Pular para o conteúdo

Frase de FMS

Senhor Romeo Senhor Romeo, eu fiz isso de novo. Um ano em cada dez consigo lidar com isso. Sou uma espécie de milagre ambulante minha pele ainda intacta, como se não tivesse aprendido a lição do fogo. Diga-me: quantas vezes se pode morrer dentro da mesma casa sem que a vizinhança desconfie? Colecionei pequenas mortes como quem guarda cartas não enviadas. Dobrei cada tentativa frustrada e a escondi na gaveta do criado-mudo, junto aos comprimidos e aos retratos onde ainda corríamos como dois atores mal pagos ensaiando eternidade. Você dizia: “amor é resistência.” Eu resisti até virar ruína. Sempre havia um copo quebrado na pia, uma frase suspensa no ar, um silêncio armado apontando direto para o meu peito. Tentei ser um incêndio manso. Tentei ser água morna. Tentei ser o homem que não sangra quando cortado por palavras. Mas cada tentativa Era um ensaio de funeral. O primeiro amor morreu de frio faltaram cobertores e coragem. O segundo morreu de excesso amor demais é veneno doce, colherada de açúcar numa garganta já em chamas. O terceiro? Ah, Senhor Romeo o terceiro fui eu. Enterrei minha voz no jardim. Plantei rosas sobre os gritos. Aprendi a sorrir de dentes cerrados para que ninguém visse a hemorragia discreta escorrendo pela alma. Quantas vezes se pode voltar? Quantas vezes se reconstrói uma casa incendiada com os mesmos fósforos? Você me chamava dramático. Eu me chamava de sobrevivente. Havia espetáculo na minha dor, confesso. Eu me levantava das cinzas com as roupas ainda fumegando, a barba desgrenhada como se fosse condecoração. Olhem eu ainda estou aqui. Mesmo depois de vocês. Mas sobreviver não é o mesmo que viver. À noite deito ao lado do vazio e ele respira melhor que qualquer amante. O vazio não promete. Não mente. Não diz “para sempre” com a boca cheia de vento. Senhor Romeo, há um cemitério em meu peito onde cada “nós” fracassado Tem uma lápide discreta. Aqui jaz a tentativa de diálogo. Aqui jaz a paciência. Aqui jaz o homem que acreditava que amor era salvação. Aprendi tarde demais: amar não ressuscita ninguém. Amar não cura abismos. Amar não transforma homens em porto seguro. Às vezes, amar é apenas outro nome para se oferecer em sacrifício num altar que ninguém pediu. E ainda assim olhe para mim, Senhor Romeo eu me levanto. Com as mãos queimadas. Com o coração em carne viva. Com a dignidade remendada como roupa antiga. Eu me levanto não por eles, não por você, mas por essa centelha obscena que insiste em pulsar mesmo depois de tantas mortes pequenas. Talvez eu seja feito de matéria reincidente. Talvez eu goste do gosto metálico do recomeço. Ou talvez apenas talvez eu tenha descoberto que a única relação que não fracassa é esta: entre mim e o homem que se recusa a permanecer enterrado.

FMS

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de FMS

Emanuele Era numa noite sem lua ou talvez fosse dentro do meu peito
Continuar lendo

Emanuele Era numa noite sem lua ou talvez fosse dentro do meu peito que teu nome começou a ecoar como um sino rachado anunciando minha própria ruína. Amada minha, mais pálida que a névoa que rasteja sobre túmulos esquecidos, mais doce que o veneno lento que se mistura ao vinho. Eu te amei antes do primeiro delírio, antes que os anjos, invejosos, cruéis sussurrem maldições nas frestas do céu. Eu te amei quando teu riso ainda não sabia que me condenava. Teu nome ah, teu nome é uma lâmina que percorre as paredes da minha mente, entalhando tua face em cada pensamento que ousa nascer. Dizem que o amor é chama. Mas o que sinto é incêndio em catedral antiga: vitrais estilhaçados, santos decapitados, o altar consumido pela fome da tua ausência. Eu não durmo vigio. Vigio o vento, como se ele pudesse trazer teu perfume. Vigio as sombras, pois nelas imagino teus passos. Vigio meu próprio coração, temendo que ele ouse bater sem pronunciar teu nome. Ó minha amada minha febre, minha sentença teu silêncio é um oceano negro onde me afogo todas as madrugadas. Se te afastas, meus ossos rangem como portas de mausoléu. Se te aproximas, minha carne treme como se a eternidade estivesse a um sopro da perdição. Eu te quis mais do que o céu quis as estrelas. Mais do que a noite deseja a lua. Mais do que os mortos desejam Um último suspiro. E, no entanto, quanto mais te possuo em pensamento, mais te perco na carne do mundo. Te imagino deitada sob constelações frias, teus cabelos espalhados como raízes que me prendem ao chão da loucura. Ah, se a morte viesse não para te levar, mas para selar-nos num túmulo partilhado, onde minh’alma pudesse se enroscar na tua como hera sobre pedra antiga! Porque amar-te, minha sombria estrela, não é gesto é destino. Não é escolha é corrente. E mesmo que os anjos se levantem com suas espadas de luz invejosa, mesmo que o mar se abra em fúria contra meu delírio, ainda assim ainda assim meu espírito rastejaria pela eternidade sussurrando seu nome como oração profana. Pois és minha não por direito, mas por obsessão. E se um dia disserem que não me amas, o mundo se partirá em duas metades ocas, e eu vagarei entre elas como espectro faminto que só reconhece um único altar: Teu coração mesmo que ele jamais bata por mim.

