Frase de BARROS, José D'Assunção.
A CARTA . . Me perdi de mim! Desde então, já não mais me encontro. Não sei o que quero... não sei o que quis... Não sei, mesmo na imaginação, o que um dia fiz. . O futuro era promissor: Eu tinha uma carta de instruções, com uma frase escrita em letras góticas pela azul magia dos próprios anjos. Ela, Ela, Ela – Carta-Chancela do mais Alto dos Cartórios, dizia tudo o que eu faria quando enfim-nascido – quando, por fim chegado, àquilo que me cabia –. . Estava no bolso, bem me lembro disto: a carta no seu envelope – minha tão cara carta! Dela me lembro com a tal nitidez das brumas do Paraíso. . Mas a carta escapou voando, faceira, cruel e cínica. Zombando da distração fatal, foi-se ao sempre, longe pela janela da suave estrada conducente ao calor do ventre. . Já no útero, levei as mãos aos bolsos; vi que, tolo, já não tinha bolso. . O que a carta – tão vital – traria? Seria a alegre ordem, para fazer rir? Um pedido para deixar chorar? Ou seria um país difícil para em vão liderar? Seria talvez uma arte? Ou quem sabe uma ciência dessas que se acham em parte? Seria uma daquelas missões no coração da África? Uma criança triste para alegrar? . Já não posso saber, pois me perdi de mim; e não mais me encontro para ler a carta: Ela, Ela, Ela. . Sozinho, caminho sempre, confuso e triste, pelo azar da estrada. Busco o que não posso, mas não encontro nada. Se me perguntam o que quero, digo que não sei, pois perdi a carta, tão imprescindível. . Se me apontam uma direção, por ela sigo com frio entusiasmo, na esperança de encontrar a mim, para ler a carta. . Ah, felizes de vós que me ouvem agora! Felizes daqueles que sequer sabem que existem cartas escritas pelos anjos. Felizes de vós, que as perderam, mas não se lembram disso; e disso não se verão cobrados. . Felizes, de tu e de ti, os que não sabem que se perderam! Felizes todos os que não sabem que nasceram sem a carta que traziam ao suave calor do ventre. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Juçara, vol.6, nº1, 2022]
No pensador.ai desde