Frase de Bruno Tolentino
Beatíssima Maria virgem Amika Nostra Mãe do espírito e de todo o princípio. Origem do pequeno espelho do infinito E parada central de estirpe deste mundo tão esquisito para o qual pariste o teu filho. Regadora da urtiga e do Nardo Lírio da terra bivalente Jardineira do quintal dos bardos, Da poesia. Está tudo morrendo Conselheira dos agoniados, Quem sou eu para vir novamente pedir perdão por todos os bardos? Por essa raça sobranceira e enviesada Que anda de luto pelos próprios excessos e à beira do teu cântaro gargareja, um duro lamento espúrio. Que boceja um tédio estéreo a maneira de quem detesta o Absoluto. E de tanto falar por Ele, acredita só no que usurpa. Os que rabiscamos no espelho, Nos mundos da estrutura, do nada, do vazio em pêlo. Quem sou eu para pedir teu zelo por tantas pobres criaturas? A mortalidade moral mata mais que faca e fuzil no território nacional. De ponta a ponta ao meu país, cada dia mais infantil, Mata a si mesmo com ardis, Com imposturas num marasmo igual as diabruras e penduricalhos da pior africanização. Como uma colcha de retalhos que não tapa mais nada O chão de derrapantes assoalhos deste país sem direção é sacudido pela mão do entretenimento e do embuste. Quando a noite, mais uma vez, Com uma dissonância na acústica Cai das alturas como um susto, um pesadelo a mais Talvez uma oportunidade, E o que custa parar um minuto, dois, três e refletir e orar? Ouvir, ver simplesmente o que fazemos da raça inteira De nós mesmos ? Mas não, a cada anoitecer sacudimos pelos extremos a toalha em farrapos Que demos pelas migalhas do Poder, ao banquete dos fratricidas, Dos cambalachos, Dos abortos. O desfile nas avenidas, de machos eunucos e outros fantasiados pela vida De cabeça para baixo na ida sem volta ao festival dos porcos E enquanto isso morrem, Morrem filhos e mães, e irmãos no escuro Órfãos de sonhos E depois morrem o passado e o seu futuro Morre tudo e ninguém socorre A árvorezinha atrás do muro, ninguém colhe o fruto maduro A mão do país que se afoga. Que Pantanal é esse nosso ?Em que é impossível dar um passo sem afundar? Sem que a piroga vá desaparecendo no poço ?Num baldezinho cheio de ossos ? Num vazio pendurado, à corda, Num balanço de enforcamento. Que multidão? Que gente é essa ? Seminua, com as mãos na cabeça Ou no bolso alheio Uma gente que estraçalha os filhos sem pressa Num ritual de alinhamento Até que ninguém mais os conheça Todos são teus filhos E penso neste escuro dia, seguinte ao mais perfeito nascimento, Penso no teu rosto sucinto, Que é a perfeição do pensamento Amparado só do infinito, Que contemplando cada berço. Transforma o meu país Senhora da súbitas transfigurações. Ó aparecida nos porões, Em que torturam o homem à aurora, Ó peregrina entre as visões, Ó negra ó branca Mediadora das grandes reaproximações, Escuta-nos Mãe de Jesus Ora pro nobis Vem a nós Como estavas ao pé da cruz Na hora sombria Um instante atrás, Em que se ouviu aquela voz “porque Me abandonaste?” A luz nos abandona. Estamos sós Terrivelmente, Mas a culpa que temos todos Do horror que fizemos de nós. Ó mística Ó rosa rústica Ó penhor da salvação À hora a última Advoga em que o Senhor Venha a nós Fala-nos Que acústica da velha Catedral em ruínas e outra Vez com teu nome tua voz. Que os Farrapos do homem, que se devora e não termina o horrendo banquete da fome Se reúnam em ti, mãe menina de todos nós Os que mal somos Os leprosos mal agradecidos Que não retornaram ao teu Filho depois de curados Perdidos desviados e maltrapilhos. Retorna a nós como do exílio, Velhos bondes em busca dos trilhos Voltamos tantos iludidos Nós, os mutantes Nós os idólatras Nas lucobrações orgulhosas Do encolhido intelecto, Esse alcoólatra, Que sim, Se embebedou de paródias. Atua inteligência da morte é o único modelo da nossa. O mais, é a miragem do apóstata.
No pensador.ai desde