Frase de BARROS, José D'Assunção.
PREMONIÇÃO . . Em um dia de meio dia, meus olhos, somente os olhos, tiveram uma visão. . Lembro-me que a luz me doía como uma ponta de sabre no corpo do coração. . Lembro-me, sem muito assombro, que tudo quedava incompleto, como se as luzes buscassem em vão o preenchimento das coisas. . Na sintonia das imagens dissecavam-se as paisagens sem mistificação: . Não obstante o colorido, ficavam os homens repartidos como se feitos de pão. A uns: o ouro e a prata; a outros: a fome e a crença; a esses: a esperança; para aqueles: quitutes em lata. . Tanto sol doía nos ombros da nação (talvez não houvesse justiça em sua distribuição). . E talvez por ser evidente, ficavam doídas e claras as sombras dos coqueiros. Ali, onde outrora era verde espreitam crianças no desamparo. . Desamparadas, porém livres, querem construir a nação – mas faltam-lhe os instrumentos: os braços, e as mãos... . . Igualmente iluminados, os andarilhos nas estradas: pés descalços, chapéus de palha, – ou capacetes e mãos de graxa –. Todos, embora cansados, querendo correr o chão. . Mas falta-lhes segmento: as pernas da multidão. . Arre! Tanto sol arde como uma tarde de Verão... . . BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Insurgências, 2024]
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