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Frase de Carina Gameiro

O Desfile dos Meus Eus Sou o intervalo entre o que quero e o que sou, o lugar onde meus eus se encontram sem se reconhecer. Cada um traz no rosto aquilo que o outro deixou, e nenhum sabe ao certo quem veio primeiro a ser. Passa por mim um que se julga corajoso, logo atrás, vem o que chora na penumbra. Um inventa certezas com ar cuidadoso, enquanto o outro desfaz tudo aquilo que inventa. Eu os observo, ou eles me observam? Já não sei quem conduz esta procissão. Talvez sejam meus os passos que me movem, talvez eu seja apenas mais uma na multidão. Quantos sou eu neste instante exato? Quem pensa aquilo que agora escrevo? Sou o autor, o personagem ou o ato? Sou o que sinto ou aquilo que concebo? Há em mim quem sonhe sem nunca ter vivido, quem viva sem jamais saber que sonha. Quem escreva para encontrar o próprio sentido e quem se perca justamente quando o encontra. Canso-me de assistir à minha própria passagem, espectadora de uma comédia sem enredo. Procuro um rosto inteiro atrás da personagem, mas só encontro estilhaços, máscaras e medo. Nunca ser somente um, talvez seja esse o dilema: ser o que parte, o que fica e o que quebra. Carregar dentro do peito mais de um e ainda perguntar: qual deles sou eu, afinal? Se me procuro no espelho, não vejo nada. Nenhuma certeza permanece ali. Vejo apenas a multidão que me habita calada, e, no meio dela, alguém que escreve por mim. Carina Gameiro

Carina Gameiro

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Pensador.com

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Outras frases de Carina Gameiro

Vivo de encantamentos simples: um sopro de vento, um pôr do sol, uma vontade bonita de ser feliz.
O Sertão Dentro de Mim O sertão que eu trago não tá no mapa
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O Sertão Dentro de Mim O sertão que eu trago não tá no mapa ele mora em mim nas partes em que a palavra não cabe onde o silêncio diz sim Tem dia que sou chão rachado pedra dura pó e calor onde a lágrima não escorre mas queima o peito e a dor Mas foi na seca que eu vi brotar meu fio d’água escondido milagre pequeno e teimoso me mantendo vivo Já tive sede de afeto sede de mim de abrigo mas aprendi com o deserto que a falta também é amigo O sertão que vive em mim é duro mas quer crescer porque o amor que nasce da dor ninguém mais pode deter. Carina Gameiro

Anatômico A vida que se faz entre os ventrículos urgência silenciosa
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Anatômico A vida que se faz entre os ventrículos urgência silenciosa um motor cego, engenharia bruta sem licença, transmuta o mundo sem sossego Houve o silêncio, o quase, o não querer, a porta estreita o sopro hesitou mas o sangue, rio teimoso no dever, insiste, insiste em canais apertados encontra caminho Milagre pesado, sem seda, sem ornamento batida seca contra a grade das costelas uma aposta alta onde a alma não cede, não cede, e acende no escuro as próprias velas O átrio recebe o medo, o ventrículo devolve vida, gramática de carne indizível Pela fresta da pálpebra a dor cedeu e o soco do peito bate, bate, bate até fabricar luz. Carina Gameiro