Miudezas
Meu amor é um pássaro pequeno, daqueles miudinhos,
voa e pousa em qualquer lugar,
sem pressa e ambição alguma de ficar.
Um dia encontrei um amor, ele não me devolveu minha beleza.
A melodia que cantava, com o tempo,
entristeceu por ficar num mesmo canto.
Meu amor, esse pássaro pequeno, muitos desejaram deformar,
transformar,
reformar.
A miudeza era feiura. Não era beleza.
Não entenderam que feiura e beleza são aspectos da mesma arte.
Eu, porém, sou poeta dos contrários,
profeta dos caminhos tortos.
Sou um amante de miudezas.
Que a primavera me assopre seus ventos,
aromas diversos de amores,
eu irei.
Meu amor. Adeus.
Credo
Creio em Deus Pai Todo-poderoso...
– Não. Não me importa a potência divina,
aliás, creio que Deus não carece de tal afirmação.
Sigamos. Criador do céu e da terra...
– Empiricamente falando?!
E em Jesus Cristo, nosso Senhor...
– Olha, o sistema de vassalagem faliu há séculos,
esse Jesus entendo melhor como aquele menino arteiro de Alberto Caeiro.
Que foi concebido pelo Espírito Santo. Nasceu da virgem Maria...
– Será que ela... digo... hã, pra que tanta medicalização da sexualidade?
Padeceu sob Pôncio Pilatos.
Foi crucificado, morto. Sepultado.
Desceu à mansão dos mortos. Ressuscitou no terceiro dia.
Subiu aos céus. E está sentado à direita de Deus Pai...
– Arreparando bem, são jogos de linguagem bem articulados, não é verdade?!
Donde há de vir para julgar vivos e mortos...
– Cansei-me de julgamentos, cumpadre. Do inferno e do céu também.
Acho que cada um deveria cuidar da sua vida ao invés de vestir uma toga no Deus e lhe conferir as desgracenças eternas do julgamento.
Creio no Espírito Santo. Na santa Igreja católica...
– Hã? Nada não. Pensei alto...
Na comunhão dos...
Antes que todos concluíssem com o “amém”, encontrava-se ele fora do templo, sentado no sexto degrau que leva ao coreto, rezando a poesia de Caeiro.
Refração
...E quando, por ventura,
eu não me reconhecer
no mesmo espelho em que me vejo,
surpreenda-me;
olhos vedados por suas mãos.
Irei tatear a sonoridade de sua voz
até encontrar os contornos de seu rosto.
O sorriso seu, escancarado,
que me desperta uma quietude indefinida,
despertará segundos de paixão,
uma imagem refletida em meus sonhos sem nenhum pudor.
Ainda que imagem refratada na distorção do meu querer.
O corpo nu
Ofendem-se com a corporeidade.
A carne, temerária, é algo a ser evitado.
O nu não me reflete o sofrimento humano,
a transparência do meu coração.
O nu, dizem, denota a exacerbação do desejo.
E desejar é perigoso,
faz do corpo ocupações de afeto:
alguém que abraça
e que beija.
A religião se esqueceu do corpo,
preocupada que estava com a saúde d’alma.
Protegida em suas indumentárias.
Olvidam-se que a primeira circunstância para amar
o corpo materializa.
Mas num mundo de corporeidades alienadas
o nu é subversão.
Cubra-te, pois, ó Cristo, a carne crua.
Olhadelas
Aprecio quem me olhe nos olhos,
sem hostilidade, sem censura.
E se os olhos se comunicam com os meus,
ai, meu bem, liquefaço,
faço gosto de ver.
Meu Emaús
Quando criança amava um Deus metafísico
como um filho ama ao pai.
Cresci. Amei o Cristo.
Mas lhe amei como um súdito a seu rei.
Agora, no desabrochar de minha juventude,
na minha vadiagem piedosa
e na minha viadagem altruísta,
amei a Deus como homem,
amo o Cristo como quem ama
um homem.
