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Frases de Vinicius de Moraes

356 frases

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
AS BORBOLETAS Brancas Azuis
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AS BORBOLETAS Brancas Azuis Amarelas E pretas Brincam Na luz As belas Borboletas. Borboletas brancas São alegres e francas. Borboletas azuis Gostam muito de luz. As amarelinhas São tão bonitinhas! E as pretas, então... Oh, que escuridão!

A morte A morte vem de longe Do fundo dos céus
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A morte A morte vem de longe Do fundo dos céus Vem para os meus olhos virá para os teus Desce das estrelas Das brancas estrelas As loucas estrelas Trânsfugas de Deus Chega impressentida Nunca inesperada Ela que é na vida A grande esperada A desesperada Do amor fratricida Dos homens, ai! dos homens Que matam a morte Por medo da vida

PARA VIVER UM GRANDE AMOR Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum…
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PARA VIVER UM GRANDE AMOR Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor. Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor... Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor? Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor. É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor. Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Minha sorte está lançada Eu sou, eu sou estrada Eu sou, eu sou levada
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Minha sorte está lançada Eu sou, eu sou estrada Eu sou, eu sou levada Eu sou, eu sou partida Contra o grande nada - lá vou eu! Ao romper da madrugada O sol no pensamento E o tempo contra o vento E a minha voz alçada Contra o grande nada - lá vou eu! "Quem vem lá?" Pergunta a solidão "Sou eu!" Sou eu que vou porque o meu tempo nasceu Entre os ecos do infinito Eu grito, eu mato a solidão Eu sou meu tempo, eu vou A ferro e fogo, eu corro Eu vou, eu canto e grito: amor! Eu vou, eu vou, eu canto e grito: amor!

CÂNTICO Não, tu não és um sonho, és a existência Tens carne, tens fadiga e tens pudor
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CÂNTICO Não, tu não és um sonho, és a existência Tens carne, tens fadiga e tens pudor No calmo peito teu. Tu és a estrela Sem nome, és a morada, és a cantiga Do amor, és luz, és lírio, namorada! Tu és todo o esplendor, o último claustro Da elegia sem fim, anjo! mendiga Do triste verso meu. Ah, fosses nunca Minha, fosses a idéia, o sentimento Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora Ausente, amiga, eu não te perderia! Amada! onde te deixas, onde vagas Entre as vagas flores? e por que dormes Entre os vagos rumores do mar? Tu Primeira, última, trágica, esquecida De mim! És linda, és alta! és sorridente És como o verde do trigal maduro Teus olhos têm a cor do firmamento Céu castanho da tarde - são teus olhos! Teu passo arrasta a doce poesia Do amor! prende o poema em forma e cor No espaço; para o astro do poente És o levante, és o Sol! eu sou o gira O gira, o girassol. És a soberba Também, a jovem rosa purpurina És rápida também, como a andorinha! Doçura! lisa e murmurante... a água Que corre no chão morno da montanha És tu; tens muitas emoções; o pássaro Do trópico inventou teu meigo nome Duas vezes, de súbito encantado! Dona do meu amor! sede constante Do meu corpo de homem! melodia Da minha poesia extraordinária! Por que me arrastas? Por que me fascinas? Por que me ensinas a morrer? teu sonho Me leva o verso à sombra e à claridade. Sou teu irmão, és minha irmã; padeço De ti, sou teu cantor humilde e terno Teu silêncio, teu trêmulo sossego Triste, onde se arrastam nostalgias Melancólicas, ah, tão melancólicas... Amiga, entra de súbito, pergunta Por mim, se eu continuo a amar-te; ri Esse riso que é tosse de ternura Carrega-me em teu seio, louca! sinto A infância em teu amor! cresçamos juntos Como se fora agora, e sempre; demos Nomes graves às coisas impossíveis Recriemos a mágica do sonho Lânguida! ah, que o destino nada pode Contra esse teu langor; és o penúltimo Lirismo! encosta a tua face fresca Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma É o último suspiro da poesia O mar é nosso, a rosa tem seu nome E recende mais pura ao seu chamado. Julieta! Carlota! Beatriz! Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto Que se não brinco, choro, e desse pranto Desse pranto sem dor, que é o único amigo Das horas más em que não estás comigo.

Você tem que me fazer um juramento De só ter um pensamento Ser só minha até morrer
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Você tem que me fazer um juramento De só ter um pensamento Ser só minha até morrer E também de não perder esse jeitinho De falar devagarzinho Essas histórias de você E de repente me fazer muito carinho E chorar bem de mansinho Sem ninguém saber por quê. Porém, se mais do que minha namorada Você quer ser minha amada Minha amada, mas amada para valer Aquela amada pelo amor predestinada Sem a qual a vida é nada Sem a qual se quer morrer Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos E os seus braços o meu ninho No silêncio de depois E você tem que ser a estrela derradeira Minha amiga e companheira No infinito de nós dois.

Da Solidão Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a punge…
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Da Solidão Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais". Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão. Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono? Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão? Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

São demais os perigos desta vida Para quem tem paixão, principalmente Quando uma lua surge de repente
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São demais os perigos desta vida Para quem tem paixão, principalmente Quando uma lua surge de repente E se deixa no céu, como esquecida. E se ao luar que atua desvairado Vem se unir uma música qualquer Aí então é preciso ter cuidado Porque deve andar perto uma mulher. Deve andar perto uma mulher que é feita De música, luar e sentimento E que a vida não quer, de tão perfeita. Uma mulher que é como a própria Lua: Tão linda que só espalha sofrimento Tão cheia de pudor que vive nua.

Saudade de Amar Deixa eu te dizer, amor Que não deves partir
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Saudade de Amar Deixa eu te dizer, amor Que não deves partir Partir nunca mais Pois o tempo sem amor É uma dura ilusão E não volta mais Se tu pudesses compreender A solidão que é Te buscar por aí Andando devagar A vagar por aí Chorando a tua ausência Vence a tua solidão Abre os braços e vem Meus dias são teus É tão triste se perder Tanto tempo de amor Sem hora de adeus Oh, volta Que nos braços meus Não haverá adeus Nem saudade de amar E os dois, sorrindo a soluçar Partiremos depois