TROCANDO OLHARES
Meus olhos te olharam
Sorriram, brilharam,
Brincaram de ver
Além das imagens
Que pintam teu ser...
Melhor sem falar:
Palavras no ar
São folhas ao vento,
Do galho desprendem
Sem cor nem alento.
As falas não cabem
Se os olhos já sabem.
Assim, só te viram
Guardaram teu rosto
E se despediram.
*** DESGASTE ***
As coisas mais bonitas foram ditas
Na paz e na leveza d’um começo…
Por que vivemos hoje sem apreço,
Nas horas que não mais são infinitas?
Nenhum poema mais tu me recitas
Pudera, se anoiteces, amanheço…
Quem sabe seja este nosso preço,
Pelas palavras, hoje, tão restritas?
Eu só vi cinzas quando amanheceu,
O mesmo sol, sem ter qualquer valor,
Teus passos com os meus, aonde for…
Do que será que a gente se esqueceu?
Não bastou ser eu tua e seres meu…
Não foi regada a flor, que é o amor.
TRAUMA
O tempo arrastou a dor e o pranto,
Levou as folhas secas do meu mal…
E tudo passou, feito temporal,
Levando minha angústia a qualquer canto.
Ainda que o drama fosse tanto,
Esperei... já que tudo tem final!
Assim, nasceram flores no quintal
Trazendo nova vida, novo encanto.
Talvez até bastasse este presente,
Os instantes, pequenas alegrias
Ou esta tarde fria, tão somente…
Mas há horas que ainda são vazias
E há lembranças vis na minha mente:
Pesadelos devolvem estes dias!
SONETO SEM FIM
Não há ninguém no fundo de um poço,
Quem adivinha as voltas deste mundo?
E quem já sente “a corda no pescoço”
Descobre que o poço não tem fundo.
Quem sabe a vida seja só esboço,
De tão breve que é cada segundo?
Pois há no mundo ainda o alvoroço
De um fim - e eu ainda me confundo…
Eu escondi meus “nãos” ao dizer sim,
Descobri no que a vida aqui, consiste:
Só trago o que guardei dentro de mim!
Esboço riso e torno ao olhar triste,
Minha tristeza nunca chega ao fim,
Pois o fim realmente não existe!
DOIS EXTREMOS
E lá fora a vida aflora...
Um céu limpo, um sol quente...
Corre feliz toda a gente
Antes que se acabe a hora,
Antes que o relógio pare
E leve a vida embora.
Mas o dia lá de fora
É reflexo d’um instante,
A loucura mais distante
D’um inconstante “agora”,
Porque aqui dentro chove,
Aqui dentro ninguém mora...
PEDRA
Pelos dias que passaram,
Pelos que passam em vão,
Pelas pessoas que ficam,
Por aquelas que se vão,
Pelo tempo que voou
Entre os dedos destas mãos,
Pelo que me magoou,
Pela vida, pelos “nãos”,
Pelos sonhos destruídos,
Pelos que nem asas têm…
Pela voz, pelos ruídos,
Pela fé que me mantém,
Os segundos se demoram
E o choro já não vem…
Bem sei que pedras não choram.
Inda quero florescer
Numa outra estação…
Deus, não deixe endurecer
O meu frágil coração!
PALAVRAS
Elas se perdem no ar,
Evaporam-se no espaço,
E tendo ouvidos de aço,
Podem p'ra sempre ecoar...
Não voltam, isso é certo,
Mas têm tamanho poder
De fazer ou desfazer,
Afastar ou trazer perto.
E há quem as faz refém
Fazendo tudo promessa,
Também quem as arremessa
Feito pedras, contra alguém.
E não se pode guardá-las
Porque quem fala se esquece,
Nem todo querer é prece.
Talvez por isso, te calas...
Cartas
Eu sinto saudade
Da carta escrita,
Tão leve e bonita
Na simplicidade
Da intimidade
De quem escrevia…
Hoje, todavia,
É brega, passado,
Foi posta de lado
Nesta era fria…
As coisas pequenas
Perderam valor.
Moldaram o amor,
Puseram antenas
E formas obscenas
Nas coisas mais belas…
Ficaram nas telas,
O calor, a vida
A mão não sentida
Nas frases singelas…
Ah, modernidade…
Engoliste cartas,
Fizeste lagartas
Que sem qualidade
E sem humildade
Se julgam normais
(por serem iguais)
Vivendo de abraços,
Sorrisos e laços
Que são virtuais…
Quero viver o que me dá o dia,
Deixar os medos e seguir adiante,
Ouvir os pássaros, ser melodia!
Mas eu desejo também, não obstante,
Que finde a morte minha estadia,
Pois sou no mundo, apenas viajante!
Ah, modernidade…
Engoliste cartas,
Fizeste lagartas
Que sem qualidade
E sem humildade
Se julgam normais
(por serem iguais)
Vivendo de abraços,
Sorrisos e laços
Que são virtuais…
Por dentro, somos ondas num vaivém
Em um mar, no infinito a se estender…
Assim, somos espaço, mar, além…
Às vezes, eu sou tantas num só ser
E por vezes, um corpo sem ninguém…