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Frase de BARROS, José D'Assunção.

⁠TODAS AS FORMAS DA ESCRAVIDÃO . . Desde que somos país, já estava aqui este povo, contraparte de sua carne, de sua alma e seus valores. O último deles aqui chegou – proibido, em contrabando. As correntes – do mar e ferro – trouxeram-no quase ao fim da forma antiga da escravidão. . Talvez fosse mulher, talvez homem... Vou supor seu retrato: porém, jamais revelado; vou pensar o seu corpo: ferido-acorrentado. Para nome, darei Maria, para não dizer que é João. . Vocês queriam canções: doce-brancas como açúcar... Mas, do oceano que lambe as praias, eu só quero falar destas gentes: dos males que lhes fizeram, do pouco que lhes demos, do tanto que lhes devemos (vou me ater, no entanto, a Maria – aos seus filhos e pentanetos Vou lhes seguir cada passo, geração a geração). . Deste povo, “Todas e Todos”, todos nós temos um pouco. Levante a primeira gota quem souber ou achar que não, e depois disso se cale, ou se vá para a Grande Casa, se não se sentir como irmão. . Primeiro nasceu Pedro, já depois da Abolição. Filho enfim liberto de Maria, quase ficou famoso por ser primo do já célebre Operário em Construção. Mas não encontrou trabalho, e, por isso, roubou um pão. . Foi linchado em via pública por gente de bom coração, e isso na mesma época, em que num país mais ao norte – entoando canções patriotas – matava-se à contramão. . Pedro, coitado, nascera na Era dos Linchamentos. Já longe, entregue ao rio dos tempos, ia-se a Era Primeira – a da velha Escravidão. Ao norte, matava-se à farta – aqui, por um pouco de pão. . Mas então nasceu Jorge – de uma nova geração. Chamaram-lhe para uma guerra, para defender o país dos tais fascistas que nos queriam impor outra escravidão. Como neto tão direto de Maria, não lhe deram qualquer patente, mas lhe atribuíram missão: deveria buscar minas (quando fosse a folga de ser bucha de canhão). . Em um passo em falso, pisou na morte! Não teve sequer a sorte – o bravo soldado forte – de merecer uma Missa Breve, ou de ganhar um monumento (“É um pracinha desconhecido, de fato, mas não é da cor que queremos; o mármore que temos é branco, passemos a honra ao próximo: eis aqui a solução”). . Iam-se os tempos da Escravidão, fora-se a Era dos Linchamentos, acabara (de acabar) a Idade da Desrazão. Abria-se novo momento: A Era-Segregação! . Datam de então as Favelas tão próprias para todos; mas especialmente talhadas para os bisnetos de Maria. E ali, no calor de um dia, nascia o nosso João: finalmente um João! . Pouco sabemos dele por falta de documentos. Dizem que morreu das meninges no mais duro chumbo dos anos tristes, na época em que a doença – proibida nos jornais – aceitava a segregação. . Só sabemos que foi pai do Trineto herdeiro de Maria. Este, por falta de qualquer emprego, e por vergonha de pedir esmola, tornou-se um bom ladrão. . Roubava dos ricos para dar a pobres, ainda que nem precisasse tanto: seu destino já fora traçado, indiferente à profissão, nesta Era da Prisão. . Também ele deixou filho – o brilhante e sábio Tetraneto de Maria –. A vida deste bateu na trave: quase recebeu a cota! Mas então soube que já chegava a Era da Assombração. . [BARROS, José D'Assunção. publicado na revista Ensaios, 2024].

BARROS, José D'Assunção.

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Pensador.com

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⁠O INVENTOR DE IDIOMAS ,
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⁠O INVENTOR DE IDIOMAS , , Ainda adolescente, inventou duas ou três palavras que não se achavam em quaisquer idiomas. Não faziam sentido em inglês, bielorrusso, javanês! A bem dizer de todos os dizeres, não faziam sequer sentido mesmo neste código mais do que secreto: o português. . Depois percebeu que as duas ou três palavras, que àquela altura já eram quatro ou cinco, não eram irmãs, nem distantes primas. Estranhavam-se, umas às outras, como se não fossem feitas da mesma alma-carne. . Por causa disso – da solidão de suas palavras – demoradamente dedicou a sua vida a inventar os idiomas que pudessem acolhê-las. Fundou ainda uma escola de tradutores, para traí-las umas nas outras. . Mais cedo do que mais tarde, alguns ociosos fundaram cátedras especializadas em ensiná-las e estudá-las muito solenemente, com leveza ou gravidade. Assim, ele ganhou o seu primeiro – e único – Nobel, em uma nova categoria que não era a Literatura, recém-inventada, especialmente para ele. . Quando por fim morresse – do que dois ou três seguidores duvidavam – alguém haveria de escrever na lápide, à maneira de epitáfio: “gênio da humanidade”, “inventor de palavras”. Mas um outro, ao perceber a injustiça, certamente iria logo corrigir, depois de um risco no falso dito: “Inventor de Idiomas”. . E o mundo ficaria em paz... – tal qual sagrado cálice – como nunca esteve depois do Verbo. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Decifrar, 2022]

