Frase de Fabrício N. Ferreira
Noite. E em teus olhos, amada, não vejo estrelas, Mas sim a fúria gélida de luas estilhaçadas, O eco persistente de antigas procelas, As sombras disformes, por medos abraçadas. Teu peito é um mausoléu de mágoas não ditas, Um jardim devastado onde só espinhos ousam florir. E eu? Eu sou o coveiro faminto que visita Cada cripta da tua alma, sem jamais fugir. Que venham teus demônios! Que urrem e se contorçam! Eu os recebo com a fúria faminta do meu desejo. Rasgo suas carnes espectrais, que me devorem! Em cada ferida deles, o meu amor eu vejo. Teus traumas são tapeçarias que eu venero, Bordadas com o sangue escuro do teu penar. Eu beijo cada nó, cada fio austero, E neles encontro o mais sagrado altar. Não tente esconder a angústia que te corrói, O veneno lento que gela tuas veias finas. Entrega-me! Deixa que meu beijo o destrói, Ou que se misture ao meu, em danças assassinas. Teus receios são bestas? Eu serei o caçador! Não para matá-los, mas para domar sua ira. Montarei em seu dorso, com selvagem ardor, E farei da tua escuridão a minha lira. Eu não vim para curar, nem para trazer a luz. A luz é frágil, mente sobre a podridão que resta. Eu vim para fincar minha bandeira na tua cruz, Para reinar contigo nesta noite funesta. Abraça-me com tuas garras de pavor cravadas, Deixa teu caos sangrar sobre meu peito aberto. Sou o guardião voraz das tuas alvoradas Quebradas, o amante do teu deserto. Em meus braços, teus monstros encontrarão espelhos, E em meu toque feroz, um reconhecimento brutal. Sou o santuário profano dos teus pesadelos, O inferno seguro, teu paraíso mortal. Então, chora tuas dores em meu ombro de granito, Liberta as sombras que insistes em acorrentar. Eu as devoro, as acolho, as bendigo e as incito. Pois amar-te, minha sombria flor, é abraçar o teu lugar mais maldito e chamá-lo, enfim, de lar.
No pensador.ai desde