Frase de Marcelo Evangelista
ABSOLVENDO NARCISO Joguei fora o meu espelho Afundei-o nas águas Pra mim e pra tudo Passei a não me ver por fora Para aceitar-me por dentro Cabelos desgrenhados Roupas maltrapilhas Dentes Unhas Imagem Abandonadas Fiz da repulsa meu escudo Pouco ria Mal falava Nada questionava Só a mim O que eu estava fazendo Ali e comigo Mutilava-me Envenenava meu corpo literalmente Mesmo desprezando o espelho Ainda via meu reflexo No fundo das águas Nos outros olhos Eu não agradava Não me agradava Não me enquadrava Sentia-me sujo Coberto por uma pele Em putrefação constante Por dentro e por fora Cada vez que ousava pensar Em mim Nos meus verdadeiros Sonhos e desejos proibidos Ainda que meus Uma eterna sensação De renascer sempre Para a morte Mas eu insistia em respirar Mesmo me tapando Eu E os outros Agora me tornara um bicho Fiz de mim um monstro Um coitado Um bosta Feio Estava de mãos dadas com a solidão Fiz com que o espelho envergonha-se De me refletir O meu espelho Perdido Quis meu reflexo de volta Como fosse De qualquer jeito Maneira Senti que precisava ver Pra me ver Senti que as flechadas Doíam mais pelas costas Precisava receber de frente De peito aberto Na cara Assim poderia Eu Desviá-las Quebrá-las Ou devolve-las E sem que ninguém percebesse Resgatei meu espelho Do lixo Do fundo de minhas águas Com muito medo E força E mesmo sem saber nadar Tomei-o de volta Meu.
No pensador.ai desde