Frase de BARROS, José D'Assunção.
MÉTODO POÉTICO . . Meu método? O mesmo das Estrelas. Primeiro, surge uma ideia – vaga, ou mesmo fantasmagórica. Ou então uma combinação inesperada de palavras, por vezes embaraçosa... Talvez – quem sabe – uma imagem cujas estranhezas e travessuras afrontem todos os cânones. Uma eloquente frase que cale ao peito solitária: sincera lágrima. . Em uma palavra: Poeira – nuvens de poeira desgarradas vindas dos confins da mente e das bordas do acaso. . Mas então, depois de muito vagar pelos meus arquivos, ou de pairar errantemente sobre os meus sonhos, algumas delas começam a se combinar – como se, irmãs, viessem de famílias distintas – E eis que surge, alegre, a Gravidade, pronta a juntar em um só giro o que se queria disperso e sem mais rumos: Ansiosa para, com violenta ternura, moldar a forma. . Por fim, emerge, do caos girante, uma estrela – supremo milagre no delirante acaso de um universo improvável em sintonia fina. . Faz-se o Poema – estranho acontecimento cuja tenra fornalha interna queima a pretensão de alimentar as almas... . A ti parece, este, um método por demais aleatório? É porque não sabes de toda a paciência que foi necessária para não limpar intempestivamente a poeira errante que por tanto tempo pairava nos escuros céus dos meus arquivos, sonhos, lembranças. Quantas vezes fui tentado a deletar um quase-embrião de verso, ou quis me desfazer da tal metáfora tão desajeitada! Mas ouvi a voz: Guarda este pó que de ti vieste. . Sem esta paciência, não seria possível a criança: ver, do poema, a forma brotar esperança como flor que redefine as suas próprias pétalas e decide, magnífica e hesitante, se pétalas terá... . Ver, da alma poética, redesenhar-se certo corpo quando é corpo o que se quer... E, quando não é isto o que se almeja, aceitar-se como alma pura-chama, ou reconhecer-se, mesmo, tão somente como pó. a dignidade do pó: despretensioso, periférico, errante. . Este é o método: render-se ao que se tornou possível no oceano do improvável com a bem ajustada sintonia fina. Respirar a poesia como destino que se fez do acaso... . . [BARROS, José D'Assunção. Revista Sede de Ler, 2024]
No pensador.ai desde