Frase de BARROS, José D'Assunção.
O INVENTOR DE IDIOMAS , , Ainda adolescente, inventou duas ou três palavras que não se achavam em quaisquer idiomas. Não faziam sentido em inglês, bielorrusso, javanês! A bem dizer de todos os dizeres, não faziam sequer sentido mesmo neste código mais do que secreto: o português. . Depois percebeu que as duas ou três palavras, que àquela altura já eram quatro ou cinco, não eram irmãs, nem distantes primas. Estranhavam-se, umas às outras, como se não fossem feitas da mesma alma-carne. . Por causa disso – da solidão de suas palavras – demoradamente dedicou a sua vida a inventar os idiomas que pudessem acolhê-las. Fundou ainda uma escola de tradutores, para traí-las umas nas outras. . Mais cedo do que mais tarde, alguns ociosos fundaram cátedras especializadas em ensiná-las e estudá-las muito solenemente, com leveza ou gravidade. Assim, ele ganhou o seu primeiro – e único – Nobel, em uma nova categoria que não era a Literatura, recém-inventada, especialmente para ele. . Quando por fim morresse – do que dois ou três seguidores duvidavam – alguém haveria de escrever na lápide, à maneira de epitáfio: “gênio da humanidade”, “inventor de palavras”. Mas um outro, ao perceber a injustiça, certamente iria logo corrigir, depois de um risco no falso dito: “Inventor de Idiomas”. . E o mundo ficaria em paz... – tal qual sagrado cálice – como nunca esteve depois do Verbo. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Decifrar, 2022]
No pensador.ai desde