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Frases de Bernardo Almeida (www.bernardoalmeida.jor.br)

14 frases

Dez encontros Nossos encontros renderam-me quinze poesias Mas isso é tudo, preciso ir-me sem titubear
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Dez encontros Nossos encontros renderam-me quinze poesias Mas isso é tudo, preciso ir-me sem titubear Se queres que suma, assim o farei Pude escolher entre dizer adeus por bem ou por mal Entre sair amando triste ou com raiva Chorando de ódio ou de alegria Vi o amor começar a surgir em seu olhar Nem tinha pedido, nem tinha forçado Percebi seu esforço inútil para tentar controlá-lo Então a noite chegou, não para nos acolher E as estrelas atestaram muito bem suas palavras Nem motivos, nem nada, apenas “Não quero mais ver-te” Fui julgado, injustamente visto como culpado Minhas emoções foram menosprezadas Ao rastejar, perdi a última coisa que me sobrava Volta e meia, penso em escrever-te algo Sei que nunca estarei completamente curado Do infortúnio do esquecimento, duro fardo da separação Perseguirei sem fim o seu cheiro Em qualquer mecha loira que cruzar-me a vista Tornar-me-ei um ser mesquinho, não oferecerei além do mínimo E quando, ao acaso, acreditar sentir a sua presença Ainda que não faça mais diferença Estou certo de que passarei uma semana sem dormir A vida, então, não valerá a pena Até que a sua voz serena volte a massagear-me Fazendo ecoar notas sublimes em musicalidade e amor Bernardo Almeida

Mutação Passei tantos anos sob o olhar infecundo da luz Que comecei a acreditar não haver forma, distinção e equilíbrio na escuridão
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Mutação Passei tantos anos sob o olhar infecundo da luz Que comecei a acreditar não haver forma, distinção e equilíbrio na escuridão Porém, em poucos e insensatos minutos, as aparências fáceis se transformam Em delineamentos perfeitamente disformes, depurados e apurados À mostra está unicamente a máscara da perfeição Estúpida, monstruosa, egocêntrica e ilusoriamente independente Não consegue sequer transpor a barreira das aparências E desenvolver uma percepção transmutada, aguçada e expandida Focalizo o espaço em que me encontro, extraído de mim mesmo Cem vezes mais vasto, absurdamente amplo e copioso Redimensiono as minhas perspectivas para chegar perto daquilo que busco E ganho nova alma para compreender o que está sempre além Inusitadamente a obviedade torna-se um insulto insuportável Fugindo das similitudes, não sinto-me atraído por qualquer oposto Agora nada pode guiar-me senão a voz da intuição Desvendado pela lupa do auto-conhecimento, tornei-me eu mesmo Indefinível, inimitável, irreproduzível, insondável e ambíguo Um vulto cintilante na claridade sombria Bernardo Almeida (Livro Crimes Noturnos)

Vira folha Se soubesses da minha dor Falarias de forma suave
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Vira folha Se soubesses da minha dor Falarias de forma suave Sua voz aguda é uma gafe Permita-me dizer Que não mereço tal desprazer Mesmo assim ainda desejo você Olhe-me de frente Estou lhe pedindo perdão Mas que erro cometi? Estou me humilhando Matando sem dó o orgulho Residente neste ser vaidoso Coloque-se no meu lugar E deixe os velhos pecados para trás Vivo em busca de femininos lábios, prazer voraz Penteie os fios do ciúme tecidos em lã E não mais traga a sua irmã Senão desse amor outra vez me apoderarei Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

Institucionalizado Vitimado, constrangido, monitorado Humilhado, oprimido, controlado
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Institucionalizado Vitimado, constrangido, monitorado Humilhado, oprimido, controlado Vigiado, atacado, manipulado Seduzido, induzido, conduzido Enganado, traído, castrado Encarcerado, silenciado, evitado Doente, rejeitado, humilhado Discriminado, violentado, trapaceado Abocanhado, acorrentado, apanhado Sufocado, apaziguado, maltratado Rotulado, legislado, cadastrado Corroído, descaracterizado, padronizado Registrado, aprisionado, formulado Inanimado, abatido, indolente Indiferente, esquecido, carente Apático, acomodado, conformado, inconsciente Bernardo Almeida

Palavra Uma palavra pode ser proferida E esquecida com o tempo
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Palavra Uma palavra pode ser proferida E esquecida com o tempo Outra pode ser aquecida e sentida Além da eternidade Uma palavra pode ser mantida Pode ser vencida Pode ser transformada Pode ser omitida Pode ser deturpada Pode ser lembrada Uma palavra Afasta o homem da ignorância Aponta a saída do labirinto Fantasiosa ou realista Carrega vida em seu sentido Uma palavra Quando lançada Não tem rumo Não tem caminho certo Trilha ao impulso do vento E na velocidade do pensamento Segue firme, vaga e veloz Como uma flecha Pode destronar uma certeza E como uma chama Pode transformar corações em brasa Uma palavra Simples e inútil Pode mudar o mundo Pode ultrapassar uma crença Pode desatar nós e preconceitos Pode vencer uma guerra Aquela mesma palavra Esquecida em meio a tantas outras Na página amarelada de um livro qualquer Pode ser a salvação Ou a perdição Na vida de alguém Uma simples e imperfeita Palavra Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

Incógnita O que tenta dizer-me esse olhar Profundamente misterioso
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Incógnita O que tenta dizer-me esse olhar Profundamente misterioso Que se esconde por detrás Dessa placa de gelo e vidro Talvez diga que me ama Mas poderia também zombar Dos meus elogios óbvios Da minha solicitude exagerada Quero dar o que te falta Mas, afinal, o que te falta? Seus olhos saltam de espanto Escondem respostas e choram Quem dera tivesse eu desenvolvido Os dons espirituais da mediunidade Atravessaria seus pensamentos E, em meio ao veneno, encontraria o antídoto Mas tudo o que me cabe É sentar ao seu lado E partilhar o silêncio cúmplice Da incógnita dos seus sentimentos Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

