Frase de Rosana Fleury
Inundação Naquela noite todos os planetas densos estavam alinhados. Dia de muita oração pela natureza. O clima estava revolto e quando seu temperamento espalhava carregava tudo em seu caminho. A refeição foi minguada pelo medo e no calor do fogão despejou uma acalorada discussão. Todos escolheram vestimentas de bicho para embarcar na Arca do Patriarca Noé. Uns vieram voando nas asas, águias, corujas e beija-flores. Dos mares desafogados das ondas, os polvos, as pérolas, as dançarinas águas-vivas, de peixes coloridos, golfinhos, baleias e, das profundezas abissais, os moluscos. Sem brigas, os impertinentes os insetos vieram de carona. Os mais domésticos e disciplinados apareceram nos gatos, cachorros e nos elegantes cavalos. Selvagens, indomados e desconfiados os macacos, as onças e os lobos embarcaram sorrateiramente. Se ficar alguém, Deus perdoa ou opera aparição nos milagres. Quarentena. Dias e noites. Tormenta nos mares. E chuva cessou. A nau encalhou no destino certo. Todos desembarcaram aflitos e desapareceram onde a terra flutuava. E alguém reclamou. – Não desembarquei, me deixaram! – Em que bicho se vestiu? – De bicho feio. – Qual? – Urubu – Mas por quê? – Ninguém caça ou persegue o urubu, voa solto e livre pelos céus. E ainda faz a limpeza da carniça que deixaram pelo caminho, do que foi imaginado. O mundo não vai acabar hoje. Vamos jantar em paz. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury
No pensador.ai desde