Pular para o conteúdo

Frases de Bruno Tolentino

14 frases

⁠E a grande arte é exatamente isto: o esforço da criatura por guardar na memória aqueles momentos de epifania, nos quais ela se aproxima ao máximo do mistério da criação.
⁠“Eu vos compensarei pelos anos que o gafanhoto comeu…” (Joel, 2:25)
Continuar lendo

⁠“Eu vos compensarei pelos anos que o gafanhoto comeu…” (Joel, 2:25) O Senhor prometera nos compensar os anos que a legião dos gafanhotos devorara, meu coração, mas a promessa era tão rara que achei mais natural vê-Lo mudar de planos que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos. Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara fecundar-me as cantigas, coração meu – repara como crescem espigas entre escombros humanos… Naturalmente, quem sou eu para que Deus cumprisse em minha vida promessa tão perfeita, e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus, fazendo-os ver que, no trigal em que se deita a luz dourada e musical, se algo perdeu-se foi como o grão – entre a seara e a colheita.

⁠Celebrar este mundo adivinhando a incurável leveza, a inabalável certeza do esplendor interminável
Continuar lendo

⁠Celebrar este mundo adivinhando a incurável leveza, a inabalável certeza do esplendor interminável da luz de Deus, aurora ruminando para sempre a quietude do imutável. Somos reflexos dessa luz, um bando de flamingos ardendo, misturando-se ao sol nascente, ao inimaginável incêndio indescritível, todo asas, todo luz… Somos feitos como brasas abrindo o voo, somos como o voo dos flamingos em brasa ao oriente… E nunca há de apagar-se aquele ardente sol perfeito que neles se espelhou.

⁠E LHE CANTEI ENTÃO ESTE ACALANTO: Dorme, Minotauro, Mouro da mais amarga Veneza,
Continuar lendo

⁠E LHE CANTEI ENTÃO ESTE ACALANTO: Dorme, Minotauro, Mouro da mais amarga Veneza, mudo amor na correnteza do balbucio, homem-touro tossindo no labirinto da névoa e da solidão, cala o instinto e o indistinto e dorme, descansa, irmão! Não existes, não existo, nada existe neste mundo aquém ou além do fundo da linguagem. É tudo um misto de silêncio e de ruído no coração de quem sofre preso num malentendido como um inseto num cofre. Perdoa-te… Nada ganhas com dar e redar teus nós na teia da velha aranha retendo e perdendo a voz no pescoço que partiste: a garganta bipartida entre a elegia do triste e o último sopro da vida não te vai dizer mais nada. Tudo o que pôde foi dito. No silêncio, na calada da noite, escuta o infinito para além da grade, tua e dos outros prisioneiros entre a linguagem e a luta. Os últimos e os primeiros tampouco entenderam Aquele que ia morrer e lhes disse que este universo era Dele e o resto tudo crendice. Nem tudo é só desperdício. Tudo e nada nesta vida se confundem, fim e início, chegada como partida trocam-se em pura ruína mas o verme engole a aranha, believe it or not! A sina que escolhestes não se ganha sem um sacrifício imenso, mas que vale mais que a cena em que por causa de um lenço Otelo mata Desdêmona ou o velho rei Lear, louco e só, só pelo e osso, vê e não vê balançar Cordélia pelo pescoço. Se o amor não aprende a língua do ser amado, esse amor é um louco morrendo à míngua do que seja, ou do que for… Deixa-te embalar, amigo, como eu me deixo cantar este acalanto e te digo, te juro que o verbo amar só Deus conjuga contigo.

⁠O ANJO ANUNCIADOR — Ouve, Maria, a nossa (não, não te assustes!) é uma luminosa
Continuar lendo

