"A liturgia, O ícone, O monacato.
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"A liturgia, O ícone, O monacato. Descobri que eu sou Russa." _ (PRADO, Adélia. "A Convertida" In Poesia Reunida, pg. 365 (Ed. Record - 2015)
114 frases
"A liturgia, O ícone, O monacato.
"A liturgia, O ícone, O monacato. Descobri que eu sou Russa." _ (PRADO, Adélia. "A Convertida" In Poesia Reunida, pg. 365 (Ed. Record - 2015)
A invenção de um modo Entre paciência e fama quero as duas, pra envelhecer vergada de motivos.
A invenção de um modo Entre paciência e fama quero as duas, pra envelhecer vergada de motivos. Imito o andar das velhas de cadeiras duras e se me surpreendem, explico cheia de verdade: tô ensaiando. Ninguém acredita e eu ganho uma hora de juventude. Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa, a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo" Fico entre montanhas, entre guarda e vã, entre branco e branco, lentes pra proteger de reverberações. Explicação é para o corpo do morto, de sua alma eu sei. Estátua na Igreja e Praça quero extremada as duas. Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando, vendo televisão, ou tirando sorte com quem vou casar. Porque que tudo que invento já foi dito nos dois livros que eu li: as escrituras de Deus, as escrituras de João. Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
Enredo para um tema Ele me amava, mas não tinha dote, só os cabelos pretíssimos e um beleza
Enredo para um tema Ele me amava, mas não tinha dote, só os cabelos pretíssimos e um beleza de príncipe de estórias encantadas. Não tem importância, falou a meu pai, se é só por isto, espere. Foi-se com uma bandeira e ajuntou ouro pra me comprar três vezes. Na volta me achou casada com D. Cristóvão. Estimo que sejam felizes, disse. O melhor do amor é sua memória, disse meu pai. Demoraste tanto, que...disse D. Cristóvão. Só eu não disse nada, nem antes, nem depois.
Recolhe do ninho os ovos a mulher nem jovem nem velha,
Recolhe do ninho os ovos a mulher nem jovem nem velha, em estado de perfeito uso. Não vem do sol indeciso a claridade expandindo-se, é dela que nasce a luz de natureza velada, é seu próprio gosto em ter uma família, amar a aprazível rotina. Ela não sabe que sabe, a rotina perfeita é Deus: as galinhas porão seus ovos, ela porá a sua saia, a árvore a seu tempo dará suas flores rosadas. A mulher não sabe que reza: que nada mude, Senhor.
O que a memória ama fica eterno.
Páscoa Velhice é um modo de sentir frio que me assalta
Páscoa Velhice é um modo de sentir frio que me assalta e uma certa acidez. O modo de um cachorro enrodilhar-se quando a casa se apaga e as pessoas se deitam. Divido o dia em três partes: a primeira pra olhar retratos, a segunda pra olhar espelhos, a última e maior delas, pra chorar. Eu, que fui loura e lírica, não estou pictural. Peço a Deus, em socorro da minha fraqueza, abrevie esses dias e me conceda um rosto de velha mãe cansada, de avó boa, não me importo. Aspiro mesmo com impaciência e dor. Porque sempre há quem diga no meio da minha alegria: ‘põe o agasalho’ ‘tens coragem?’ ‘por que não vais de óculos?’ Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó, quero o que desse modo é doce, o que de mim diga: assim é. Pra eu parar de temer e posar pra um retrato, ganhar uma poesia em pergaminho.
O que pode ser dito Quase indizível o experimento histórico, porque o mês é setembro,
O que pode ser dito Quase indizível o experimento histórico, porque o mês é setembro, o ano, o de 2011 e às três da manhã me percebo acordada me equilibrando à beira de um buraco de que só agora meço o fundo e escuto a radiação contínua de uma dor por anos de distração ignorada. Quem pode me consolar a não ser Vós, face desfigurada de solidão e tormento? Que fiz eu, desatenta a vida inteira? Com que ocupava as horas quando, à minha frente, muda levantáveis os olhos para mim esperando mais que migalhas? Chorem comigo, céus, para que o desvão transborde. Me socorre, pai, mãe, me socorre, irmãos meus, ancestrais, pecadores todos. Quem viu o que vejo venha me socorrer. Sempre quis ver Jesus e Ele esteve comigo o tempo todo. Só era preciso um olhar, um olhar atento meu. Era só ficar junto e de modo perfeito tudo estaria bem, de modo miraculoso. Ó Vós que me fizestes, bendigo-Vos pela cruz da qual ainda viva me desprendes. Eu não preciso mais acreditar. Na minha carne eu sei que sois o amor e é dele que renasço e posso voltar a dormir.
Trem noturno O trem viaja sob estrelas. Tal qual um doutor,
Trem noturno O trem viaja sob estrelas. Tal qual um doutor, o pai veste guarda-pó. ‘Fagulhas entram com o vento, minha filha, e roupa boa é uma só.’ Fagulhas e o cheiro da lenha na fornalha, da graxa em suas unhas como um sinal de nascença. ‘Presta atenção, minha filha, com o trem andando. Uma vez, uma menina espichou o braço na janela e adeus, braço.’ O trem passou. Só ficou o que não morre: esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas. Graças a Deus, não preciso dizer: adeus, pai.
