o poeta pode enganar-se
ele é um Homem livre.
aprendeu a não ser vítima
daquilo por que sofre.
sabe que a dor é só um sinal
o acelerador da mudança
que só não vê, nela, esperança
quem desistiu de ser livre
todo o Homem será um poeta
sempre que lute pela liberdade.
e um dia, também eu serei livre
também eu poderei enganar-me
e se eu hoje pudesse
ser o que quisesse
seria tudo, num beijo
sem mãos, nem chão
sem corpo que se perdesse.
apenas beijo
num desejo profundo
inebriante e tão fundo
que nem ver, se visse.
como se enfim, sentir-se
fosse o único meio
fosse o fim supremo
Ah, se eu hoje pudesse
há um vendaval iminente
em cada passo que te aproxima
um arrepio que a pele sublima
nessa espera por ti urgente
nesse ar teu que faz do clima
um ranger gemido e quente
suave sentir roçar do ventre
como só o mimo toca e mima
ah, o desespero de quem te sente
nesse vendaval que se aproxima
sem saber como se prende
se por entre por baixo ou por cima
este vendaval que demente me fustiga
como quem beija impunemente
a melhor parte de ti ausente
é poder sentir-te
é ter-te como te sinto iminente
a um passo de mim respirar-te
é como num trilho seguir-te
em suaves tons tocar-te
da boca ao ventre inventar-te
na exuberância das cores possuir-te
como lubrica a noite é de repente
a um suspiro que ai se evapora
sinto este corpo gemido e dormente
sem tempo sem culpa ou demora
ter-te assim tão iminente
nesta ausência que me devora