Meu amor, quando o amor não for teu;
e só o teu amor...
como se a dor do mundo nos teus ombros,
como se os escombros da paixão
farpassem teu coração na dor imensa da desilusão;
o amor não caminha com ansiedade;
amor é uma cidade tão tranquila;
gente bonita na janela,
um milharal, um cajueiro
e a poesia a se banhar num lago cristalino;
o amor é um menino com todo tempo do mundo,
o amor é dono dos horizontes
e do tempo e se não for assim,
é qualquer sentimento, menos amor
X-TUDO
Seja feliz, mas não seja tão feliz,
Tem tanta gente por um triz
Tem tanta gente por um x,
Por um x-tudo, por um cachorro quente
Por um cachorro
Tem tanta gente pra se certificar num raio x
Seja feliz, mas não seja tanto...
Chore de vez em quando,
De vez em quando seja um ser humano...
ÁGUA
Eu acho que estou ficando louco,
Eu acho que estou ficando um pouco
Eu acho que estou ficando é pouco;
Eu acho que não sei pensar,
Eu penso que não sei achar você
Vivi devaneios, sofri bombardeios,
Venci por você a batalha do waterloo;
Mas continuo batido, e você continua intacta
E rir e faz pouco, e me chama de louco
E eu acho tão legal ser louco por você...
Acho tão louco ser normal sem você
E tudo isso me encuca,
Eu acho que estou ficando biruta...
Hoje saí pela rua cantando ébrio de vicente celestino,
Dançando tango argentino, vestido de reverendo
E um inocente menino perguntou-me quem eu era
Eu disse que eu era o unigênito o deus dos exército
Que estava apaixonado por você...
E que você era a sereia, a baleia
Ou qualquer diabo aquático que me ncantou...
Eu já estou falando água,
Eu já estou molhando o papo, eu sou um pato...
Falei tanto e o que eu queria explicar,
Não era bem isso ou talvez fosse
Mas o sentido das coisas se perde no pulsar das emoções
E o senso do que é razão talvez ganhe sentido
Exatamente na essência dessa loucura...
Os dias foram tão cinzentos assim...
ou os momentos de agora perderam o fascínio
que nem percebes a brisa que te acaricia o rosto,
o sol bafejando a pele e os pássaros adornando a manhã?
outras desilusões virão, virão ostros tropeços,
outras lágrimas cairão...
a vida é assim mesmo; mas precisas perceber as coisas belas...
os olhares, os sorrisos, as lágrimas, os abraços, as paixões;
a terra gira sob os teus pés te conduzindo às estações,
a primavera te cobre de flores e frutos e não percebes esse encanto...
diz a tua mãe que a ama...
ao teu pai, ao teu irmão, ao teu filho;
o amor nos torna fortes, resistentes e belos
e as paixões nos consomem, mas ninguém vive sem isso!
O que nos acontece diariamente talvez não seja diário para outros
e a beleza que percebemos,
talvez não seja exatamente beleza para outros olhos,
felicidade é uma coisa subjetiva
e amar talvez não seja um sentimento agradável para todos...
depois disso tudo, nada vai ser diferente
porque ficar olhando as acácias trazia me as mesmas sensações
de perceber tua presença;
o mundo é tão belo quando bela é a forma de percebe-lo.
Acho que é exatamente isso,
se bem que é inexato o modo de percebermos o amor;
mas esta intensidade que me sacode todas as manhãs
quando o teu sorriso dá sentido a vida...
as acácias tem esse tom, essa cor, essa luz...
de repente é tão fácil ser feliz e as pessoas não percebem as manhãs...
ninguém jamais te possuiu assim, eu sei, como sei que um dia você vai ser minha.