Sagração
Era uma tarde chuvosa de fevereiro,
a janela aberta revelava um céu alvacento
enquanto escutava melodias suaves de piano e flauta.
Uma poetisa apareceu-me de repente. Uma senhora nascida num final de primavera.
Conversamos. Ela declamou-me poesias e, como mágica, as palavras tinham cores e sons.
Eu disse a ela que seus versos me falavam de Deus. Confessei-lhe também que a poesia é mais redentora que os dogmas da religião.
A senhora sorriu um sorriso interrogador aguardando a minha explicação.
Respondi que os dogmas são sempre certeiros. Infalíveis. Escritos por teólogos que sabem definir o Mistério.
A poesia não. A poesia não define o Mistério, a poesia o torna sagrado. E em seguida o lança nos ares do imaginário.
Os teólogos sangram a vida com preceitos. Os poetas, ah, os poetas sagram a vida que o teólogo sangrou.
Então a senhora dos versos sagrados se lançou no desconhecido de minhas próprias palavras e desapareceu.
Metafísicas antropofágicas
Fora do corpo não há salvação:
decifra-me ou devoro-te!
A minha carne é verdadeira comida
e no fim, seremos consubstanciados
como nos sonhos do ameríndio guerreiro.
Devora a minha carne que é sua.
Antes que termine o dia
Não reconhecerão o quão denso era a treva que pairava em mim.
É uma noite sem fim, apática à qualquer luminosidade.
Sou como o limbo a girar freneticamente numa bússola sem norte,
a carência de sentido encarnada em solidão.
Não me perguntem: "tudo bem?" Direi que sim.
E fingiremos todos acreditar um no outro.
Não diga que Deus há de me valer, ele não virá...
A minha solidão é um ermo habitado por pessoas alheias
que observam passivamente os vitrais foscos de um templo em ruínas.
Eu sou o templo em ruínas.
E tenho a carne lacerada pelos cacos dos vitrais.
Cheiro Bom
Três cheiros desencadeiam em mim sensações de prazer:
O cheiro de terra molhada pela chuva;
O aroma de uma refeição caipira;
E o cheiro nato do corpo de quem amo.
O cheiro da terra molhada me acalma a mente;
O aroma da comida da roça me transporta para infância;
E o cheiro do corpo amado me arrepia.
Embora nenhum deles dependa de mim,
(O primeiro depende da precipitação;
O outro, impede-me a geografia;
E o último se perdeu no tempo),
Habituei-me a desejar mais do que exige a necessidade:
O cheiro de terra molhada pela chuva continuará a me acalmar sempre que chover;
O aroma das refeições caipiras continuará a alcançar o cérebro antes do estômago;
E o cheiro do corpo – mestiço, suado, despido – continuará a povoar minhas memórias.
Dança Sagrada ou Cópula dos Deuses
Um corpo dançante, de sentida leveza do ser, um corpo a bailar sobre o meu desejo
aproxima-se, velado pelos aromas que exalam das flores de um ipê.
As pétalas caem, esvoaçam em meu imaginário, o corpo se contorce:
o meu, de tesão; de tensão delirante. Geme.
O seu, da beleza e frescor de tua carne.
Você sorri. E teu sorriso acende o universo que me prende à pele.
Mas nada me circunda além da melodia dos pés que tocam suavemente o chão,
o cintilar baixíssimo da pétala do ipê que cai.
O meu coração, este sim ensurdecedor, engasga-me a garganta, estilhaça o peito. E saliva a boca da seiva que lhe escorre os lábios.
Será Vênus? Será Marte? E que me importa?
Hei de morrer do mesmo amor.
Meu ipê
Em êxtase de cores prenunciam os ipês a primavera.
Caem folhas,
eclodem as flores
e a cidade se pinta em mil tons.
Meu coração é um pé de ipê.
