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Frase de BARROS, José D'Assunção.

⁠CARDÁPIO DAS PALAVRAS . . As palavras devem ser servidas como pratos rústicos ou requintados – com temperos abstratos. Pede-se, por vezes, que ao som de música ressoem nos ambientes adequados. . “Canalha”, por exemplo... É palavra que deve ser servida crua, sem nenhuma música, em prato de velho barro, de modo a causar repulsa já... na primeira sílaba. – A não ser, é claro, nos próprios canalhas, que adquiriram um gosto especial por aquele estranho quitute... Estes, quando a ouvem de uma outra boca, degustam-na com lamber de beiços – insolente e desaforado –. . “Sublime” é palavra etérea que deve ser servida em porcelana bem chinesa, ao som de violinos perfumados com cores majestosas. Por outro lado, há certamente palavras indigestas. Disso sabe todo bom gourmé (palavra esnobe, para escutar à borboleta, de gravata e terno, ao menos quando pronunciada em português). É bem este o caso (previnam-se com comprimidos) da – pouco saborosa – “anti-inconstitucionalissimamente”. Palavra que se orgulhava de ser a mais longa do nosso idioma, e que deve ser democraticamente servida em uma bandeja longa, para quarenta e dois convidados. . Às vezes, os diminutivos ou aumentativos já exigem uma nova forma de servir a palavra neles enraizada: “Cachorrinho” as mulheres servem ao interlocutor sob a forma de canapé. Mas “cachorrão” vem sempre entre duas fatias de pão... E para comer na beira das calçadas, ao som de tango amarelo! . Palavras há que parecem ter sido feitas à mão para que as letras se ajustem àquilo que significam... As lagartixas tem vontade de subir pelo “p” e “d” de parede. Da mesma forma, é palavra dura – e, para muitos, intransponível. Ao ser pronunciada, ou mesmo escrita, come-se com máxima cautela – para não quebrar os dentes ou trazer problemas mais indigestos– tal qual fosse um pé-de-moleque de fim de festa junina. . Mas há outras palavras que jamais combinam com o gosto que trazem, ou deveriam trazer. Ósculo chegou a ser banida do dicionário porque era uma forma arcaica de beijo apenas praticada pelos impotentes. Tende a azedar sempre na boca, assim que os lábios se tocam. É servida em pequeno pote esquecido ali ao canto. Seu nenhum-sabor só atrai os sobreviventes do antepenúltimo século. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Juçara, 2022]

BARROS, José D'Assunção.

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Pensador.com

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Outras frases de BARROS, José D'Assunção.

⁠O INVENTOR DE IDIOMAS ,
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⁠O INVENTOR DE IDIOMAS , , Ainda adolescente, inventou duas ou três palavras que não se achavam em quaisquer idiomas. Não faziam sentido em inglês, bielorrusso, javanês! A bem dizer de todos os dizeres, não faziam sequer sentido mesmo neste código mais do que secreto: o português. . Depois percebeu que as duas ou três palavras, que àquela altura já eram quatro ou cinco, não eram irmãs, nem distantes primas. Estranhavam-se, umas às outras, como se não fossem feitas da mesma alma-carne. . Por causa disso – da solidão de suas palavras – demoradamente dedicou a sua vida a inventar os idiomas que pudessem acolhê-las. Fundou ainda uma escola de tradutores, para traí-las umas nas outras. . Mais cedo do que mais tarde, alguns ociosos fundaram cátedras especializadas em ensiná-las e estudá-las muito solenemente, com leveza ou gravidade. Assim, ele ganhou o seu primeiro – e único – Nobel, em uma nova categoria que não era a Literatura, recém-inventada, especialmente para ele. . Quando por fim morresse – do que dois ou três seguidores duvidavam – alguém haveria de escrever na lápide, à maneira de epitáfio: “gênio da humanidade”, “inventor de palavras”. Mas um outro, ao perceber a injustiça, certamente iria logo corrigir, depois de um risco no falso dito: “Inventor de Idiomas”. . E o mundo ficaria em paz... – tal qual sagrado cálice – como nunca esteve depois do Verbo. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Decifrar, 2022]

⁠NO CÔNCAVO DA MÃO MORTA . .
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⁠NO CÔNCAVO DA MÃO MORTA . . No côncavo da mão morta havia uma chave... não sei para que castelos. . Para qual porta, oh Deus Entranhas, tal chave – tão triste chave – em certo dia foi forjada? . Havia aquela chave não como uma pedra no meio do bom caminho, mas no côncavo da mão morta. . E essa mão, tão inerte e já bem morta, cujo corpo era seu mero apêndice, ao mesmo tempo oferecia e segurava a chave. . O gesto, embora pálido, tinha a cor dos desesperos! Parecia dizer, nos entrededos: . Pega esta chave, se tu és digno dela, e cuida do seu metal como se fosse cristal precioso, de tão frágil. . Antes de tudo o mais, colhe-a como uma fruta já por mais do que madura. A ela recebe – tão suculenta – entre teus próprios cinco dedos. . A chave, no côncavo da mão morta, parecia a mim implorar-assim: “Leva-me... a meu destino, que para isso nasci”. . E a mão côncava acrescentava: “Leva-a, que somente por isso insisto em me entreabrir” . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2021]

⁠O ANJO . .
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⁠O ANJO . . Enquanto bebia seus drinques, um antes do outro, começaram a lhe crescer asas cada vez maiores: bem desenhadas, cheirosas... brancas e polidas. O sorriso verteu-se puro, sincero, acolhedor. Falava agora a deliciosa língua dos anjos com suas palavras estranhas e belas a soar qual música nos ouvintes e a reluzir como imagens no pleno espaço. Puro êxtase profano e sacro de quem via. . As cores do paraíso a ele se abriram, como se misturadas em um crisol. A inteligência, não mais em greve, discorria sobre todos os arranjos: cinema, viagens, lares e lugares... filosofia, arte, sabores e amores. Com a luz que de si emana... contava piadas de cair o siso! Iluminava, fundo e profundo, as jovens rosas no gineceu... . Até que a noite, por fim, se pôs... cedendo caminho ao sol. O sono chegou leve, pois Deus viera buscar seus anjos espalhados pelos bares, festas e casas de flores... Fechou cada pestana, junto ao sutil sorriso. Depois, na paz do mundo, adormeceu. . Na tarde seguinte, ao despertar, as asas tinham regredido. Transfiguraram-se em uma ressaca confusa e cinza. . . BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2023]

⁠MEDO DE TIGRE-ARANHA . .
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⁠MEDO DE TIGRE-ARANHA . . Tinha um medo crônico de tigres. Podia ser até mesmo dos que estão nos filmes enjaulados dentro de uma intransponível tela de Cinema e incapazes de saltar para a nossa dimensão. . Se vislumbrava um cartaz de propaganda estampado com uma só destas feras, ali mesmo deixava litros de medo escorrerem por entre as pernas. . O medo de tigres fora o companheiro de toda a sua vida. Desde a mais tenra infância chorava ao ver desenhos de tigrinhos nos pijamas e invólucros de refrigerantes. . Isso tudo, apesar de não haver tigres em seu continente, e de sua pequena cidade jamais ter sido visitada nem mesmo por um velho tigre desdentado, protegido pela jaula de um circo. . Tigres... Esse pânico o acompanhou sempre a cada dia, a cada instante de sua vida. Foi a psicólogos caros, mas sem resultados. Lá estavam, no fundo, sempre os mesmos tigres... Espreitando, ferozes e listrados, no covil do inconsciente. . . [BARROS, José D’Assunção. Publicado na revista Simbiótica, 2023]