Frase de Rosana Fleury
Deserto Nos morros esculpidos pelos ventos, nas mais altas fendas do Jalapão, a Princesa existia. Presa em um Castelo cheio de ecos onde esquadrinhava a sua solidão. Jamais descia. Escondia-se com receio dos bichos que uivavam, rastejavam e se metarfoseavam junto ao capim dourado. Do alto avistava as caravanas que contornavam as dunas à procura de sombra abaixo do chapadão alaranjado de arenito. Ouvia os murmúrios dos preparativos do pouso, admirava a pequenas fogueiras iluminando a jalapa em chão de estrelas rastejantes. Ao dia a savana dourada era castigada pelo vento indomável que carregava grãos de areia em constante combate. Tinha desejo de descer, pisar naquela areia alaranjada, correr naquele silencioso esmagando o capim que choraria em seus pés estalando lamentos e rugidos. No Castelo havia somente uma entrada. E seus contornos e arrabaldes transpunham em curvas e corredores sem saídas obscuros para confundir estrangeiros. Vivia ali sem nenhuma lembrança do passado somente do presente. À noite o Príncipe chegava carregado de conquistas e presentes alucinantes e ela viajava bem longe em seus verbos. Na madrugada ele roubava seus sonhos durante o sono. Retirava seus aromas, as cores, suas noites enluaradas e o frescor de seu corpo banhado na alucinação dos rios. Passou a Princesa a sofrer de nostalgia, de inquietude dolorosa, num choro calado debatendo-se com a sua imaginação. Não havia superfície em sua vida, tudo era fundo e inatingível. Lembrava-se só das fogueiras estalando no lanço do isolamento das noites. Tinha, portanto, um Castelo sem sonhos, janelas semicerradas e portas herméticas. Passou a ficar extremamente branca, enluarada na cor onde se via seu mapa angiológico, desenhado, pulsando em suas veias. Sua voz passou a ficar vigorosa, com ares de sufoco e repetir desejos. Diziam que a sua formosura estava pregada nas paredes da jalapa e respondia ao chamado dos curiosos. – Princesa, onde estás? E no eco ela respondia: – Onde estás? Quando a caravana passava, abria suas tendas, nas sombras das noites insones, sua lenda sobressaltava junto à lua cândida. E na placenta do imaginar ela nascia como alma de ilusão de quem deseja habitar na fantasia. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury
No pensador.ai desde