Frase de BARROS, José D'Assunção.
O REFUGIADO A NADO . . O sal das lágrimas misturava-se ao das águas: só queria vida, só queria um chão. . Mas encontrou as armas, nas mãos de um guarda. Encontrou o exército, de todos os países do mundo, e a serviço de todas as burocracias do Universo. . Ele pedia um lugar, e implorava pão; mas encontrou um muro, para além dos muros (não bastassem as águas contra as quais nadava). . O Refugiado a Nado construiu seu escafandro com garrafas e boias de plástico. Conseguiu quebrar a violência das ondas... Mas não conseguiu derreter o coração das autoridades. . Duros, e como a um peixe, devolveram-no ao mar – ao mar da morte, e da vida em morte –: ao mar cinza dos apátridas a quem não se quer. . Devolveram-no – ao Refugiado a Nado –, como se nunca o tivessem recebido. Entregaram-no àquela vasta extensão de oceano – desoladora, fria, e muito mais implacável – para além do Mediterrâneo, e de todos os mares: para aquém da Terra. . Depois que ele se foi, como se não tivesse chegado, rasgaram sua presença como uma foto incômoda. No fim, os noticiários o deglutiram ao avesso como uma fome indigesta... qual mera curiosidade para sessão da tarde . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Crioula, nª31, 2023]
No pensador.ai desde