Frase de Mel de Carvalho
Da planície das coisas por escrever... Da planície das coisas por escrever nasceu um lírio sem trono sem tecto sem espelhado afeto. Nasceu parido do ventre dos lamentos e gemidos, dos ruídos derrotados e vencidos das cigarras. Nasceu cuspido na cara desmaiada das palavras cruas. Maltratadas. Da serra elevada aqui ao lado rebolam-se nervos cardados de memórias num rosto moreno, a navegar-se em moradas de charcos. Barcos áureos sem rumo, sem velas, velejam-se ao som da voz cantada. Da voz que, cansada de si, pranta, em longínqua estrada. Perco-me entre o plano e o composto. Rebusco a chama distante do teu corpo, a lava adormecida na noite do enigma. Busco um momento na seiva cálida do teu gosto na saliva lenta da renuncia a escorrer-se aberta na esteira pálida da palavra. Num adeus distante de gestos gastos e repetidos, no tédio déspota dos sentidos. Na planície acerada dos trigais, não te encontro nem sequer me encontro mais. Mergulho no charco pardacento, o verbo, a palavra, o sentimento. Na boca bafiosa sinto gelo, moribunda rosa. No estômago o soco, o invólucro transparente do nada. Sopra da serra um mundo agreste, que me veste do fim e me despe do começo de mim. Da planície das coisas por escrever, das coisas por viver, nasceu um lírio nado-morto a pontear de roxo um espaço devoluto de oco. Ao longe, na boca do mar, nasce agora o Sol-posto.
No pensador.ai desde