REFÉNS
Até que eu entenda a noite
os morcegos ainda se debatem nos últimos raios da tarde
os tons de um cinza moribundo embaçam silhuetas
e nos velórios ainda se constatam
que os olhos dos mortos estão abertos...
os sonetos procuram suas rimas,
sonolento se declinam os poetas
sobre o silencio obsoletos das palavras;
lacônica a eternidade sintetiza um sorriso, um olhar, um aceno;
obscenos desejos que se enlaçam
até que eu entenda a noite
o vampiro crava as presas na jugular da donzela;
os sinos da catedral anunciam um apocalipse,
o inverno se derrama catastrófico sobre a periferia;
até que se entenda a noite
sob a imensa ilusão do que é imensamente ínfimo
no íntimo qualquer paixão derrama estrelas num olhar
até que se entenda a noite
como um véu que nos conduz ao abismo
e seus mistérios que nos mantém reféns da dor e do prazer
GÊNESIS
Deus disse haja luz e a luz se fez...
e Ele separou os dias das noites
nas primeiras manhãs cheias de orvalho, pássaros de flores e de luz,
aquele sentimento de êxtase
diante do tinha criado invadiu seu espírito...
e Ele quis que o homem se sentisse assim
e criou a mulher...
Deus estava apaixonado.
De alguma coisa eu sei...
num quarto escuro
sem portas e sem janelas eu posso ver estrelas,
mas o que caminha assim, por caminhar somente...
se este mundo é tão grande e este monstro é demente
mas afaga o meu olhar nesta escuridão;
sei que poderemos um dia...
se a luz desse universo encaminhar teus passos
e essa sobrevida se sobrepor a este afago...
o que eu não sei... se algum dia eu souber de algo
quero saber da dor de não saber da dor, da dor de não saber...
se eu sei que num quarto escuro
sem portas e sem janelas eu posso ver estrelas...
num horizonte aberto o que saberei se não puder vê-la?
RESSENTIMENTO
antes que eu esqueça,
a enxaqueca de zulu, impertinente me deixava,
nas minhas retinas, os reflexos do sol nos vitrais do edifício;
é difícil... alguém será feliz em algum lugar?
em algum lugar uma razão qualquer
que sustente a nossa fé e nos conserve a razão...
meu amigo Bráulio, eu que sempre lhe dei a mão,
atente para o que digo;
viver é um perigo, nosso único amigo é a solidão
não andei lendo Dante, kafka ou Pessoa,
acho que aprendi a amar sozinho;
sozinho você ama por telepatia,
por telepatia você ama todo mundo,
e os imundos, você manda aos infernos...
Freud explicaria esse meu lado divino
de fazer faxina e dar ao lixo, destino?
parece besteira mas não é brincadeira
como o mau me incomoda; ando tão sozinho,
vivo tão sozinho, mas essa multidão que habita em mim:
Dante, Kafka, Pessoa, Carolina de Jesus
e quem sou eu no meio de tanto sentimento,
tanto ressentimento... eu sufoco este algoz,
tenho que ser alguém melhor... se sou Deus, tenho que ser amor...
ROMANCE DA PEDRA
Se não tivesse a solidez da solidão
porque do solo a aridez lhe fez a ilusão
e derramar-se assim num lago
enfim que algo afim lhe fez lágrima,
pedra de perde-se entre entulho
e que orgulho de obstaculizar caminhos,
nenhum carinho a lhe arremessar às valas
mãos embrutecidas sem noção
exata de viagens no espaço
o que teremos sidos em não topa-las,
em não pisá-las em não percebê-las
jamais saberemos que um dia foram estrelas
Triste eu não fico
Eu dou qualquer motivo pra felicidade
Eu canto uma canção de amor,
Eu planto uma flor, eu faço uma viagem
Que solidão que nada, eu flerto com a lua
Paquero as estrelas até de madrugada...
A minha namorada ainda não é minha
Mas sorrir e se despe enquanto
Caminha suave na minha direção
Nos momentos mágicos das minhas fantasias...
Ou na monotonia da minha solidão
O OLHAR DE DEUS
Dentro de um universo há milhões de universos
e nada é tão claro, nada tão complexo,
Caetano nos diria num sorriso: se não fosse tão explicito...
num olhar de uma criança,
a anta bebendo no rio
ante a ameaça de um crocodilo...
tudo é desafio nesse poema de morte,
algo que comporte a vida
e se a vida é uma estrofe
e cada um de nós somos um universo,
o que seria a poesia
o rio mata a sede da anta, a anta alimenta o rio,
e ante todos os desafios o olhar da criança
é o olhar de Deus harmonizando o universo
Eu ainda não me entendo,
como pedir compreensão;
ainda não me percebo,
como pedir crepúsculos,
ainda não sei o que é amor,
onde e quando o amor faz bem ou mal,
a beleza se perde no fascínio de olhar,
mas perceber e intuir desencanta;
não é a solidão que nos faz sós,
somos nós solitários que fazemos a solidão,
então inventamos os ocasos
e tudo o que é inatingível como o horizonte;
o outro lado do rio é sempre o mais belo,
no outo lado da montanha é onde o sol se põe;
a terra prometida estará sempre
depois de algum deserto...
mas onde estaremos quando percebermos
o deserto que nos habita o ser?
