Frase de Carina Gameiro
O Desfile dos Meus Eus Sou o intervalo entre o que quero e o que sou, o lugar onde meus eus se encontram sem se reconhecer. Cada um traz no rosto aquilo que o outro deixou, e nenhum sabe ao certo quem veio primeiro a ser. Passa por mim um que se julga corajoso, logo atrás, vem o que chora na penumbra. Um inventa certezas com ar cuidadoso, enquanto o outro desfaz tudo aquilo que inventa. Eu os observo, ou eles me observam? Já não sei quem conduz esta procissão. Talvez sejam meus os passos que me movem, talvez eu seja apenas mais uma na multidão. Quantos sou eu neste instante exato? Quem pensa aquilo que agora escrevo? Sou o autor, o personagem ou o ato? Sou o que sinto ou aquilo que concebo? Há em mim quem sonhe sem nunca ter vivido, quem viva sem jamais saber que sonha. Quem escreva para encontrar o próprio sentido e quem se perca justamente quando o encontra. Canso-me de assistir à minha própria passagem, espectadora de uma comédia sem enredo. Procuro um rosto inteiro atrás da personagem, mas só encontro estilhaços, máscaras e medo. Nunca ser somente um, talvez seja esse o dilema: ser o que parte, o que fica e o que quebra. Carregar dentro do peito mais de um e ainda perguntar: qual deles sou eu, afinal? Se me procuro no espelho, não vejo nada. Nenhuma certeza permanece ali. Vejo apenas a multidão que me habita calada, e, no meio dela, alguém que escreve por mim. Carina Gameiro
No pensador.ai desde