Frase de BARROS, José D'Assunção.
A JANELA . (ou: Homenagem aos Historiadores) . . Olha pela janela... Lá vai o primeiro homo habilis a caminhar, ainda trôpego, sobre a Terra. E ali está a mulher – bem mais inteligente que os machos de sua espécie – a jogar no solo a gentil semente pronta a germinar o milagre da revolução agrícola. Espia! Aquele artesão acaba de mover a pioneira pedra para fundar a primeira das cidades, e não está longe o que inventou a roda – ela... tão surpreendente na sua genial obviedade. . Espicha agora o teu olho longo pela paisagem infinda... Percebeste César, à beira de um riacho, discursando para os leais soldados? Ele atravessa agora o seu rubicão, marcha sobre Roma, proclama-se Ditador, e recebe as vinte e três facadas. E logo ali vem Cleópatra, tão perto no espaço-tempo – com seu olhar anacrônico e seu sorriso à Liz Taylor. Ela o seduz, mesmo num saco de estopa, enquanto, no mesmo gesto, já concebe seu filho – egípcio e romano –, e morre... ao chacoalhar das serpentes. . Quanto a ti, a tudo contemplas, em um único relance, bem ali: sob a janela. . Não... não chores, Historiador... Tu vês a peste negra? Sentes seu odor da morte se elevar aos ares? Ouves o som surpreendente dos cacos de vidros a quebrar o silêncio na noite dos cristais? Sofreste agora aquela profunda fisgada da bala que encontrou Guevara? Pranteias pelos primeiros desmatamentos, e és fustigado por cada açoite lancinante nos ombros de todo escravo? . Mas tu podes ver o florescer de um movimento verde que salvará as baleias e micos-dourados ao som de canções medievais entoadas pelos trovadores árabes e cristãos. Tu – mais do que todos – podes ver os homens e mulheres de pela preta em sua luta diária pela liberdade, a fundar quilombos e universidades, a vencer o preconceito insano! És tu que podes ver, em Luís Gama, um tanto de Zumbi – e, para além do herói, o homem humano! . Tu viveste, há dois segundos do nosso próprio tempo, todos os sonhos de igualdade, de uma só vez! E, se tu viste as ditaduras de todos os tempos se erguerem em um único e cruel movimento, também assististe à derrocada de todas elas. Tu és privilegiado, Historiador... Somente tu, junto aos artistas, viajas tão à vontade pelo tempo antes da invenção das máquinas de viajar no tempo. És tu aquele que olha atento e intrigado pela janela onde tudo se estende à espera de novos olhares. . Lá estão as fontes históricas – estes passados tão presentes – todas tão ansiosas pelas perguntas que farás às suas páginas por vezes bolorentas, aos tratados de guerra e paz, aos diários anônimos e secretos, à sua matéria mais despretensiosa... . Ali estão as fontes, ao pé da tua janela – as mesmas que aguardam, com solenidade ou displicência, as perguntas que farás aos decretos e receitas de bolo, aos jornais oficiais e clandestinos, às cidades acima e abaixo da terra, aos sulcos deixados na terra pelos camponeses; ou, por fim, à lança de pedra que foi lascada pelo primeiro homo habilis a caminhar por sobre a Terra. . Vai, Historiador... Olha pela janela e age na história de tua própria época. . . [BARROS, José D'Assunção. Revista Cronos, vol.23, nº2, 2023]
No pensador.ai desde