⁠NO CÔNCAVO DA MÃO MORTA . .
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⁠NO CÔNCAVO DA MÃO MORTA . . No côncavo da mão morta havia uma chave... não sei para que castelos. . Para qual porta, oh Deus Entranhas, tal chave – tão triste chave – em certo dia foi forjada? . Havia aquela chave não como uma pedra no meio do bom caminho, mas no côncavo da mão morta. . E essa mão, tão inerte e já bem morta, cujo corpo era seu mero apêndice, ao mesmo tempo oferecia e segurava a chave. . O gesto, embora pálido, tinha a cor dos desesperos! Parecia dizer, nos entrededos: . Pega esta chave, se tu és digno dela, e cuida do seu metal como se fosse cristal precioso, de tão frágil. . Antes de tudo o mais, colhe-a como uma fruta já por mais do que madura. A ela recebe – tão suculenta – entre teus próprios cinco dedos. . A chave, no côncavo da mão morta, parecia a mim implorar-assim: “Leva-me... a meu destino, que para isso nasci”. . E a mão côncava acrescentava: “Leva-a, que somente por isso insisto em me entreabrir” . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2021]

⁠O ANJO . .
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⁠O ANJO . . Enquanto bebia seus drinques, um antes do outro, começaram a lhe crescer asas cada vez maiores: bem desenhadas, cheirosas... brancas e polidas. O sorriso verteu-se puro, sincero, acolhedor. Falava agora a deliciosa língua dos anjos com suas palavras estranhas e belas a soar qual música nos ouvintes e a reluzir como imagens no pleno espaço. Puro êxtase profano e sacro de quem via. . As cores do paraíso a ele se abriram, como se misturadas em um crisol. A inteligência, não mais em greve, discorria sobre todos os arranjos: cinema, viagens, lares e lugares... filosofia, arte, sabores e amores. Com a luz que de si emana... contava piadas de cair o siso! Iluminava, fundo e profundo, as jovens rosas no gineceu... . Até que a noite, por fim, se pôs... cedendo caminho ao sol. O sono chegou leve, pois Deus viera buscar seus anjos espalhados pelos bares, festas e casas de flores... Fechou cada pestana, junto ao sutil sorriso. Depois, na paz do mundo, adormeceu. . Na tarde seguinte, ao despertar, as asas tinham regredido. Transfiguraram-se em uma ressaca confusa e cinza. . . BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Ipotesi, 2023]

⁠MEDO DE TIGRE-ARANHA . .
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⁠MEDO DE TIGRE-ARANHA . . Tinha um medo crônico de tigres. Podia ser até mesmo dos que estão nos filmes enjaulados dentro de uma intransponível tela de Cinema e incapazes de saltar para a nossa dimensão. . Se vislumbrava um cartaz de propaganda estampado com uma só destas feras, ali mesmo deixava litros de medo escorrerem por entre as pernas. . O medo de tigres fora o companheiro de toda a sua vida. Desde a mais tenra infância chorava ao ver desenhos de tigrinhos nos pijamas e invólucros de refrigerantes. . Isso tudo, apesar de não haver tigres em seu continente, e de sua pequena cidade jamais ter sido visitada nem mesmo por um velho tigre desdentado, protegido pela jaula de um circo. . Tigres... Esse pânico o acompanhou sempre a cada dia, a cada instante de sua vida. Foi a psicólogos caros, mas sem resultados. Lá estavam, no fundo, sempre os mesmos tigres... Espreitando, ferozes e listrados, no covil do inconsciente. . . [BARROS, José D’Assunção. Publicado na revista Simbiótica, 2023]