Pular para o conteúdo

Frase de Evan do carmo

A Canção em Valparaíso Eu tinha vinte e seis anos e usava um anel que não significava nada. Nem amor. Nem compromisso. Apenas hábito. Tocava piano em um bar pequeno, escondido nas encostas de Valparaíso — um lugar onde os telhados se inclinavam em direção ao mar e as noites carregavam cheiro de sal, vinho barato e vidas inacabadas. O piano era meu altar. A noite, minha cúmplice. Já havia estado ali antes, visitando um amigo — músico, livre de um jeito que eu não era. Ele morava com o irmão numa casa que sempre cheirava a pão quente e conversas silenciosas. Foi ali que a vi. Helena. Cabelos escuros. Olhos que não olhavam — atravessavam. Tinha dezoito anos, mas nada nela era inacabado. Havia um fogo contido em seus gestos, como se soubesse exatamente o que podia causar — e escolhesse quando. Já tínhamos nos cruzado antes. Um almoço. Um olhar sustentado um segundo a mais. Nada além disso. Mas naquela noite, dividíamos o mesmo espaço. O mesmo silêncio. Então toquei. Uma canção que raramente me permitia — uma das poucas que eu podia executar sem me esconder. Não toquei para o ambiente. Toquei porque algo em mim precisava ser ouvido. As pessoas falavam. Copos se moviam. A noite seguia. Ela não. Deu um passo à frente. Não o suficiente para chamar atenção. Apenas o bastante para escutar. Quando a música terminou, não houve aplausos. Apenas um sorriso pequeno — inteiro, definitivo. E aquilo bastou. A casa foi se esvaziando devagar, como todas as noites fazem. Corpos desapareceram em colchões e cobertores improvisados. As conversas se dissolveram em respiração. As luzes se apagaram sem cerimônia. Ficamos. Uma televisão acesa ao fundo mostrava algo que nenhum de nós via. No começo, nada. Um ombro tocando o outro. Uma pausa longa demais. Então ela virou o rosto. Sem perguntar. Sem hesitar. Permitindo. O beijo veio sem negociação. Não havia inocência ali — mas também não havia culpa. Apenas reconhecimento. Não fomos para um quarto. Não houve necessidade de distância, preparo ou significado. Ficamos ali mesmo — entre almofadas, entre horas — dentro desse território frágil onde o desejo se torna imediato e a linguagem deixa de ser necessária. Foi intenso. Não por ser selvagem. Mas por ser certo. Há noites que acontecem. E há noites que decidem algo. Essa decidiu. De manhã, não havia nada a dizer. Nenhuma promessa. Nenhuma pergunta. Nenhuma ilusão de continuidade. Ela se vestiu em silêncio. Eu não pedi que ficasse. Ela não fingiu que ficaria. E talvez essa tenha sido a única verdade que fomos capazes de oferecer um ao outro. Para ela, pode ter sido curiosidade. Um instante. Um desvio. Para mim, foi outra coisa. Não amor. Nem memória. Reconhecimento. O momento em que entendi que aquilo que eu carregava — nas mãos, na voz — podia alcançar alguém além da superfície. Que, por um breve instante, eu não estava apenas tocando. Eu estava sendo sentido. Às vezes, quando toco aquela mesma canção — com o mesmo cuidado, a mesma precisão silenciosa — não lembro do rosto dela. Nem do corpo. Nem da voz. Lembro de outra coisa. Do exato instante em que me tornei inesquecível na vida de alguém que nunca ficou.

Evan do carmo

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Evan do carmo

Sobre a Vaidade da Sabedoria A sabedoria não leva a nada. Como morre o tolo, morre o sábio.
Continuar lendo

Sobre a Vaidade da Sabedoria A sabedoria não leva a nada. Como morre o tolo, morre o sábio. Tudo o que o sábio sabe é, em última instância, para alimentar a própria vaidade — para poder se orgulhar do que supõe ter entendido. É verdade que, às vezes, a sabedoria o livra de certos abismos onde o tolo cai sem perceber. Evita-lhe perigos, enganos, precipícios. E o tolo, ignorante de tais ciladas, paga caro — muitas vezes com a própria vida, morrendo antes da hora, ceifado pela própria inconsequência. Contudo, nem isso é razão suficiente para que o sábio receba honras imerecidas por seu árduo trabalho em busca do saber. Pois todo conhecimento, por mais vasto, se perde no tempo e no espaço, como areia que escapa por entre os dedos do homem que acreditava segurá-la.

“Você pode escrever bem, acima da média, usando apenas a sua mente, sem buscar recursos tecnológicos. Estude e leia muitos livros, sobretudo os clássicos da sua língua. Depois de 40 anos de exercícios — como eu fiz —, quem sabe assim você se convença de que é um escritor. Além de…
Continuar lendo

“Você pode escrever bem, acima da média, usando apenas a sua mente, sem buscar recursos tecnológicos. Estude e leia muitos livros, sobretudo os clássicos da sua língua. Depois de 40 anos de exercícios — como eu fiz —, quem sabe assim você se convença de que é um escritor. Além de tudo isso, escreva 40 livros, como modo de treinar o que estudou, exercitar o aprendido e corrigir o próprio caminho.”

Diante da angústia e da constatação de que tudo acaba no niilismo — nome dado ao empenho de alcançar o vento —, o homem se depara com a finitude inevitável e não encontra sentido na busca por poder, dinheiro ou fama. Tudo o que se faz debaixo do sol é vaidade, competição para ven…
Continuar lendo

Diante da angústia e da constatação de que tudo acaba no niilismo — nome dado ao empenho de alcançar o vento —, o homem se depara com a finitude inevitável e não encontra sentido na busca por poder, dinheiro ou fama. Tudo o que se faz debaixo do sol é vaidade, competição para vencer o outro. No entanto, é apenas no outro, no convívio e na partilha com o semelhante, que se pode encontrar alguma razão ou sentido, aquilo que às vezes chamamos de felicidade. Evan do Carmo