A bela múmia Comeu, dormiu, caçou, adorou vários deuses
A bela múmia Comeu, dormiu, caçou, adorou vários deuses e hoje, insepulta, ri para os turistas. Nem tão frágeis são os ossos. Passaram-se milênios e quem vê quem? Você tão antiga, acordada, eu tão moderna, ainda não fui dormir. O fio do colar está perfeito. Em gravuras antigas aprendo como se adora o deus. Braços erguidos, as conchas das mãos voltadas para o alto. Aplacam-se os neurônios, fica tudo perfeito novamente: a batalha contra os ratos, a angústia de pensamentos que perturbam o sono, o que "excede todo entendimento" e este amarelo radioso sugerindo que maio está voltando. Muito cuidado com o recém-nascido.
Filme B Colarinho sujo e gravata, cabelo pintado e caspas.
Filme B Colarinho sujo e gravata, cabelo pintado e caspas. O close capta a canastrice do crápula. Tem uma traça no traje que ele veste fazendo papel de rico. Balança o lustre de lata no teto de papelão. Atores, rosas expropriadas de sua alma, meu límpido espelho.
Herança Deus dirá para mim, quando eu morrer: Toma, filha, a escritura deste lote de pedras,
Herança Deus dirá para mim, quando eu morrer: Toma, filha, a escritura deste lote de pedras, a eternidade é tua pra cheirar capim seco à margem da ferrovia, ver teu pai dando guerra às saúvas e escutar tua mãe cantando.
O sempre amor Amor é a coisa mais alegre amor é a coisa mais triste
O sempre amor Amor é a coisa mais alegre amor é a coisa mais triste amor é coisa que mais quero. Por causa dele falo palavras como lanças. Amor é a coisa mais alegre amor é a coisa mais triste amor é coisa que mais quero. Por causa dele podem entalhar-me, sou de pedra-sabão. Alegre ou triste, amor é coisa que mais quero.
Categorias Não nasci assim mãe, assim avó,
Categorias Não nasci assim mãe, assim avó, assim tia. Já fui filhinha, irmã, fui coleguinha. Única e singular, já fui louçã. Agora, mal começa a manhã, entra noite, sai dia, sou só dona Maria.
O Pai Deus não fala comigo nem uma palavrinha das que sussurra aos santos.
O Pai Deus não fala comigo nem uma palavrinha das que sussurra aos santos. Sabe que tenho medo e, se o fizesse, como um aborígine coberto de amuletos sacrificaria aos estalidos da mata; não me tirasse a vida um tal terror. A seus afagos não sei como agradecer, beija-flor que entra na tenda, flor que sob meus olhos desabrocha, três rolinhas imóveis sobre o muro e uma alegria súbita, gozo no espírito estremecendo a carne. Mesmo depois de velha me trata como filhinha. De tempestades, só mostra o começo e o fim.
O Ajudante de Deus Invoquei o Santo Espírito, Ele me disse: sofre,
O Ajudante de Deus Invoquei o Santo Espírito, Ele me disse: sofre, come na paciência esta amargura, porque tens boca e eu não. Toma o pequeno cálice, massa de cinza e fel não transmutados. É pão de mirra, come.
Filhinha Deus não é severo mais, suas rugas, sua boca vincada
Filhinha Deus não é severo mais, suas rugas, sua boca vincada são marcas de expressão de tanto sorrir pra mim. Me chama a audiências privadas, me trata por Lucilinda, só me proíbe coisas visando meu próprio bem. Quando o passeio é à borda de precipícios, me dá sua mão enorme. Eu não sou órfã mais não.
A Paciência e Seus Limites Dá a entender que me ama, mas não se declara.
A Paciência e Seus Limites Dá a entender que me ama, mas não se declara. Fica mastigando grama, rodando no dedo sua penca de chaves, como qualquer bobo. Não me engana a desculpa amarela: ‘Quero discutir minha lírica com você.’ Que enfado! Desembucha, homem, tenho outro pretendente e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio que esse seu verso doente.
Responsório Santo Antônio, procurai para mim a carteira perdida,
Responsório Santo Antônio, procurai para mim a carteira perdida, vós que estais desafadigado, gozando junto de Deus a recompensa dos justos. Estão nela a paga do meu trabalho por um mês, documentos e um retrato onde apareço cansada, com uma cara que ninguém olhará mais de uma vez a não ser vós, que já em vida vos apiedáveis dos tormentos humanos: sumiu a agulha da bordadeira, sumiu o namorado, o navio no alto-mar, sumiu o dinheiro no ar. Tenho que comprar coisas, pagar contas, dívidas de existir neste planeta convulso. Prometo-vos uma vela de cera, um terço do meu salário e outro que rezarei pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges, cuja língua restou fresca entre vossos ossos, intacta. Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida e, se tal não aprouver a Deus para a salvação da minha [alma, procurai antes me ensinar a viver como vós, como um pobre de Deus. Amém!