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Frase de BARROS, José D'Assunção.

⁠O ANALFABETO POÉTICO . . Em meio à fauna amorfa dos que não sentem, ali está ele – com seu ódio tão peculiar. A Fome dos outros não o comove; a Injustiça não lhe diz respeito... A Guerra? Não lhe tira sono. Mas a Poesia, isto sim... Como o incomoda! . O Analfabeto Poético diz que só quer viver a vida, mas não percebe que a vida viva depende crucialmente da poesia. . Vaidoso, ele estufa o seu peito esnobe, orgulhoso de sua pretensiosa racionalidade; sem impedir que se inflame a barriga infame, deixa à vista o seu vasto vazio de sentimentos. . Lá vai ele, vestindo o rosto com seu riso bobo, suspenso por um fio fino, e tão previsível. Sempre pela mesma estrada! . Zomba dos que sentem, despreza os que fazem versos, e nunca amou as mulheres (no máximo, intrometeu-se entre elas). . O Analfabeto Poético admite a Política, mas não a Poética; Não sabe que a verdadeira Política nutre-se intimamente da Poesia. . Ele pretende mudar o mundo com pequenas operações cirúrgicas, a golpe das mais descuidadas marteladas, ou com a triste frieza das canetas tecnocráticas; mas não tem a sensibilidade poética para perceber o que precisa ser mudado. . O Analfabeto Poético, bem armado e mal amado, reconhece a Ciência, mas não a Poesia. Não compreende que não há ciência sem que esta tenha em si poesia. (Em sua matemática rústica, ele confunde ciência com tecnologia). . Sabe talvez ganhar dinheiro, o Analfabeto Poético. E o reverte para ganhar ainda + mais dinheiro +. O que tem tudo isso a ver com a Poesia? Ele pergunta, sem desejar resposta... . Pede o prato mais caro, sem capacidade de saborear. Compra um sistema de som de alta fidelidade sem ter nenhum gosto para a Música. . Ouviu falar das mulheres belas e por isso deseja comprá-las para exibi-las a outros como ele. Quando sucede aparentemente tê-las, não consegue extrair delas um simples sorriso realmente verdadeiro. . Ele não percebe que, para que a luz do sol adentre a inexistente janela da sala de pregões da Bolsa de Valores, é preciso ter capacidade poética para perceber a luz, para além da luz. . O Analfabeto Poético declara-se um homem prático... Por sua vontade, seriam abolidos os livros que não fossem tratados ou manuais. . Por ele não haveria música, não fluiria o pranto, não transbordaria o riso... que não fosse mero deboche. . Munido de algumas frases, para dizer nas horas mais erradas, lá se vai ele para a sua ruidosa festa. Nela, o Analfabeto Poético dissolve-se em meio a todas as banalidades. . . (1990. Dedicado à genial obra poética, dramatúrgica ensaística e política de Bertolt Brecht). . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Cronos, vol22, nº1, 2021]

BARROS, José D'Assunção.

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Pensador.com

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Outras frases de BARROS, José D'Assunção.

⁠O INVENTOR DE IDIOMAS ,
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⁠O INVENTOR DE IDIOMAS , , Ainda adolescente, inventou duas ou três palavras que não se achavam em quaisquer idiomas. Não faziam sentido em inglês, bielorrusso, javanês! A bem dizer de todos os dizeres, não faziam sequer sentido mesmo neste código mais do que secreto: o português. . Depois percebeu que as duas ou três palavras, que àquela altura já eram quatro ou cinco, não eram irmãs, nem distantes primas. Estranhavam-se, umas às outras, como se não fossem feitas da mesma alma-carne. . Por causa disso – da solidão de suas palavras – demoradamente dedicou a sua vida a inventar os idiomas que pudessem acolhê-las. Fundou ainda uma escola de tradutores, para traí-las umas nas outras. . Mais cedo do que mais tarde, alguns ociosos fundaram cátedras especializadas em ensiná-las e estudá-las muito solenemente, com leveza ou gravidade. Assim, ele ganhou o seu primeiro – e único – Nobel, em uma nova categoria que não era a Literatura, recém-inventada, especialmente para ele. . Quando por fim morresse – do que dois ou três seguidores duvidavam – alguém haveria de escrever na lápide, à maneira de epitáfio: “gênio da humanidade”, “inventor de palavras”. Mas um outro, ao perceber a injustiça, certamente iria logo corrigir, depois de um risco no falso dito: “Inventor de Idiomas”. . E o mundo ficaria em paz... – tal qual sagrado cálice – como nunca esteve depois do Verbo. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Decifrar, 2022]