ANDREIA
Deixe baixar a poeira,
Se acomodar os escombros
Se acalmar os assombros,
Aparecerem os ombros,
As lágrimas caírem...
O que somos,
O que fomos,
O que seremos,
O que somamos,
O que moramos
Ou desmoronamos,
Não estamos sós ou estamos,
Mas não somos só cromossomos
Edificaremos...
Não é fácil lavar louça quando eu poderia estar lendo um soneto da Cecília, um poema do Bukowski, qualquer coisa do Drummond... se bem que o tilintar de colheres, facas e garfos é inspirador; a espuma do detergente, o barulho dos pratos, a água caindo... ah, tudo é poesia e isso me transporta pra um horizonte sem limites; eu sou um anjo e condeno os pecados do mundo, mas eu também tenho os meus pecados, esta paixão... esta paixão pela vida; Louis Armstrong sabe de tudo: "what a wonderful world!" que mundo maravilhoso; garfos, facas e colheres tilintam... pratos e panelas são lavados lembrando-me que pessoas se alimentaram, a água cai como cristais lembrando rios e lagos, a poesia é viva e dinâmica; e eu reflito no meu horizonte: os pecadores passam, a paixão nos rejuvenesce e a poesia... a poesia é o ar que você respira, a água que você bebe, é o que te alimenta. Ah, quem vive sem poesia?
O SILENCIO
O silencio se impõe
Quando as palavras pensam que foram sucintas
E os sentimentos que fonemas não traduzem,
O silencio conserva...
Os poemas das dores dormem durante os olhares
Que buscam uma explicação para a emoção
Que as palavras não conseguem explicar,
O silencio conserva essa emoção silenciosamente;
Esse poema de vagalumes, grilos e brisas só a alma percebe;
Os montes se erguem majestosos para colherem ocasos
E o silencio está ali divino e materializado...
É este poema que inspira a todos os poetas: o silêncio.
Só vive na solidão quem já amou,
quem nunca amou é apenas solitário,
e isso não dói...
só sabe o que é amargo quem já provou o doce,
quem nunca provou não sabe de sabores;
então o que é felicidade...
felicidade é esse gosto amargo
de saber que já foi feliz um dia...
e isso dói
então, nunca seremos felizes?
seremos... com netos, rugas e cabelos brancos...
mas isto é inexplicável...
Sabe, não sou o que se sabe por aí...
melhor nem saber
mas se o mundo se acabar
eu vou me equilibrar na linha do horizonte
entre o absurdo e o navegável
como as ilusões...
Na barrenta Joaquim Cardoso, aquele garoto, pés descalços...
Fotografava nas pupilas as saudades de então...
E entre todos os percalços, as doces lembranças
Um saquinho de doces de Cosme e Damião
Para uma criança é tão fácil ter felicidade,
E entre bombons, cocadas e pirulitos eu saboreio este sentimento
Essas recordações me conduzem nas agruras da terceira idade,
E me adoçam até hoje, a existência em qualquer momento
Os fantasmas se soltam do sótão
As borboletas e as flores da primavera somem,
As noites se alongam e o que é real
Além do que é real e além do que não é
Os loucos construíram o paraíso e criaram os deuses
Tentando entender a dor
Eu criei um hospício onde os loucos arremessam estrelas
Escorregam do arco-íris e voam com as borboletas
Sobre uma plantação de alfazema
Não quero nunca mais entender o amor,
Não devo nunca mais acreditar nos deuses;
E as manhãs, deverei vivê-las sempre,
Mesmo que sejam sempre só uma utopia
E amar com toda dor que eu suportar
E suportar a dor com todo amor do meu querer
Os deuses inventaram o amor
Os loucos inventaram os deuses
E eu invento eu mesmo pelos corredores de paredes úmidas
Dos que já choraram, ou pelos que, das esquinas sombrias
Contemplam a lua na ilusão do perfeito amor