Pular para o conteúdo

Frases de Warley Tomáz

183 frases

Ipê rosa Teus lábios tocam, suave, a minha tez cansada,
Continuar lendo

Ipê rosa Teus lábios tocam, suave, a minha tez cansada, na floração de um ipê. E ao gosto desse beijo, nesse sopro augusto ainda frio, me olvido um instante o caos latente. Sou agora as pétalas róseas caídas ao chão. Tu, amado, indistinguível entre o azul do céu, os ramos floridos e a admiração gratuita que me toma de assalto, transforma-te em mim, olhando o estupor da visão do ipê. N'aquele instante, breve e belo, tu és meu.

Pródigo Jaz no tempo muitos anos que na tua companhia
Continuar lendo

Pródigo Jaz no tempo muitos anos que na tua companhia os meus passos eu mudei me tornando um caminheiro lado a lado, estreitando tua vida optei. Me honraram como tolo por deixar a segurança o bem-estar, minhas finanças e, assim, expropriado, estropiado te seguir. Mas, meu amado, um contratempo atracou meu seguimento: outros amores me envolvi. Quando o medo me apossava, tirava a paz, me trespassava, tua saudade a mim rasgava e eu, sem ânimo, contrito, não consegui vo-lo sentir. Ó, desejado, penetrei no breu sem lume e sem palavras refiz os passos da estrada calei a voz pensando em ti rastro de caos eu restaurei. A mim sem nada revelar senão os olhos padecentes de quem está subjacente no caminho que segui; meu esperado, nesses olhos vi pegadas de teus passos lado a lado, estreitado o meu rumo conduzir.

Aqui e acolá Aqui... uma pilha de livros para ler,
Continuar lendo

Aqui e acolá Aqui... uma pilha de livros para ler, mas debruçar-me sobre eles não quero. Leituras que obrigam a aprender mas que não me ensinam o prazer de estudar. Acolá... Uma pira de livros prontos a queimar outra, de gente, a fazê-la. A escola, a docente e o futuro, mediocridade ou revolução, pira feita com a educação.

O som das ondas Hoje, num fim de tarde, fui ao encontro do mar. As ondas quebravam nas pedras;
Continuar lendo

O som das ondas Hoje, num fim de tarde, fui ao encontro do mar. As ondas quebravam nas pedras; no meu rosto salpicava a maresia e o sereno quebrava o meu cansaço. Eu admirava aquele arrebol e seguia a orla, então o som da rebentação das ondas me pareceu mais belo que toda canção já escrita. Sanava o gume de meus fracassos; 'curava' amores entalados cá dentro, na alma. Quando a noite, enfim, ascendeu, eu queria viver.

Clara Irmã Universal Clara, tu és espelho onde o Cristo é contemplado no silêncio fervoroso das irmãs,
Continuar lendo

Clara Irmã Universal Clara, tu és espelho onde o Cristo é contemplado no silêncio fervoroso das irmãs, virgem prudente que manteve sempre acesa sua lâmpada de amor e doação. Dama pobre, tua teimosia foste santa, em não querer nada além do que supria mulher forte, de esperanças era prenhe e às irmãs sororidade infudia. Mudazinha que Francisco semeou em Damião, ao seu lado és um ramo valoroso, original que teu Amado fez crescer qual mãe fecunda em sua casa e dos Menores, conselheira sem igual. Ao mundo inteiro, serva amante, teu amor nos clarifica às exigências do evangelho assumir. E se no claustro te escondeste toda a vida ao mundo inteiro o teu brilho reluziu.

Palco Que o silêncio sobre a minha lembrança não se dilua em ausências derramadas, seja apenas preservada como a única saudade de um coração amigo.
Continuar lendo

Palco Que o silêncio sobre a minha lembrança não se dilua em ausências derramadas, seja apenas preservada como a única saudade de um coração amigo. E o tempo, inexistente, nos seja a testemunha muda da minha paixão ferida, e da minha superação. Que o outro altar da nossa redenção continue a escancarar a sublimidade do sentimento humano e por detrás da coxia nos revele a divindade qual arte que não carece explicação Que eu te ame, mesmo sem dizê-lo, e meus olhos te sorriem todas as vezes que encontrarem a ti. Que o desejo que consumira a minha carne possa ser comparada ao palco que tem apagada as suas luzes e apagando consigo a materialidade do espectador, fundi-a à ilusão de uma nova realidade dando lugar a novos mundos possíveis como um último beijo entre dois amantes antes do impensável fim.

Desertos que me habitam Os desertos que me habitam diferem-se no grau, no grão molecular.
Continuar lendo

Desertos que me habitam Os desertos que me habitam diferem-se no grau, no grão molecular. Desertos que habitam em alguns são verdejantes, suas folhagens vicejantes tapam o céu, esconde o sol. Nem todo deserto é areia contendo pedras, pó e poeira ou caniço a balançar. Nem todo deserto é só areia pois há também as cordilheiras com suas rochas e geleiras onde a voz se faz ouvir. Desertos que me habitam, para alguns são navegáveis profundeza mensurável ou um oceano sem fim. Nos habitam, comumente, desertos urbanos cheios de gente, rotineiro e solitário mas inóspito igualmente. E há desertos que são noites, matéria escura, sem repouso verdadeiros calabouços pra quem teme adormecer. Os desertos que me habitam nos habitam a todos nós enquanto sopra paira a brisa que anima a travessia.