Inadequado Eu não nasci para essa vida banal Uma rotina e um emprego convencional
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Inadequado Eu não nasci para essa vida banal Uma rotina e um emprego convencional Isso me soa marasmo Faz tudo que é belo Se tornar igual e chato Nada é mais estático Do que esse pobre padrão Que cria a cada dia um novo lunático Ou um perigoso ladrão Sou volátil como o álcool que bebo Sou daqui e dali Posso querer ser o mar E, em segundos, desistir Sou da vida Sou da natureza Sou sem pudor Sou no frio, o calor Sou do amor Sou do amor Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

Sem destino O vento é frio e a noite tão acolhedora Solitária e nublada como minha sorte
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Sem destino O vento é frio e a noite tão acolhedora Solitária e nublada como minha sorte Leste, oeste, sul e norte Uma bússola quebrada, desvairada Aponta para o nada e diz tudo Envia-me ao caminho menos oportuno Como um beijo derradeiro inalcançado Ou a cartada que precede a derrota Fora de contato, escondo segredos Que anuncio apenas à minha sombra E nem mesmo dela guardo confiança Quantas vezes não me traiu com certezas dúbias? Serei o penúltimo cavalheiro Aquele que leva as flores Mas nunca termina com a dama Estou fadado às despedidas e prêmios de consolação Serei então os restos do perdão Os ossos por trás de qualquer beleza A segunda-feira, a ressaca, as súplicas A humilhação, a tristeza, o medo de perder-te Mas diziam que o amor eleva? Conheci do paraíso às trevas E resido na instabilidade sem prescrição Tão perigosa quanto a própria vida Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

O resto Dias tristes Seguem-se um após o outro
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O resto Dias tristes Seguem-se um após o outro Noites chuvosas e manhãs secas No bar, deposito as minhas incertezas amorosas Atrás de ti, não me reconheço Ao seu lado sou completo Mas meus versos não rimam com o seu nome Sou andarilho, sou permissivo Vejo seu corpo e cobiço-o Mesmo que finja não enxergar-me Em punho, outro poema Para cantar a desilusão Os desencontros e as armadilhas Em princípio, sou o fim E coloco-me a sua disposição Sempre alheio aos acontecimentos Bata em minha face Derrame sobre mim a mais fria água E desperte-me deste sonho inoportuno Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

Leito Em terreno árido, o homem padece. Em disputas vãs, o homem se degrada.
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Leito Em terreno árido, o homem padece. Em disputas vãs, o homem se degrada. Em dias cinzas, o homem perde a graça. Em seu sorriso ameno, o homem encontra a paz. Em vozes autoritárias, o homem perde a compaixão. Em mãos agressivas, o homem perde o amor. Em dogmas, o homem perde a liberdade. Em seus seios, o homem conquista o direito de existir. Bernardo Almeida

Perfume Escuto seu perfume a me chamar Manhã e noite ele me diz querer mais
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Perfume Escuto seu perfume a me chamar Manhã e noite ele me diz querer mais Borrifo novas gotas de mim em você E seus olhos brilham, a sua pele resplandece Permaneço ao seu dispor, à sua vontade Sabes que de mim tens os possíveis mais impossíveis Acaricia-me devagar, apenas para fazer-me lembrar seu nome Abraçado em seu gosto, seu rosto, seu corpo Sê a viga que sustenta a minha vida E me poupa das próximas perguntas, tão dispensáveis Traz no meu pedido a sua resposta Põe o seu mais belo vestido e aceita o meu cheiro em ti mais uma vez

Pagão Livro-me dos meus pecados cometendo outros Novos, picantes e furtivamente lascivos
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Pagão Livro-me dos meus pecados cometendo outros Novos, picantes e furtivamente lascivos Sinceros, profundos e deliciosamente proibidos Livro-me dos meus pecados falando de amor Sendo condenado pelos olhares que nada me dizem A não ser que são infelizes e por isso julgam demais Livro-me dos meus pecados profanando a dureza da razão Contestando-a diante de sentimentos que desestruturam Qualquer lei ou idéia aceita como verdade universal Livro-me dos meus pecados sem fazer esforços E tomo como minhas as palavras do poeta que afirmava Não conhecer pecados, apenas prazeres Bernardo Almeida

Geração exonerada Na distinção entre um sorriso e uma lágrima Pende para o absurdo desejo da catástrofe
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Geração exonerada Na distinção entre um sorriso e uma lágrima Pende para o absurdo desejo da catástrofe Uma pavorosa mania não mais possível De ser expressa por meio de gestos calculados Os movimentos, seqüencialmente imperceptíveis, Protegem o esquecimento que tomará conta da sua alma Descarnada, desnuda, etérea, imaterial Dilacerada e agredida como cada milímetro da sua ossada Escondes este peso em um jazigo distante Onde apenas olhares mortos te alcançam Colabora com a terra que fornece a colheita Da qual tanto te beneficiaste em vida Colha agora a raiz, e deixa o fruto para os que restam Contentas-te com a jaula em que te encerras Sem praguejar contra o fardo que te aflige O teu rastro, em breve, será apagado Para que as novas gerações sejam mais belas e ternas Menos hipócrita, sujismunda, atávica e apática Como as guardas, os punhos, os corações e as lanças Dessa tacanha representação da realidade humana Bernardo Almeida