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Frases de Vinicius de Moraes

356 frases

Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
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Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz Não te quero ter porque em meu ser está tudo terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.

CARTA DO AUSENTE Meus amigos, se durante meu recesso virem por acaso passar a minha amada peçam silêncio geral.
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CARTA DO AUSENTE Meus amigos, se durante meu recesso virem por acaso passar a minha amada peçam silêncio geral. Depois apontem para o infinito. Ela deve ir como uma sonâmbula, envolta numa aura de tristeza, pois seus olhos só verão a minha ausência. Ela deve estar cega de tudo o que seja o meu amor (esse indizível amor que vive trancado em mim num cárcere mirando empós seu rastro). Se for a tarde, comprem e desfolhem rosas à sua melancólica passagem, e se puderem entoem cantus-primus. Que cesse totalmente o tráfego e silencie as buzinas de modo que se ouça longamente o ruído de seus passos. Ah, meus amigos, ponham as mãos em prece e roguem, não importa a que ser ou divindade por que bem haja a minha grande amada durante o meu recesso, pois sua vida é minha vida, sua morte a minha morte. Sendo possível soltem pombas brancas em quantidade suficiente para que se faça em torno a suave penumbra que lhe apraz. Se houver por perto um hi-fi, coloquem o "Noturno em sí bemol" de Chopin. E se porventura ela se puser a chorar, oh recolham-lhe as lágrimas em pequenos frascos de opalina a me serem mandados regularmente pela mala diplomática. Meus amigos, meus irmãos (e todos os que amam a minha poesia), se por acaso virem passar a minha amada salmodiem versos meus. Ela estará sobre uma nuvem envolta numa aura de tristeza o coração em luz transverberado. Ela é aquela que eu não pensava mais possível, nascida do meu desespero de não encontrá-la. Ela é aquela por quem caminham as minhas pernas e para quem foram feitos os meus braços, ela é aquela que eu amo no meu tempo e que amarei na minha eternidade - a amada una e impretérita. Por isso procedam com discrição mas eficiência: que ela não sinta o seu caminho, e que este, ademais ofereça a maior segurança. Seria sem dúvida de grande acerto não se locomovesse ela de todo, de maneira a evitar os perigos inerentes às leis da gravidade e do momentum dos corpos, e principalmente aquele devidos à falibilidade dos reflexos humanos. Sim, seria extremamente preferível se mantivesse ela reclusa em andar térreo e intramuros num ambiente azul de paz e música. Oh, que ela evite sobretudo dirigir à noite e estar sujeita aos imprevistos da loucura dos tempos. Que ela se proteja, a minha amada contra os males terríveis desta ausência com música e equanil. Que ela pense, agora e sempre em mim, que longe dela ando vagando pelos jardins noturnos da paixão e da melancolia. Que ela se defenda, a minha amiga, contra tudo que anda, voa, corre e nada; e que se lembre que devemos nos encontrar, e para tanto é preciso que estejamos íntegros, e acontece que os perigos são máximos, e o amor de repente de tão grande tornou tudo frágil, extremamente, extremamente frágil.

Canção De Nós Dois Tudo quanto na vida eu tiver, Tudo quanto de bom eu fizer,
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Canção De Nós Dois Tudo quanto na vida eu tiver, Tudo quanto de bom eu fizer, Será de nós dois, Será de nós dois. Uma casa num alto qualquer, Com um jardim e um pomar se couber, Será de nós dois, Será de nós dois. E depois, quando a gente quiser, Passear, ir pra onde entender, Não importa onde a gente estiver, Estaremos a sós. E depois quando a gente voltar, O menino que a gente encontrar, Será de nós dois, Será de nós dois. E de noite quando ele dormir, O silêncio do tempo a fugir, Será de nós dois, Será de nós dois. E por fim, quando quando o tempo fugir, E a saudade nos der de nós dois, E a vontade vier de dormir, Sem ter mais depois. Dormiremos sem medo nenhum, Pois aonde puder dormir um, Podem dormir dois, Podem dormir dois, Podem dormir dois.

Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
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Ausência Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Poética (II) Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia
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Poética (II) Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia e na perspectiva da vida futura ergui em carne viva sua arquitetura não sei bem se é casa se é torre ou se é templo (um templo sem Deus) mas é grande e clara pertence a seu tempo - entrai, irmãos meus!

Soneto do Amor Total Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade...
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Soneto do Amor Total Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade. Amo-te afim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim, muito e amiúde É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais do que pude.

Amor Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
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Amor Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação? Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos Fingir que hoje é domingo, vamos ver O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão? Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto? Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol Vamos, amor? Porque excessivamente grave é a Vida.