⁠NO CÔNCAVO DA MÃO MORTA . .
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⁠NO CÔNCAVO DA MÃO MORTA . . No côncavo da mão morta havia uma chave... não sei para que castelos. . Para qual porta, oh Deus Entranhas, tal chave – tão triste chave – em certo dia foi forjada? . Havia aquela chave não como uma pedra no meio do bom caminho, mas no côncavo da mão morta. . E essa mão, tão inerte e já bem morta, cujo corpo era seu mero apêndice, ao mesmo tempo oferecia e segurava a chave. . O gesto, embora pálido, tinha a cor dos desesperos! Parecia dizer, nos entrededos: . Pega esta chave, se tu és digno dela, e cuida do seu metal como se fosse cristal precioso, de tão frágil. . Antes de tudo o mais, colhe-a como uma fruta já por mais do que madura. A ela recebe – tão suculenta – entre teus próprios cinco dedos. . A chave, no côncavo da mão morta, parecia a mim implorar-assim: “Leva-me... a meu destino, que para isso nasci”. . E a mão côncava acrescentava: “Leva-a, que somente por isso insisto em me entreabrir” . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2021]

⁠O ANJO . .
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⁠O ANJO . . Enquanto bebia seus drinques, um antes do outro, começaram a lhe crescer asas cada vez maiores: bem desenhadas, cheirosas... brancas e polidas. O sorriso verteu-se puro, sincero, acolhedor. Falava agora a deliciosa língua dos anjos com suas palavras estranhas e belas a soar qual música nos ouvintes e a reluzir como imagens no pleno espaço. Puro êxtase profano e sacro de quem via. . As cores do paraíso a ele se abriram, como se misturadas em um crisol. A inteligência, não mais em greve, discorria sobre todos os arranjos: cinema, viagens, lares e lugares... filosofia, arte, sabores e amores. Com a luz que de si emana... contava piadas de cair o siso! Iluminava, fundo e profundo, as jovens rosas no gineceu... . Até que a noite, por fim, se pôs... cedendo caminho ao sol. O sono chegou leve, pois Deus viera buscar seus anjos espalhados pelos bares, festas e casas de flores... Fechou cada pestana, junto ao sutil sorriso. Depois, na paz do mundo, adormeceu. . Na tarde seguinte, ao despertar, as asas tinham regredido. Transfiguraram-se em uma ressaca confusa e cinza. . . BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2023]

⁠MEDO DE TIGRE-ARANHA . .
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⁠MEDO DE TIGRE-ARANHA . . Tinha um medo crônico de tigres. Podia ser até mesmo dos que estão nos filmes enjaulados dentro de uma intransponível tela de Cinema e incapazes de saltar para a nossa dimensão. . Se vislumbrava um cartaz de propaganda estampado com uma só destas feras, ali mesmo deixava litros de medo escorrerem por entre as pernas. . O medo de tigres fora o companheiro de toda a sua vida. Desde a mais tenra infância chorava ao ver desenhos de tigrinhos nos pijamas e invólucros de refrigerantes. . Isso tudo, apesar de não haver tigres em seu continente, e de sua pequena cidade jamais ter sido visitada nem mesmo por um velho tigre desdentado, protegido pela jaula de um circo. . Tigres... Esse pânico o acompanhou sempre a cada dia, a cada instante de sua vida. Foi a psicólogos caros, mas sem resultados. Lá estavam, no fundo, sempre os mesmos tigres... Espreitando, ferozes e listrados, no covil do inconsciente. . . [BARROS, José D’Assunção. Publicado na revista Simbiótica, 2023]