⁠O ANJO ANUNCIADOR — Ouve, Maria, a nossa (não, não te assustes!) é uma luminosa tarefa: retecer o pequeno clarão que abandonaram, o lume que anda oculto pela treva! Porque irás conceber! Porque a mão, desejosa e tosca, que O tentara reter, ainda que leve, desfez-se ao toque, assim como uma vez tocado o sopro se desfaz a avara, a dura contração do peito ansiado… Mas a haste, o jasmim despetalado, é tudo o que ainda resta dos canteiros do céu aqui na terra, que um seco vento cresta e uma longa agonia dilacera. No entanto a morte há de morrer se tu quiseres, ó gota concebida bendita entre as mulheres para que houvesse vida outra vez, e nascesse desse fundo obscuro do mundo, o ninho incompreensível do teu ventre. Não, não toques ainda nem a fímbria do manto nem o centro do mistério que anima a tua túnica: aguarda, ó muito séria, a ave mansa e recebe em teu corpo de criança a Verônica única, a enxurrada de pétalas te abrindo. Em tumulto reunidas, as cores da perdida Primavera vão retornar, virão numa enchente de asas, aluvião, púrpura, sempre-viva, nascitura estranheza do amor da criatura, constelação descendo ao rosto teu: é Ele, é O que reúne o coração e o grande anel da esfera, o fogo, a língua ardendo, o incêndio vivo, a coluna de luz, o capitel que se perdeu… Que eu venho anunciar apenas a um esquivo, humílimo veludo, a frágil chama que há de crescer em ti, que hás de ser cama ao parto do Perfeito, e hás de ser cântaro e fonte e ânfora e água, hás de ser lago em que as sombras se afogam, que naufragam no imenso, ó jovem branca como um lenço; hás de conter a lágrima do Infinito, o Seu vulto e os tumultos da luz na travessia entre a dádiva, a perda e a renúncia: quando de um certo dia cheio de luz amarga em que serás enfim a sombra esguia que O deu à luz e que O assistiu morrer… Atravessa, ó Maria, os abismos do ser, ouve este estranho anúncio e deixa-te invadir para colher, mais fundo que a razão e o corpo, o sopro cálido, o prenúncio da mais viva alegria: entreabre-te ao clarão da visita suave, mas terrível, terrível, deixa a ave do imenso sacrifício te ofender. Ó pétala intocada, hás de sofrer intensa madrugada e num lago de luz como afogada hás de durar suspensa entre a graça imortal e a dor imensa. Mas canta, canta agora como a fonte borbulha, como a agulha atravessa o bordado, canta como essa luz pousa ao teu lado e te penetra e tece a nova aurora, a nova Primavera e a tessitura do ramo que obedece e se oferece para o mistério e pela criatura. Canta a alucinação, o toque enfim possível dessa mão que há de colher para perder e ter o infinito que nasce do deserto e a semente que morre se socorre tudo o que no estertor tentava ser. Canta a canção do lírio e do alecrim, essa canção que és e que na treva, na escuridão da carne, andava perto da imensidade que te invade. E assim como o imenso te ampara, ó voz tão clara que consolas e elevas, vem, desperta, matriz da eternidade e d’O sem-fim, ó mãe de Deus, canta e roga por mim.

⁠NOTURNO Não sou o que te quer. Sou o que desce a ti, veia por veia, e se derrama
Continuar lendo

⁠NOTURNO Não sou o que te quer. Sou o que desce a ti, veia por veia, e se derrama à cata de si mesmo e do que é chama e em cinza se reúne e se arrefece. Anoitece contigo. E me anoitece o lume do que é findo e me reclama. Abro as mãos no obscuro, toco a trama que lacuna a lacuna amor se tece. Repousa em ti o espanto que em mim dói, noturno. E te revolvo. E estás pousada, pomba de pura sombra que me rói. E mordo o teu silêncio corrosivo, chupo o que flui, amor, sei que estou vivo e sou teu salto em mim suspenso em nada.

⁠O MORTO HABITUADO Não são leves os laços do absurdo exercício:
Continuar lendo

⁠O MORTO HABITUADO Não são leves os laços do absurdo exercício: o homem lado a lado com seu laçado ritmo. muito menos cumprido do que dependurado, plataforma do umbigo ao pescoço do hábito. Mas ao engravatado qual o conforto vindo provar que o inimigo não inventou o laço? Por outro lado, fausto do que secreto visgo se o absurdo do ato costuma ser tranquilo? Discreto e convencido, como não dar o laço, rebento do risível com o bem comportado? Conhecer o ridículo quando se chama exato, isento de impossível e impossibilitado? Demasiado antigo, já não é bem um trato: vertical compromisso, enforca-se o enforcado.

⁠O PAVÃO Por lá o Outono chega anunciado pelos gritos agudos do pavão
Continuar lendo

⁠O PAVÃO Por lá o Outono chega anunciado pelos gritos agudos do pavão dilacerando o ar; é só então que se percebe o dardo vindo da sombra, o arpão da última luz nas folhas de um para o outro lado. O outro lado das sombras que se estiram no chão como mais um bordado de Penélope fria que tece a escuridão. Pobre animal! Começa o baile temporão e ele anuncia aos gritos, seu leque depenado pluma por pluma na penúltima estação… Quando acabar de se fechar a mão que a luz cadente estende ao povoado das sombras que não vão a parte alguma, o último emblema do Verão irá ciscar sozinho, como que envergonhado, nas agulhas caídas do pinheiral gelado. É por isso, por causa da desaparição de um Estio tão breve num bailado tão rápido, é por isso que o pavão trespassa o ar, grito por grito apaixonado, e a reverberação da luz nas folhas se parece tanto a um dardo.

