Frase de BARROS, José D'Assunção.
TRISTEZA MARAVILHOSA . . Rio de Janeiro, sob teu corpo de concreto teu santo padroeiro dorme, como um feto. . Ainda não nasceu, teu santo, ainda é cedo para o milagre; e a lágrima doce do teu pranto não é vinho, é só vinagre. . Baía de Guanabara, como mente o teu postal. Vejo fome em pau-de-arara sob a camada social. . Queria entender teu segredo, tua miséria, tua mentira; mas o que vejo é o degredo que escapa da tua mira. . Seres humanos migratórios compelidos à mudança cujos mortos compulsórios são produtos da esperança. . Rio, Deus te abençoe, e do alto do Corcovado em pedra o Cristo nos perdoe por teu índio dizimado. . Cidade Maravilhosa, herança dos guaranis... na tua culpa misteriosa guarda a lembrança dos brasis. . Rio, cidade poesia, olha teu negro na construção; não lhe conceda alforria: tu és a própria escravidão. . Rio, alguém que tardia espreita em teu carnaval; sobre a tua fantasia jaz a beleza de um postal. . Rio de Janeiro, teu caminho não é reto; ao sul do teu cruzeiro, um voto vira um veto. . Ainda não nasceu teu quebranto, ainda é cedo para o céu; e a cachaça do pai de santo, não é néctar, é só mel. . . [BARROS, José D'Assunção. Publicado na revista Insurgência, 2023]
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