Saudades do mar Saudades do mar como se a ele houvesse pertencido minha vida inteira como se o calor que me ardia os ombros me desfizesse de pesadas vestes
Continuar lendo

Saudades do mar Saudades do mar como se a ele houvesse pertencido minha vida inteira como se o calor que me ardia os ombros me desfizesse de pesadas vestes e me cobrisse de sal, areia e sol. As palavras que digo não traem as montanhas de minhas solidões. Mas o mar... incólume em meus abraços, faz-me esquecer... De volta ao caos, me perco outra vez, no mar contido nos olhos de um poente ressaca que me lança de novo às águas fundas de um oceano intangível são mais bondosos e risonhos que a minha loucura aqueles olhos.

Para além dos homens Elas não criam nas freiras, desalmadas, esperando um esposo que não vem.
Continuar lendo

Para além dos homens Elas não criam nas freiras, desalmadas, esperando um esposo que não vem. Não criam nos curas, travestidos em suas rendas e solidões; menos ainda em um deus pudico. Elas não. Queridas elas, seus beijos foram ouvidos no altar e os seus gemidos romperam a disciplina da prisão. Não lhes detiveram os homens.

Alma transgressora As sombras do passado bruxuleiam suas trevas como um eco no tempo, sussurram pesares sobre os meus passos incertos,
Continuar lendo

Alma transgressora As sombras do passado bruxuleiam suas trevas como um eco no tempo, sussurram pesares sobre os meus passos incertos, espalham aos ventos: meu descaminho é desvairado Minh’alma transgressora sob o sol de um verão eterno desfalece enfrenta demônios incorpóreos de um rebanho servil, cai em gargalhadas a sós e cai novamente, em pranto, da presente falência de humanidade. O futuro é ilusão, sentenciam-se extinguir a raça e o sangue e o amor que não cabe em mim As sombras retornam, vez e outra, no tempo, são as mesmas sombras projetadas pelos corpos pútridos do maldito rebanho, de almas vazias de transgressão

Breviário Meu Deus, que o desassossego da minha carne não me deixe passar despercebido a sensibilidade de uma aurora.
Continuar lendo

Breviário Meu Deus, que o desassossego da minha carne não me deixe passar despercebido a sensibilidade de uma aurora. Que os meus olhos cansados das noites insones encontre um olhar que me acalente, daqueles que sem dizer nada, devolve-me a paz de uma manhã tranquila. Que meus lábios, ressequidos, possam alimentar-se de sonhos e utopias, e alimentar de beijos outras bocas com fome. E meu coração, Deus, deixa ocultado. Mas vem de mansinho ocupá-lo como num leito macio, tem o cheirinho entranhado dos meus medos. Na noite tardia, reclina tua face em meu peito, sussurra sopros de vida e me faz adormecer.

O poente O poente estava perfeito. Nos dizeres de um poeta:
Continuar lendo

O poente O poente estava perfeito. Nos dizeres de um poeta: "bonito e trágico como tudo que é verdadeiro". Tinha ele razão. Era tamanha a boniteza daquele instante, e tão trágico o entardecer, que durara muito pouco, mas se estendeu o bastante para banhar os corpos na areia de algo sagrado que eu não saberia dizer. Talvez encontremos algum sentido nas grandes narrativas das religiões, ou talvez não; mas naquela tarde, naquele pôr de sol dourado, naquele ínfimo instante, nada, absolutamente nada, necessitasse de um sentido nem de eternidade, bastar-me-ia estar na areia úmida, ébrio da luz plácida e crepuscular que me convidava contemplar a finitude.

As igrejas estão vazias, Talvez já estivessem antes de caírem as máscaras Da nossa essencialidade.
Continuar lendo

As igrejas estão vazias, Talvez já estivessem antes de caírem as máscaras Da nossa essencialidade. Tão vazias quanto o caminho esquecido do seguimento, Preterido às promessas certeiras De santos sem biografia Ou de clérigos iluminados - pela tela. Ignora-se o Cristo, novamente desprezado Pois, dizemos missa. Outros, assistem-na. E nada mais acontece. O monopólio, entretanto, ainda é igual Há dois séculos atrás. O Pão fracionado não nos arde o coração, Este sim, vazio há tanto tempo Que nem sei... Kyrie eleison.

Era volúvel. O bastante para assistir prostitutas Sem tocá-las
Continuar lendo

Era volúvel. O bastante para assistir prostitutas Sem tocá-las E emendar-se até a próxima ereção. Buscava um amor oblativo que não conquistara, mas pretendia. E vagava. Desencontrado que estava em seu caminho interior. Perdido nos enquadramentos que lhe comprimiam o peito Amava sempre, perdidamente, até o raiar do sol.

Esta estranha maneira de amar, em poesia e só. Amores tolhidos, mas requeridos pela carne.
Continuar lendo

Esta estranha maneira de amar, em poesia e só. Amores tolhidos, mas requeridos pela carne. Quero crer que te amei sem nada possuir Não saberás quem sou. Sequer te reconhecerá nestes versos tão avessa a minha pulsão. que o sol a pino seja testemunha: meu olhar acanhado te toca, suave imperceptível, como uma partícula de luz sobre a tua pele.