⁠AO DIVINO ASSASSINO Uma litania ante o Sagrado Coração concebida em Paray-le-Maulnier, tempos
Continuar lendo

⁠AO DIVINO ASSASSINO Uma litania ante o Sagrado Coração concebida em Paray-le-Maulnier, tempos depois do acidente fatal de Anecy Rocha Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível é sempre assim? Não tens um refratário à hora do massacre – um mais sensível que atrasasse o relógio, o calendário? Ao que parece a todos tanto faz por quem o sino dói no campanário. Começa a amanhecer e uma vez mais rebelo-me, mas sei que a minha vida não tem como ou por que voltar atrás. Aceito que a mais dura despedida é bem mais que metáfora do nada a que se inclina o chão; que uma ferida e a papoula sangrenta da alvorada pertencem ao mundo sobrenatural tanto quanto uma lágrima enxugada à beira de um caixão. Mas afinal, Senhor, amas ou não a humanidade? Não fui ao escandaloso funeral e imaginá-la em Tua eternidade dói demais! Vou passar mais este teste, sim, mas protesto contra a insanidade com que arrancas à muque o que nos deste! Tu sabes que a soberba da família era maior que a dela e eu tinha a peste – pai e mãe apartavam-me da filha e o irmãozão nem falar… E hoje, coitados, como hão de estar? Aqui é a maravilha, as genuflexões… Os potentados e os humildes, a nata da esperança, todos chegam por cá meio esfolados, sangrando como a luz. Não só da França, toda a Europa rasteja até aqui esfolando os joelhos, não se cansa de ensangüentar-se até chegar a Ti e ao menos a um pixote do Além Tejo restituíste a vista; eu quando o vi solucei – mas que o cego e o paraplégico saiam aos pinotes, que o Teu coração se escancare e esparrame um privilégio aqui e outro acolá na multidão, só me faz perguntar: E ela? E ela…? Não consigo entender que a um aleijão concedas tanto enquanto a uma camélia Tu deixas despencar… Por que, Senhor? Olho tudo do vão de uma janela, mas vejo a porta de um elevador escancarar-se sobre um outro vão, um vão sem chão… E a seja lá quem for aqui absurdamente dás a mão! Me pões trêmulo, gago, estupefato, pasmo, Senhor – mas consolado não. A mesma mão que fez gato e sapato da minha doce Musa, cura e guia, cancela as entrelinhas do contrato, Dominus dixit… Mas quem merecia mais do que uma açucena matinal um manso desfolhar-se ao fim do dia, quem mais do que uma flor, Senhor? Igual nunca viram os mais alvos crisantemos, tinha direito a um fim mais natural, à morte numa cama, em casa ao menos… Mas não – tinha que ser total o escândalo! Por que, se nem nos circos mais extremos Teus mártires andaram despencando sobre os leões, se nem o lixo cai de oito andares aos trancos, Santo Vândalo? Não vim denunciar o Filho ao Pai ou o Pai ao Filho, não vim dar razão aos que recusam e usam cada ai contra a humildade; vim porque a Paixão me chamou pelo nome e a alma obedece e aceita suar sangue – como não? Mas não sei mais unir o rogo à prece do que a elegia ao hino de louvor, não sei amar-Te assim… Caso o soubesse teria que ficar aqui, Senhor, aqui, arrebentando-me os joelhos, esfolando-me todo ante um amor que vai tornando sempre mais vermelhos, mais duros os degraus do Teu altar. Tu, que tudo consertas, dos artelhos que desentortas e repões a andar até às pupilas mortas de um garoto, do cachoupinho que me fez chorar; Tu, que a este lhe dás a flor no broto e àquele o lírio pútrido do pus; Tu, que passas por um de quatro e a um outro pegas no colo e entregas a Jesus; Tu que fazes jorrar da rocha fria; Tu que metaforizas Tua luz ao ponto de fazer de uma agonia um puro horror ou a morna mansuetude – que hás de fazer, Senhor, comigo um dia? Quando eu agonizar, boiar no açude das lágrimas sem fundo… Quando a fonte cessar de soluçar e uma altitude imerecida me enxugar a fronte… Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras que a mim me embale a barca de Caronte como o fazia a velha Cantareira, o azul da travessia… A Irrecorrível arrasta a cada um de uma maneira e a quem quer que se abeire ao invisível recordas a promessa: aquele a escuta e este a recusa porque a dor é horrível, mas, se a todos a última permuta terá sempre o sabor da anulação, o travo lacrimoso da cicuta, a ela Tu negaste o próprio chão, deixaste-a abrir a porta sem querer! Nunca falou na morte, e com razão, intuía, quem sabe, o que ia ver… Sentença Tua? Em nome da promessa não há negar Teu duro amanhecer – mas quando arrancas mais uma cabeça como saber que és Tu, que não mentia O que ressuscitou? Talvez na pressa, no pânico de Pedro, eu negue um dia e trate de escapar, mas hoje não; hoje sofro com fé e, sem poesia, metrifico uma dor sem solução, mas não vim negar nada! Faz efeito essa dor: faz sangrar, mas faz questão de defender-me como um parapeito contra a queda e a revolta… Um Botticelli despedaçou-se todo, mas que jeito, se por Lear enforcam uma Cordélia e encarceram a Ariel por Calibã…? Alvorece, a manhã beata velha enfia agulhas no Teu céu de lã, tricoteia Paray-le-Maulnier * e eu penso: ela morreu… Hoje, amanhã, enquanto Te aprouver e até que dê a palma ao prego e o último verso à traça, vai doer – mas Amém! Não há por que amar a morte, mas que venha a Taça, aceito suar sangue até ao final, como não… Tudo dói, menos a graça, mata, Senhor, que a morte não faz mal! Da Festa do Sagrado Coração em Julho de 1979 até aos 26 de Outubro de 1997.