Ele flori ao primeiro vestígio primaveril,
flores de amor, de amor novo,
daqueles sentidos sem consumação.
Um ipê florescido degela a frieza de qualquer rigoroso inverno.
E meu coração-ipê não cabe em mim,
ele avistou a incidência de um sol que me abraça
no célere equinócio do teu dia,
átimo exato da minha noite.
Por isso rio
Eu rio de mim
como nascente de emoções aventuradas
a afluir límpida sob um sorriso audacioso.
Rio assim,
deixado à deriva pelas correntes de ar do hálito quente
que de minha boca sopra numa noite densa e solitária
os versos sacanas de qualquer rebeldia juvenil.
Eu rio,
me comprazo, vou ao encontro do mar
que mar não sei.
Sorrio, caudal de águas lacrimantes
em várzeas cultivadas de paixão.
Por isso rio, vou ao encontro do mar.
Mãe d’água sereia me chama
nas funduras meu riso deitar.
Prelúdio para o sono
Dá-me um poema
um verso mundano
de voz grave e pungente
e que fale de amor.
Poesia atrevida, despudorada
que me vele o sono
e em meu sonho me leve para perto de ti.
Dá-me um poema que me ensoberbeça
que me suba à cabeça
que me olvida de mim.
Desamorizar
Ai, Deus meu, desamoriza a mim
das convulsões do coração.
De paixão morrerei ébrio,
transbordando versos sem destino noite adentro.
Desamores aventurados,
de paixão bendita,
rapinante: rouba-me o sono e a seiva.
Arranca-me a paz revelando a crueza
de fatos não consumados.
Ai, ai, Deus meu...
Floração
A delicada beleza da floração teria apreciado
mas não pôde uma última vez sentir os ventos que traziam primavera
morreu por si próprio imolado,
sem certezas, apenas repleto da contemplação das estrelas.
À semelhança do pintor, eu cantaria
não me interessa teorias.
Minha alucinação, meu delírio é o mesmo tocado no rádio
suportar o dia a dia e viver a experiência de coisas reais.
Por entre magnificat e ave-marias, castração
salpica o sangue na navalha
e quanto aquela velha roupagem do passado
essa, deveras, não nos serve mais.
Na tua bandeira, liberdade
do teu povo, a empatia.
Pois das Minas que me habitam
verte o rio que me guia.
Metropolita ou interiorano,
importa não, aqui, espia:
seja matuto ou da cidade,
mineiridade a gente cria.
Quem, um dia, observou o meu olhar sobre o horizonte saberá:
as minhas saudades não têm calmaria
estão sempre em devir
E dói
tanto que não caibo em casa,
fico acostado no limiar da porta
desejando algo mais.
De pé, encalço, segue o trilho
que à estação deve chegar.
Alegrava a meninice
olhar o trem que vem passar.
Aquele trem que era vida
foi-se embora, existe não.
A estação, desamparada,
de tão vazia é solidão.
E nos trilhos pedregosos
só resta agora
emoção.
Meu ermo sagrado II
No silêncio de uma capela
quando ainda estende a noite a treva profunda
o espírito me diz:
“ele está em todo ser”.
E saio a procurá-lo nas matas,
escondo-me inteiro.
Caminho em veredas e trilheiros
e tu nada me diz,
todo ser aquieta,
ouço gotejar nas pedras águas mansas.
As horas passam, eu me apercebo em silêncio.
O silêncio me extasia naquela paz.
Meu ermo sagrado I
Procuro por tua presença e não me respondes.
Abrigo sob a sombra de um pinheiro
presumo um silêncio pleno de ti,
encontro meu ermo sagrado.
basta-me uma noite, porém, tudo se esvai.
Eu apelo à letra, a palavra dita;
elas me traem.
Tenho a mente turva e os afetos soberbos.
De ti, tenho um silêncio
longo e tortuoso
quando o que desejo hoje, somente,
é tê-lo por primeiro.