Frase de Danyyel Elan
Salmo do Que Sobrou Pai, fui abandonado pelos que me chamavam de lar. Fui traído pelas promessas que fiz a mim mesmo. Chamei de amor aquilo que me devorava e ainda assim ofereci o pão. Me disseram: homem que chora é fraco. homem que parte, é culpado. homem que sente, não serve. Então calei. Por anos calei. Enterrei meu grito sob pneus e porcas, numa oficina que cheirava mais a passado que a graxa. Mas nem o barulho das engrenagens conseguia abafar o ruído do que eu não dizia. Na bancada, deixei as chaves. Foi sem querer — mas nada é por acaso quando o mundo está desabando. Vi minha amada me olhar como um estranho. Vi a verdade sobre meu filho me atravessar como espada. Vi minha família me virar o rosto como se eu fosse o próprio erro. E eu? Eu só queria um pouco de verdade, um pouco de chão onde meu coração coubesse. Gritei para o céu, mas só ouvi o eco da minha fé ferida. “Pai… nas tuas mãos entrego o que sobrou de mim.” Não era mais súplica. Era rendição. De mim restou apenas isso: um suspiro com nome. Um corpo em estilhaços que ainda crê no vento. Explodi por dentro. Morri sem coroa. Mas, como o meu Mestre, fui enterrado na injustiça e renasci no invisível. Se até os anjos merecem morrer, quem sou eu para não cair? E no entanto, olha para mim — ainda aqui. Ainda verbo. Ainda caminho. Não vim para ser exemplo. Vim para ser espelho. Para que os que sofrem saibam que a dor também pode ser oração. Este é o salmo do que sobrou. Do homem que perdeu tudo, menos a centelha que o fez de novo. E se este corpo já não cabe na velha vida, que seja templo de uma fé que arde sem pedir plateia.
No pensador.ai desde