Frase de Felipe Rodrigues
Niño Muerto — Criança Morta Matei um menino esses dias. Ele ainda morava em mim. Dormia no fundo dos planos, nas promessas, nos enganos, nos romances inventados e nos sonhos exagerados que eu chamava de futuro pra não encarar o escuro de aceitar que certas coisas já nasceram sem durar. O menino acreditava. Esse foi seu maior pecado. Achava que olhar bonito era destino traçado. Que silêncio era mistério, não desinteresse calado. Transformava migalha em festa, fantasia em manifesto, e qualquer toque pequeno virava algo colossal. Criava palácio em fumaça, fazia altar de ameaça, e chamava de “conexão” o que era solidão com maquiagem emocional. Foi longe sustentando. Nossa… como foi longe. Carregou ausência no peito como quem carrega medalha. Defendeu gente vazia em discussão, em batalha. Mentiu pra si tantas vezes que a mentira virou casa. E toda ilusão alimentada crescia igual incêndio em brasa. Porque a idealização é bonita no começo: ela te veste de rei mesmo afundado no avesso. Te dá gosto de epopeia, transforma carência em ceia, faz o abismo parecer só mais um caminho estreito. Até que a realidade chega. E ela chega sem poesia. Sem música. Sem fotografia bonita. Chega igual água fria invadindo quarto vazio. Mostrando que o “pra sempre” às vezes dura um desvio. Que o amor que você jurava era só necessidade. Que metade da esperança era medo da verdade. Então o menino morreu. Não com sangue. Nem com grito. Morreu quieto. Sentado na beira da cama olhando tudo aquilo que ele chamou de destino virar só mais uma lembrança mal enterrada no caminho. E o homem que ficou aprendeu uma coisa amarga: Quanto mais distante o sonho, mais pesada fica a carga. Porque toda fantasia que a razão não desafia uma hora cobra juros com violência e ironia. Hoje eu caminho mais seco. Menos céu. Menos excesso. Porque crescer, às vezes, não é ganhar maturidade. É só descobrir que a realidade sempre encontra a idealização escondida… e termina o serviço que a vida começou na ida.
No pensador.ai desde