Frase de Felipe Rodrigues
Uma criança perdida na aduana Na fila fria da aduana vazia, um carimbo ecoa, corta a nostalgia, luz fluorescente, cheiro de papel, e um mundo adulto que nunca foi céu. Pequenos passos num piso riscado, um nome trocado, um visto negado, o guichê não olha, só pede razão, mas a infância não cabe em formulário e mão. Há bandeiras cansadas no vidro embaçado, México distante num sonho quebrado, Uruguai sussurra num vento lateral, Colômbia sangra num mapa postal. E a criança pergunta sem ter voz alta, por que a fronteira sempre falta e assalta? Se o mundo é um só, por que dividir? Se o peito é caminho, por que impedir? Um rádio distante fala em espanhol, mistura de ordem, de medo e farol, e o agente carimba sem nem perceber que ali tem um universo tentando crescer. Tem cheiro de estrada, de ônibus antigo, de alguém que perdeu o próprio abrigo, de um Renault velho cruzando a serra, levando saudade que nunca se encerra. E a criança espera — não sabe o quê, talvez um abraço que o mundo esqueceu de ter, talvez um sinal, uma mão no ar, dizendo “pode ir, você pode passar”. Mas a aduana é feita de tempo e parede, de quem não entende a sede da rede, e a infância ali vira só suspensão, entre o “fica” e o “vai” sem tradução. No fim, só restam selos no olhar, e um mapa que aprende a não voltar, mas mesmo perdida, insiste em sonhar: que toda fronteira um dia vai respirar.
No pensador.ai desde