Amor em paz Eu amei Eu amei, ai de mim, muito mais
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Amor em paz Eu amei Eu amei, ai de mim, muito mais Do que devia amar E chorei Ao sentir que iria sofrer E me desesperar Foi então Que da minha infinita tristeza Aconteceu você Encontrei em você a razão de viver E de amar em paz E não sofrer mais Nunca mais Porque o amor é a coisa mais triste Quando se desfaz

Aula de piano Depois do almoço na sala vazia A mãe subia pra se recostar
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Aula de piano Depois do almoço na sala vazia A mãe subia pra se recostar E no passado que a sala escondia A menininha ficava a esperar O professor de piano chegava E começava uma nova lição E a menininha, tão bonitinha Enchia a casa feito um clarim Abria o peito, mandava brasa E solfejava assim: Ai, ai, ai Lá, sol, fá, mi, ré Tira a não daí Dó, dó, ré, dó, si Aqui não dá pé Mi, mi, fá, mi, ré E agora o sol, fá Pra lição acabar Diz o refrão quem não chora não mama Veio o sucesso e a consagração Que finalmente deitaram na fama Tendo atingido a total perfeição Nunca se viu tanta variedade A quatro mãos em concertos de amor Mas na verdade tinham saudade De quando ele era seu professor E quando ela, menina e bela Abria o berrador Ai, ai, ai, Lá, sol, fá, mi, ré

Tomara Que você volte depressa Que você não se despeça
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Tomara Que você volte depressa Que você não se despeça Nunca mais do meu carinho E chore, se arrependa E pense muito Que é melhor se sofrer junto Que viver feliz sozinho Tomara Que a tristeza te convença Que a saudade não compensa E que a ausência não dá paz E o verdadeiro amor de quem se ama Tece a mesma antiga trama Que não se desfaz E a coisa mais divina Que há no mundo É viver cada segundo Como nunca mais...

Ternura Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor
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Ternura Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora.

Cala, meu amor Entra, meu amor Bom você voltar
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Cala, meu amor Entra, meu amor Bom você voltar De onde vem você Cansado assim? Vejo tanta dor No teu triste olhar Este olhar que, outrora Se acendia só pra mim Cala, meu amor Fala, meu amor É melhor você nada contar Venha aos braços meus Que os abraços meus Vão finalmente te fazer calar.

Canção do amor que chegou Eu não sei, não sei dizer Mas de repente essa alegria em mim
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Canção do amor que chegou Eu não sei, não sei dizer Mas de repente essa alegria em mim Alegria de viver Que alegria de viver E de ver tanta luz, tanto azul! Quem jamais poderia supor Que de um mundo que era tão triste e sem cor Brotaria essa flor inocente Chegaria esse amor de repente E o que era somente um vazio sem fim Se encheria de cores assim Coração, põe-te a cantar Canta o poema da primavera em flor É o amor, o amor chegou Chegou enfim

Canção de ninar meu bem Hoje a lua despiu seu véu E flutua a dormir no céu
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Canção de ninar meu bem Hoje a lua despiu seu véu E flutua a dormir no céu Na canção que de mim nasceu Meu amado adormeceu Meu amado adormeceu Dorme, meu amor Como no céu a lua Tu serás sempre meu E eu só tua Dorme, amigo, que a poesia É um mistério que não tem fim Dorme em calma Que assim, um dia Dormirás para sempre em mim Dormirás para sempre em mim

Ai, quem me dera Ai quem me dera, terminasse a espera E retornasse o canto simples e sem fim...
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Ai, quem me dera Ai quem me dera, terminasse a espera E retornasse o canto simples e sem fim... E ouvindo o canto se chorasse tanto Que do mundo o pranto se estancasse enfim Ai quem me dera percorrer estrelas Ter nascido anjo e ver brotar a flor Ai quem me dera uma manhã feliz Ai quem me dera uma estação de amor Ah! Se as pessoas se tornassem boas E cantassem loas e tivessem paz E pelas ruas se abraçassem nuas E duas a duas fossem ser casais Ai quem me dera ao som de madrigais Ver todo mundo para sempre afins E a liberdade nunca ser demais E não haver mais solidão ruim Ai quem me dera ouvir o nunca mais Dizer que a vida vai ser sempre assim E finda a espera ouvir na primavera Alguem chamar por mim...

O VELHO E A FLOR Por céus e mares eu andei, Vi um poeta e vi um rei
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O VELHO E A FLOR Por céus e mares eu andei, Vi um poeta e vi um rei Na esperança de saber O que é o amor. Ninguém sabia me dizer, Eu já queria até morrer Quando um velhinho Com uma flor assim falou: O amor é o carinho, É o espinho que não se vê em cada flor. É a vida quando Chega sangrando aberta em pétalas de amor.

Soneto de Fidelidade De tudo ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
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Soneto de Fidelidade De tudo ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.