Ipê rosa
Teus lábios tocam, suave,
a minha tez cansada,
na floração de um ipê.
E ao gosto desse beijo,
nesse sopro augusto ainda frio,
me olvido um instante o caos latente.
Sou agora as pétalas róseas caídas ao chão.
Tu, amado, indistinguível entre o azul do céu,
os ramos floridos
e a admiração gratuita que me toma de assalto,
transforma-te em mim, olhando o estupor da visão do ipê.
N'aquele instante,
breve e belo,
tu és meu.
Pródigo
Jaz no tempo muitos anos
que na tua companhia
os meus passos eu mudei
me tornando um caminheiro
lado a lado, estreitando
tua vida optei.
Me honraram como tolo
por deixar a segurança
o bem-estar, minhas finanças
e, assim, expropriado, estropiado te seguir.
Mas, meu amado, um contratempo
atracou meu seguimento:
outros amores me envolvi.
Quando o medo me apossava,
tirava a paz, me trespassava,
tua saudade a mim rasgava
e eu, sem ânimo, contrito,
não consegui vo-lo sentir.
Ó, desejado, penetrei
no breu sem lume e sem palavras
refiz os passos da estrada
calei a voz pensando em ti
rastro de caos eu restaurei.
A mim sem nada revelar
senão os olhos padecentes
de quem está subjacente
no caminho que segui;
meu esperado, nesses olhos
vi pegadas de teus passos
lado a lado, estreitado
o meu rumo conduzir.
Aqui e acolá
Aqui...
uma pilha de livros para ler,
mas debruçar-me sobre eles não quero.
Leituras que obrigam a aprender
mas que não me ensinam o prazer
de estudar.
Acolá...
Uma pira de livros prontos a queimar
outra, de gente, a fazê-la.
A escola, a docente e o futuro,
mediocridade ou revolução,
pira feita com a educação.
O som das ondas
Hoje, num fim de tarde, fui ao encontro do mar.
As ondas quebravam nas pedras;
no meu rosto salpicava a maresia
e o sereno quebrava o meu cansaço.
Eu admirava aquele arrebol e seguia a orla,
então o som da rebentação das ondas me pareceu mais belo
que toda canção já escrita.
Sanava o gume de meus fracassos;
'curava' amores entalados cá dentro,
na alma.
Quando a noite, enfim, ascendeu,
eu queria viver.
Clara Irmã Universal
Clara, tu és espelho onde o Cristo é contemplado
no silêncio fervoroso das irmãs,
virgem prudente que manteve sempre acesa
sua lâmpada de amor e doação.
Dama pobre, tua teimosia foste santa,
em não querer nada além do que supria
mulher forte, de esperanças era prenhe
e às irmãs sororidade infudia.
Mudazinha que Francisco semeou em Damião,
ao seu lado és um ramo valoroso, original
que teu Amado fez crescer qual mãe fecunda em sua casa
e dos Menores, conselheira sem igual.
Ao mundo inteiro, serva amante, teu amor nos clarifica
às exigências do evangelho assumir.
E se no claustro te escondeste toda a vida
ao mundo inteiro o teu brilho reluziu.
Palco
Que o silêncio sobre a minha lembrança não se dilua em ausências derramadas,
seja apenas preservada como a única saudade de um coração amigo.
E o tempo, inexistente, nos seja a testemunha muda da minha paixão ferida,
e da minha superação.
Que o outro altar da nossa redenção continue a escancarar a sublimidade
do sentimento humano
e por detrás da coxia nos revele a divindade qual arte que não carece explicação
Que eu te ame, mesmo sem dizê-lo,
e meus olhos te sorriem todas as vezes que encontrarem a ti.
Que o desejo que consumira a minha carne
possa ser comparada ao palco que tem apagada as suas luzes
e apagando consigo a materialidade do espectador, fundi-a
à ilusão de uma nova realidade
dando lugar a novos mundos possíveis
como um último beijo entre dois amantes antes do impensável fim.
Desertos que me habitam
Os desertos que me habitam
diferem-se no grau, no grão molecular.
Desertos que habitam em alguns são verdejantes,
suas folhagens vicejantes tapam o céu, esconde o sol.
Nem todo deserto é areia
contendo pedras, pó e poeira
ou caniço a balançar.
Nem todo deserto é só areia
pois há também as cordilheiras
com suas rochas e geleiras
onde a voz se faz ouvir.
Desertos que me habitam, para alguns são navegáveis
profundeza mensurável ou um oceano sem fim.
Nos habitam, comumente, desertos urbanos
cheios de gente,
rotineiro e solitário
mas inóspito igualmente.