⁠O GAVIÃO Pousava aqui como quem chega pesaroso de alguma lousa,
Continuar lendo

⁠O GAVIÃO Pousava aqui como quem chega pesaroso de alguma lousa, de uma tumba qualquer; já não pousa como certa mulher, a cega que mendigava por aqui quando eu era ainda noviça; as primeiras vezes que o vi lembrei-me dela e da carniça que lhe davam, suas unhas duras e sujas agarrando aquilo! Onde andarás? Se nas alturas, terá modificado o estilo e provavelmente a ração; senão… O gavião é o mesmo, disso estou certa! Mas desde então cresceu muito, já não voa a esmo por aí, hoje arrebata a caça, e quando mata chega de outro jeito, com outro ar: pousa satisfeito, é todo a máscara, a couraça da arrogância! Dá-me raiva vê-lo, prefiro o modelo anterior… Como uma escultura de gelo, esse de agora é ameaçador, frio, irreal, o senhor das caçadas traz o nada no bico e no porte: não vem dos mortos, vem da morte! Tinha antes só duas pegadas, era solene como um cemitério; hoje ele mesmo faz-se um e é o Não que chega aqui com um ar estéril e pousa desprezando o chão.

⁠Beatíssima Maria virgem Amika Nostra Mãe do espírito e de todo o princípio.
Continuar lendo

