Frase de Angelo Hope
“Monólogo do Inescolhido” Há um cansaço que não se explica. Não é físico, nem moral, é um cansaço que nasce no meio do peito. Um peso que o tempo não alivia. Eu o carrego como quem carrega um corpo morto dentro de si e finjo que ainda é um coração. Estou cansado. Cansado de existir para os outros apenas nas horas em que falta alguém. Cansado de ser o consolo fácil, o “você é incrível” dito com pena, o número esquecido em agendas que só tocam em dias de vazio. Cansado de ser o quase. De estar sempre à beira de ser amado, mas nunca atravessar a fronteira do afeto. De oferecer abrigo a quem só veio se esconder da chuva e depois me deixar encharcado na porta da própria casa. Eu sei o nome da solidão. Ela me chama todas as noites, me fala baixinho e lembra que ninguém vem. E eu obedeço, acendo a luz fraca, arrumo a cama e deixo espaço ao lado. Ela deita comigo, fria e paciente, logo sussurra: “é só você e eu, outra vez.” E eu rio... Um riso rouco, cansado, meio incrédulo, porque sei que ela tem razão. O mundo gira em volta de amores, de laços, de mãos dadas… E eu sigo solto, orbitando fora de todos os abraços. Há dias em que penso que não fui feito para o amor. Talvez tenha sido moldado para ser abrigo de ausências, refúgio de despedidas. Talvez exista só para que outros entendam o que é não ficar. Mas o que mais me destrói é essa esperança que não morre. Essa centelha absurda que insiste em acreditar que um dia alguém vai me olhar e ficar. Um olhar que não desvie, uma presença que não se dissolva. Até lá, sigo cansado. Tragicamente, vivo esperando o impossível com a teimosia dos que já perderam tudo, mas ainda pedem mais uma chance.
No pensador.ai desde