Papai Papai, por que o senhor faz isso?
Continuar lendo

Papai Papai, por que o senhor faz isso? Com suas botas negras, ruidosas, marchando dentro da minha cabeça, eu vivi à sombra do seu pé por vinte e dois anos — pálido, pobre, quase sem ar. Eu mal respirava para não provocar sua ira. Papai, eu morri jovem. Morri antes do tempo. Não de doença — mas de ausência. Pesado como mármore, carreguei um saco cheio de mágoas, um banquete de argila na boca, um espectro de louça suja na memória, e uma cabeça rachada pelos seus gritos e pelo medo. Eu rezava por redenção. Mamãe, com o rosário trêmulo, batia a cadeira no chão como se pudesse expulsar o demônio que o senhor chamava de filho. Mas eram suas palavras, papai, que doíam mais que seus punhos. Punhos na mesa. Punhos na guerra. Guerras, guerras e mais guerras — e o nome da cidade era comum demais para justificar tanto ódio. Meus amigos invejavam o senhor. Eu invejava os pais deles. Nunca fui suficiente. Nunca firmei o pé na sua terra. Minha língua apodreceu presa na armadilha da minha mandíbula. Nosso amor — arame farpado. Eu, eu, eu, eu — ecoando num quarto sem portas. Eu mal respirava para não provocar sua ira. Papai, eu pensei que todos os homens fossem feitos da sua fúria. Que todo idioma nascesse como motor engasgado e palavra obscena. O senhor me tratava como se eu fosse o erro da casa. Comecei a falar como estrangeiro. A viver como intruso. A existir como culpa. Papai, eu fui embora. Mas esta carta não é despedida. É uma autópsia. O livro negro terminou. Segue o diário de um menino que só queria ser amado. Fui expulso com asas queimadas, um anjo caído na sarjeta da própria família. Três anos sem vocês. Três anos tentando arrancar as botas da minha memória. Mas o senhor ainda dança, pisoteia, marcha dentro do meu peito. Há uma estaca cravada no meu coração — negro de medo, branco de silêncio. Eles nunca souberam quem eu era. Chamaram-me monstro porque ousei sangrar. Papai… o senhor pode descansar agora. Chega das botas. Chega do peso. Chega do medo. Mas, se ainda houver um resto de homem sob esse couro e essa fúria — me ame. Porque eu ainda sou o garoto assustado que treme ao som dos seus passos.

Vida e a morte Vida é direção bússola trêmula apontando para o nunca.
Continuar lendo

Vida e a morte Vida é direção bússola trêmula apontando para o nunca. Morte é destino porto mudo onde o vento se cala. Vida é teorema insolúvel, equação escrita em sangue e suor; morte é o resultado inevitável, a resposta fria no rodapé do universo. Vida é sagrado que pulsa, é templo erguido em carne frágil; morte é profana aos olhos do medo, mas sussurra verdades que ninguém ousa ouvir. Hoje me deitei com a morte. Não em lençóis, mas no silêncio. Toquei sua face pálida e ela me chamou pelo nome como uma velha amante paciente. Vida é divino em combustão, é turbulência, é queda livre, é o cotidiano que arranha e exige. Morte é descanso colo escuro onde o cansaço repousa. Tenho fascínio por seus dedos frios, pela promessa de quietude após tanto ruído. A morte é minha célere amiga, companheira invisível que caminha ao meu lado sem jamais se atrasar. Entre a vida que me rasga e a morte que me acolhe, há um romance secreto. Uma doce união entre o sopro que insiste e o abismo que chama. E eu, feito ponte, oscilo. Porque viver é arder sabendo do fim. E amar a morte é confessar que o descanso também seduz.

Augusto Foi há alguns anos, numa noite ao pé do lago. Como sabeis todos, foi lá que encontrei
Continuar lendo

Augusto Foi há alguns anos, numa noite ao pé do lago. Como sabeis todos, foi lá que encontrei aquele que sempre soube amar; vive ainda em meus pensamentos, e amar-lhe era mais que amar a mim mesmo. Eu era um jovem moço, ele, um belo jovem, nesta cidade ao pé do lago; mas o nosso amor era mais que amor — o meu e o dele era carnal, um amor sagrado e profano. E foi esta a razão por que, há muitos meses, nesta cidade ao pé do lago, à luz do luar eu ainda soube amá-lo; mas a vida o tirou de mim para encerrá-lo em meu sepulcro, nesta cidade ao pé do lago. E o rosto triste, no reflexo da água, ainda murmura: eu te amo… Sim, foi essa a razão — como sabem todos — que eu te perdi, Augusto. Numa quinta-feira gelada, o vento saiu da nuvem e matou o amor que um dia soube amar. Mas o nosso amor não era para sempre, ridicularizado pelos deuses; e nem os demônios sob o lago poderão separar minha alma da alma de Augusto. Porque a luz triste do luar só me traz sonhos do dia lindo em que soube amá-lo; e as estrelas na sexta sombria só me devolvem os olhares do meu amor que um dia soube amar. E assim ‘stou deitado toda noite ao lado do meu sepulcro, sem Augusto, no sepulcro ao pé do lago onde nos conhecemos, ao pé do eterno murmúrio do lago.