E há desertos que são noites,
matéria escura, sem repouso
verdadeiros calabouços
pra quem teme adormecer.
Os desertos que me habitam
nos habitam a todos nós
enquanto sopra
paira a brisa
que anima a travessia.
Saudades do mar
Saudades do mar como se a ele houvesse pertencido minha vida inteira
como se o calor que me ardia os ombros me desfizesse de pesadas vestes
e me cobrisse de sal, areia e sol.
As palavras que digo não traem as montanhas de minhas solidões.
Mas o mar...
incólume em meus abraços, faz-me esquecer...
De volta ao caos, me perco outra vez, no mar contido nos olhos de um poente
ressaca que me lança de novo às águas fundas de um oceano intangível
são mais bondosos e risonhos que a minha loucura
aqueles olhos.
Para além dos homens
Elas não criam
nas freiras, desalmadas, esperando um esposo que não vem.
Não criam nos curas,
travestidos em suas rendas e solidões;
menos ainda em um deus pudico.
Elas não.
Queridas elas,
seus beijos foram ouvidos no altar
e os seus gemidos romperam a disciplina da prisão.
Não lhes detiveram os homens.
Alma transgressora
As sombras do passado bruxuleiam suas trevas como um eco no tempo,
sussurram pesares sobre os meus passos incertos,
espalham aos ventos: meu descaminho é desvairado
Minh’alma transgressora sob o sol de um verão eterno desfalece
enfrenta demônios incorpóreos de um rebanho servil,
cai em gargalhadas a sós
e cai novamente, em pranto,
da presente falência de humanidade.
O futuro é ilusão, sentenciam-se extinguir
a raça e o sangue
e o amor que não cabe em mim
As sombras retornam, vez e outra, no tempo,
são as mesmas sombras projetadas pelos corpos pútridos do maldito rebanho,
de almas vazias de transgressão
Breviário
Meu Deus,
que o desassossego da minha carne não me deixe passar despercebido a sensibilidade de uma aurora.
Que os meus olhos cansados das noites insones encontre um olhar que me acalente, daqueles que sem dizer nada, devolve-me a paz de uma manhã tranquila.
Que meus lábios, ressequidos, possam alimentar-se de sonhos e utopias, e alimentar de beijos outras bocas com fome.
E meu coração, Deus, deixa ocultado. Mas vem de mansinho ocupá-lo como num leito macio,
tem o cheirinho entranhado dos meus medos.
Na noite tardia, reclina tua face em meu peito, sussurra sopros de vida e me faz adormecer.
O poente
O poente estava perfeito.
Nos dizeres de um poeta:
"bonito e trágico como tudo que é verdadeiro".
Tinha ele razão. Era tamanha a boniteza daquele instante,
e tão trágico o entardecer,
que durara muito pouco,
mas se estendeu o bastante para banhar os corpos na areia de algo sagrado
que eu não saberia dizer.
Talvez encontremos algum sentido nas grandes narrativas das religiões,
ou talvez não;
mas naquela tarde, naquele pôr de sol dourado,
naquele ínfimo instante,
nada, absolutamente nada,
necessitasse de um sentido
nem de eternidade,
bastar-me-ia estar na areia úmida,
ébrio da luz plácida e crepuscular que me convidava contemplar a finitude.
As igrejas estão vazias,
Talvez já estivessem antes de caírem as máscaras
Da nossa essencialidade.
Tão vazias quanto o caminho esquecido do seguimento,
Preterido às promessas certeiras
De santos sem biografia
Ou de clérigos iluminados - pela tela.
Ignora-se o Cristo, novamente desprezado
Pois, dizemos missa. Outros, assistem-na.
E nada mais acontece.
O monopólio, entretanto, ainda é igual
Há dois séculos atrás.
O Pão fracionado não nos arde o coração,
Este sim, vazio há tanto tempo
Que nem sei...
Kyrie eleison.
Era volúvel.
O bastante para assistir prostitutas
Sem tocá-las
E emendar-se até a próxima ereção.
Buscava um amor oblativo que não conquistara, mas pretendia.
E vagava.
Desencontrado que estava em seu caminho interior.
Perdido nos enquadramentos que lhe comprimiam o peito
Amava sempre, perdidamente, até o raiar do sol.
Esta estranha maneira de amar,
em poesia e só.
Amores tolhidos, mas requeridos pela carne.
Quero crer que te amei sem nada possuir
Não saberás quem sou.
Sequer te reconhecerá nestes versos
tão avessa a minha pulsão.
que o sol a pino seja testemunha:
meu olhar acanhado te toca, suave
imperceptível, como uma partícula de luz sobre a tua pele.