Frase de Angelo Hope
“Monólogo do Inescolhido - Ato III” Cheguei ao ponto em que não peço mais. Não há súplica, não há oração, não há sequer o gesto de estender a mão. Eu entendi, ninguém vem. E essa ausência não é acidente, é destino. Há algo de terrivelmente claro nisso, o amor é um banquete e eu nunca tive assento à mesa. Passei a vida à porta, ouvindo risos, sentindo o cheiro do pão quente, mas sem jamais ser chamado a entrar. No começo, eu batia. Depois, esperei. Agora, apenas caminho em círculos, acostumado ao frio que sempre coube a mim. E não é que a solidão seja inimiga, não mais. Ela se fez carne da minha carne, me moldou os ossos, me ensinou a calar. Eu sou feito dela e ela de mim. Não nos suportamos, mas não nos largamos. O amor? Talvez exista, mas não para todos. Talvez seja como a luz do sol, que aquece o mundo, mas deixa algumas frestas eternamente na sombra. Eu sou uma dessas frestas. E não há tragédia nisso, apenas constatação. Estou cansado, sim. Mas já não é o cansaço da espera. É o cansaço de quem aprendeu a andar descalço sobre pedras e já não sente dor nos pés. A dor virou hábito, a falta virou pele. Se algum dia alguém me escolher, não saberei mais o que fazer. Meu corpo, acostumado ao vazio, talvez não reconheça o toque. Talvez até recuse. E assim termino... Não como quem implora, mas como quem aceita sua condição. Não sou escolhido. Nunca fui, nunca serei. E isso, por mais cruel que seja, é também a minha forma de existir.
No pensador.ai desde