dizia Guimarães Rosa, “ Mestre não é aquele que ensina mas aquele que de repente aprende”. Porém senti-me desafiado em apresentar-lhes o que poderia ser chamado de dez mandamentos de um bom educador. Estão aí: 1- Lembrar que a vida deve ser vista como uma constante arte de aprender e ensinar; 2- Não dar respostas prontas aos alunos porém aprimorar a habilidade de propiciar-lhes capacidade de pensar critica e criativamente; 3- Desafiar os alunos a não ficar na memória acumulada e sim a descobrir novos saberes; 4- Saber que a didática não deve ter um caráter instrucional mas sim um caráter de descobertas; 5- Compreender que conhecimentos científicos são indispensáveis, mas sozinhos, são impotentes para transformar massas disformes em pessoas cidadãs; 6- Incorporar o fato de que essas informações só serão relevantes se forem impregnadas de estética e beleza; 7- Aprimorar a habilidade de propiciar ao aluno capacidade de pensar critica e criativamente a realidade, sem apresentar-lhes respostas prontras para perguntas não-feitas; 8- Trabalhar para que o aluno busque constantemente o princípio maior da autonomia; 9- Incorporar a idéia de que o processo da aprendizagem contempla duas dimensões: a dimensão do prazer e a dimensão da dor; 10- Querer a emancipação completa do aluno: seu conhecimento racional e também o poder de sua auto-estima.

AOS MEUS ALUNOS DE TEOLOGIA Faz tempo que não vou à Igreja. Incomodam-me os sermões vociferantes e as orações desencantadoras de nossos dias.
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AOS MEUS ALUNOS DE TEOLOGIA Faz tempo que não vou à Igreja. Incomodam-me os sermões vociferantes e as orações desencantadoras de nossos dias. Há gritaria de mais e estética de menos. Os pregadores parecem competir com os vendedores da praça. E mais...Tenho a impressão que fizeram a opção pela teologia do horror! Quem puder me indicar onde se vivencia uma teologia poética, por favor, avise-me. Não existe nada mais sagrado que a experiência com a beleza. Sobre isso é bom ler Helena Kolody: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Por outro lado, quem quiser me levar ao SANTO OFÍCIO que assim o faça, mas lembre-se antes, que isso é anti estético, além do mais, tenho imunidade contra os fundamentalistas.