⁠Beatíssima Maria virgem Amika Nostra Mãe do espírito e de todo o princípio. Origem do pequeno espelho do infinito E parada central de estirpe deste mundo tão esquisito para o qual pariste o teu filho. Regadora da urtiga e do Nardo Lírio da terra bivalente Jardineira do quintal dos bardos, Da poesia. Está tudo morrendo Conselheira dos agoniados, Quem sou eu para vir novamente pedir perdão por todos os bardos? Por essa raça sobranceira e enviesada Que anda de luto pelos próprios excessos e à beira do teu cântaro gargareja, um duro lamento espúrio. Que boceja um tédio estéreo a maneira de quem detesta o Absoluto. E de tanto falar por Ele, acredita só no que usurpa. Os que rabiscamos no espelho, Nos mundos da estrutura, do nada, do vazio em pêlo. Quem sou eu para pedir teu zelo por tantas pobres criaturas? A mortalidade moral mata mais que faca e fuzil no território nacional. De ponta a ponta ao meu país, cada dia mais infantil, Mata a si mesmo com ardis, Com imposturas num marasmo igual as diabruras e penduricalhos da pior africanização. Como uma colcha de retalhos que não tapa mais nada O chão de derrapantes assoalhos deste país sem direção é sacudido pela mão do entretenimento e do embuste. Quando a noite, mais uma vez, Com uma dissonância na acústica Cai das alturas como um susto, um pesadelo a mais Talvez uma oportunidade, E o que custa parar um minuto, dois, três e refletir e orar? Ouvir, ver simplesmente o que fazemos da raça inteira De nós mesmos ? Mas não, a cada anoitecer sacudimos pelos extremos a toalha em farrapos Que demos pelas migalhas do Poder, ao banquete dos fratricidas, Dos cambalachos, Dos abortos. O desfile nas avenidas, de machos eunucos e outros fantasiados pela vida De cabeça para baixo na ida sem volta ao festival dos porcos E enquanto isso morrem, Morrem filhos e mães, e irmãos no escuro Órfãos de sonhos E depois morrem o passado e o seu futuro Morre tudo e ninguém socorre A árvorezinha atrás do muro, ninguém colhe o fruto maduro A mão do país que se afoga. Que Pantanal é esse nosso ?Em que é impossível dar um passo sem afundar? Sem que a piroga vá desaparecendo no poço ?Num baldezinho cheio de ossos ? Num vazio pendurado, à corda, Num balanço de enforcamento. Que multidão? Que gente é essa ? Seminua, com as mãos na cabeça Ou no bolso alheio Uma gente que estraçalha os filhos sem pressa Num ritual de alinhamento Até que ninguém mais os conheça Todos são teus filhos E penso neste escuro dia, seguinte ao mais perfeito nascimento, Penso no teu rosto sucinto, Que é a perfeição do pensamento Amparado só do infinito, Que contemplando cada berço. Transforma o meu país Senhora da súbitas transfigurações. Ó aparecida nos porões, Em que torturam o homem à aurora, Ó peregrina entre as visões, Ó negra ó branca Mediadora das grandes reaproximações, Escuta-nos Mãe de Jesus Ora pro nobis Vem a nós Como estavas ao pé da cruz Na hora sombria Um instante atrás, Em que se ouviu aquela voz “porque Me abandonaste?” A luz nos abandona. Estamos sós Terrivelmente, Mas a culpa que temos todos Do horror que fizemos de nós. Ó mística Ó rosa rústica Ó penhor da salvação À hora a última Advoga em que o Senhor Venha a nós Fala-nos Que acústica da velha Catedral em ruínas e outra Vez com teu nome tua voz. Que os Farrapos do homem, que se devora e não termina o horrendo banquete da fome Se reúnam em ti, mãe menina de todos nós Os que mal somos Os leprosos mal agradecidos Que não retornaram ao teu Filho depois de curados Perdidos desviados e maltrapilhos. Retorna a nós como do exílio, Velhos bondes em busca dos trilhos Voltamos tantos iludidos Nós, os mutantes Nós os idólatras Nas lucobrações orgulhosas Do encolhido intelecto, Esse alcoólatra, Que sim, Se embebedou de paródias. Atua inteligência da morte é o único modelo da nossa. O mais, é a miragem do apóstata.

⁠Ao divino assassino [...] Talvez na pressa, no pânico de Pedro, eu negue um dia
Continuar lendo

⁠Ao divino assassino [...] Talvez na pressa, no pânico de Pedro, eu negue um dia e trate de escapar, mas hoje não; hoje sofro com fé e, sem poesia, metrifico uma dor sem solução, mas não vim negar nada! Faz efeito essa dor: faz sangrar, mas faz questão de defender-me como um parapeito contra a queda e a revolta. Um Botticelli despedaçou-se todo, mas que jeito, se por Lear enforcam uma Cordélia e encarceram a Ariel por Calibã...? Alvorece, a manhã beata velha enfia agulhas no Teu céu de lã, antenas às Tuas cenas de TV, e eu penso: ela morreu... Hoje, amanhã, enquanto Te aprouver e até que dê a palma do prego e o último verso à traça, vai dor – mas Amém! Não há porque amar a morte, mas que venha a Taça, aceito suar sangue até o final, como não... Tudo dói, menos a graça, mata, Senhor, que a morte não faz mal! Paray-le-Munial, 1979

Nihil Obstat É preciso que a música aparente no vaso harmonizado pelo oleiro
Continuar lendo

Nihil Obstat É preciso que a música aparente no vaso harmonizado pelo oleiro seja perfeitamente consistente com o gesto interior, seu companheiro e fazedor: o vaso encerra o cheiro e os ritmos da terra e da semente, porque antes de ser forma foi primeiro humildade de barro paciente. Deus, que concebe o cântaro e o separa da argila lentamente, foi fazendo do meu aprendizado o Seu compêndio de opacidades cada vez mais claras, e com silêncios sempre mais esplêndidos foi limando, aguçando o que escutara.