tudo é movimento
tudo é a causa dele
e o seu fim derradeiro
inclina-se a sombra
à passagem da palavra acabada
de nascer
sábia
culta e nova
fugiu desse abismo onde andou
tanto tempo
esquecida de dizer
in "Meditações sobre a palavra" (um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto), editora Temas Originais, do poeta Alvaro Giesta
nascem do caos lugares
do tempo primordial
harmonizam-se os elementos
depois
na terra e no mar
surge o corpo
o caminho
a luz
a vida que se faz aos poucos
do princípio das coisas vãs
por desvendar
do livro "Meditações sobra a palavra" de Alvaro Giesta
incendeia-se de luz a sombra
dos caminhos por abrir onde se esconde
o óvulo
antes era o caos
prenhe de ser o feto faz-se
o cosmos nasce
floresce da sombra envolto
num mar de luz
de pedra e sal
antes tudo era nada
o dia
do tempo primordial se despede
e foge
da sombra buscando a luz
que é hoje
in Meditações sobre a palavra (Temas Originais) de "Alvaro Giesta"
Invocação
(a uma filha morta)
Ontem a minha dor foi tão grande
como um terramoto
que vertiginosamente correu
para dentro da loucura.
Foi da espessura da morte!
As árvores podem correr
para mim de braços abertos
as rosas do campo sorrir,
que os lírios choram por dentro de mim
às portas da sepultura
onde te foram a enterrar.
À tua chegada
transformaram-se os céus noturnos
em nítidos céus
e chama
e calor
e luz,
quando tu os abriste
com ígnea chave em tua mão
tão franzina.
Interrompeu-se o olhar
sobre a terra
que te cobriu.
In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta
caminha-se na sombra das paredes
que se erguem envoltas
num mar duro de pedra
e sal
uma nesga de luz que sai
das trevas
por curto instante e faz gerar
da palavra a semente
rebentam do fundo da garganta
apertadas por dizer e formam-se
em interrogações constantes
no seio do poema que se faz
grita a liberdade
acordam os sentidos conscientes
duma nova realidade
in "Meditações sobre a palavra" (um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto), editora Temas Originais, do poeta Alvaro Giesta
prolonga-se na comunhão doutro corpo
funde-se com ele
no desejo que lhe sacia a sede
mar salgado de desejos por cumprir
renasce a força que agita
o cosmos
renuncia à solidão
penetra no centro do mundo
fecunda o fecundo
respira com o acto de criar
que lhe sorve o ar que o anima
em permanente renovação
in "Meditações sobre a palavra" (um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto), editora Temas Originais, do poeta Alvaro Giesta
fúria sedenta
palavra que se quer
terra
água
fogo
e ar
mulher – amante
mãe que gera no seu ventre
um grito novo
por gritar
in "Meditações sobre a palavra" (um tributo a Ramos Rosa, o poeta do presente absoluto), editora Temas Originais, do poeta
[diz o poeta que a melhor poesia se cria na ausência
e se sustenta na dor]
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Dilui-se-me o cérebro na sulfurosa atmosfera
deste tempo...
sinto os beijos cruéis da cidade com riscos de luz
no olhar e atormentam-me os engates de tantas promessas
sem data a cumprir
Prometo-te, hoje prometo-te:
que voltarei numa noite sem lua
e nela construirei um luar de sonho e beijos
para te oferecer; depois
já não precisarás de prosseguir tão só a tua viagem...
o frémito que nos devora o corpo em escorregadios lençóis
de cama alugada em tardes fugidias
selar-se-à no mesmo espaço que une
a nossa manhã à espera da nossa noite.
Acredito nas ruas que ficam para trás do tempo
da memória de nós e no crepúsculo da sede
que rebenta à flor da pele como se fosse
um palácio erigido de novo a partir dos escombros
da velha casa quase caída
Entreabro os olhos... vejo-me essa velha casa apenas
ainda vestida de nada
SOBRE A CARTA DE ROWAN A GARCIA
Procure-se uma alavanca que faça mover
uma bússola para orientar
qualquer outro instrumento que faça parar,
que sirva de travão a tudo
quanto de ruim está a acontecer.
Uma alavanca que sirva para despregar
erguer
mover
arrancar...
Uma alavanca que arranque
tudo quanto está a atravancar
e a impedir
de crescer.
Outro instrumento qualquer
que sirva de travão e faça parar
o mal que impede o bem-pensar
como em proveito universal agir.
Uma alavanca que arranque
tudo
de ruim - mas mesmo tudo.
Se a alavanca vai fazer mover
o que está parado
pela preguiça de pensar
e falta de vontade em ser um dia...
...que o travão pare
o absolutamente inútil e fútil.
E que a bússola da responsabilidade
oriente e faça agir
como em Rowan para levar a carta a Garcia.
(in TRIPLO V)
O Poema
(texto V)
Expande-se o fogo da montanha
quando o poema cresce álacre como um rio
de verdes águas e banha as paredes do tempo
com o orvalho duma primavera extasiada.
Adimos beleza ao verso mesmo que seja
negra a fonte onde se bebe
o fulgor da luz se os dedos prenhes
de palavras plantarem a magia da noite
no lugar onde engravidam as frias glicínias.
Beija-se a boca na boca da noite
se a noite sangra
gentis flores selvagens flores que
aos dedos dão o sabor dos sonhos
e às mãos o fervor da incandescente luz.
Coalha o luar frio no alto céu
se na terra se ergue a flecha no lugar da flor.
sirvo a poesia como oração fria,
de joelho dobrado como se meditasse no altar.
olho o passado. rememoro-o
pela dureza do que nesse tempo fui;
profundo foi sempre o meu verso
na minha voz exaltada;
a minha canção errante teve voos de silêncio
e solidão dentro de mim.
teve uma morte vivida em vida sem brancos
lenços de adeus – por isso, assim me amo:
amo-me neste corpo velho, substância
do que sou e sempre fui.
não sou de equívocos e como Gamoneda,
digo:
«hei-de amar a minha própria morte» como quem
se ama em vida, na certeza de que
não sabe morrer, quem não reclamar a sua dignidade.
busco na pele (inconfessável) do poema,
a minha pele ungida à boca da palavra,
fruto desta eterna injustiça. lambe a minha boca
a língua inquietante de todas as sombras
que à luz devem a existência.
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AG (Metamorfoses)
o ‘silêncio’ das palavras
aquele silêncio
que ao indizível nos conduz como se
descêssemos ao vazio e dele
refulgíssemos em êxtase
ao encontro do místico puro e belo
“o puro e belo”
o que provém do longínquo tumulto
das sonoridades que afligiam mallarmé
(quão estranho e belo é esse mistério
do silêncio)
sem gritos sofridos conversamos com ele
no tumulto dos caminhos onde não há
sonhos perdidos nem desfeitos
somente a voz do silêncio
vinda da solidão das pradarias
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AG (p/) TURFA