O mundo é uma escola
Venezianas fechadas.
Noite sombria.
O vento sopra gélidas lufadas.
Toda a casa cheia de nada.
Queria poder o passado apagar.
Da lama que me suja me limpar.
Cresci rápido demais.
E não, não há como voltar atrás.
Poeira a tudo sufocar
Cheiro de mofo no ar.
A casa (des)nudada...
Portas fechadas, desnorteadas.
Tremem de frio.
O mundo é uma escola
E ninguém dá cola.
Tive de crescer.
E cresci rápido demais.
Às vezes, lembrar dói.
Magoa... faz sofrer.
Vontade louca de correr e correr.
Pra trás a tristeza deixar
Viver um eterno ressonar.
Um passado descolorido
Uma luz frouxa
pra trás tão no pretérito abandonado.
Sonho louco.
Olho-me no espelho.
Olhar magoado.
Vejo marcas e machucados.
Cicatrizes feias e fundas.
A vida tem estado
– no que se refere a mim –
o tempo todo nas mãos com um relho.
Identidade
Amanhece
em mim um corpo insone
sou uma ave sem nome
nem sobrenome…
voa na branca manhã aclareada
bate as asas devagar em meio à bruma fria
sozinha
rasgando o céu
sem destino certo
voa por ares incertos…
sente-se rainha.
Brinde hoje!
Brinde hoje!
Brinde ao dia que nasceu…
Ao Sol que atrás da nuvens não se escondeu.
Brinde ao amor que de braços abertos te recebeu…
e com carinho e ternura te acolheu.
Brinde à vida!
Não está sendo fácil?
Brinde… brinde à vida!!!
Porque as coisas fáceis não têm graça alguma…
Um brinde, então… um brinde…
com muita espuma!
Eu tento
Eu tento parecer normal.
Mas o que dissimulo é totalmente anormal.
Eu tento não parecer insana.
Mas minha insanidade beira o caos.
Eu tento ser forte e firme.
Mas medo é o que me define.
Eu tento ser a rosa de alguém.
Meus espinhos ferem a toda a gente, porém.
Eu tento... tento... e tento.
E de tentativa em tentativa,
loucamente,
eu vou morrendo.
Eu tentei... eu tentei.
Aquela lembrança
Retornou como um antigo erro aquela lembrança.
Corri pela areia da praia para esquecê-la.
Coloquei óculos escuros para não vê-la
Mergulhei no mar para afogá-la.
Redimensionei-me.
Fiz-me pequena...
Corpo decomposto...
Fiz tudo o que podia pra daquela lembrança não sentir mais o gosto.
Retornou... simplesmente retornou.
e fustigou-me.
Menina mulher
Cheia de sonhos.
Combatia a realidade
Menina mulher
Metade no balanço da pracinha.
Outra metade se vira sozinha.
Tem um tanto de delicadeza.
Outro tanto de incivilidade.
Às vezes é guerra... às vezes é paz.
Metade é o que todo mundo vê...
Outra metade só ela mesma sabe o que faz.
Há nela cicatrizes.
Também sorrisos nela há.
Metade dela é vozerio.
Outra metade silêncio.
Uma parte é desiquilíbrio.
Outra... está em cima de um fio.
Amo-te!
Amo-te ‘quanto alto, largo e profundo’
minh’alma pode alcançar.
Amo-te do começo ao fim do mundo.
Amo-te ao quanto o infinito pode chegar.
Amo-te a cada momento do dia.
Amo-te à luz do sol…
Amo-te à luz do luar.
Amo-te todos os dias… do sol se pôr ao novo dia acabar.
Amo-te tanto, meu amor
Amo-te como amiga.
Amo-te como amante.
Amo-te por toda a ‘eternidade e de instante a instante’.
Sou prosa... sou poesia
No silêncio da madrugada sou o caos e a bonança.
Sufocada por nova crise.
Dormindo feito criança.
Ora tempestade… ora calmaria.
Às vezes sou chuva tensa… chuva densa.
Às vezes sou sereno o mais sereno.
Sou alegria.
Sou melancolia,
Ora sou paz total.
Ora, guerra mortal.
Sou prosa… sou poesia.
Nesse mar de variação… vivo inteira o meu dia a dia…
Itinerante
Itinerante... percorro o mundo.
Mero vagamundo vagabundo...
Uma próxima jornada está prestes a acontecer...
Tudo o que vai ser simplesmente vai ser.
...
Perdas e danos você causou...
Gélida... glacial.
Insensível... indiferente.
Como se eu fosse invisível...
Diante de minha dor ficou impassível.
...
Amor perdido... confundido.
Unilateralmente sentido.
Tudo o que vai ser... vai ser distante.. errante
... de mim nunca mais nada você vai saber.
...
É inútil tentar escrever a própria vida palavra por palavra?
Terá o destino sempre a última palavra?
Saudades
A tarde passa lentamente.
O dia aninha-se nos braços da noite.
Pássaros cantam sem tanto alarde.
E eu... eu apenas contemplo.
Não há mais lamento
Tu te foste...
Outros braços te abraçam
E eu sorrio... sonho:
são os meus lábios que sentes
é o meu calor que te aquece...
Tu, de mim, jamais te esqueces.
Sonho... aos poucos umas lágrimas rolam dos meus olhos...
Silenciosamente... Sinto saudades.
Solitário
Como um lobo solitário
vago pelas ruas da cidade.
As estrelas, à noite, são meu guia.
O vento, durante o dia.
Becos sem saídas.
Esquinas apontam nenhum lado.
Caminhos errados.
Um cão abandonado.
Memórias de memórias.
Sentimentos no passado afogados.
Falta-me identidade.
Este deserto em que estou não é um lugar definitivo.
Estou de passagem.
E, enquanto nele estou, aproveito a paisagem...
Mas... não só.
Nele aprendo que tudo é e não é.
Nele descubro o que é necessário
e o que desnecessário é.
Nele me vejo em miragens.
Há fantasias... e utopias.
Nele me dou o direito de transformar sonhos em realidade...
e também de vê-los como meras alegorias...
Nele me alimento de suor e lágrimas.
Nele deixo-me reflorescer como os brancos e perfumados lírios.
Nele vejo um céu mil vezes mais estrelado.
Nele misturo certo o que parece errado.
Nele o turvo é desnublado.
Dos pequenos restos que de mim restam resta quase nada.
... só o tempo de uma jornada.
Meu deserto é o tempo e espaço de uma parada... é chuva de areia que minh’alma branqueia.
Me refaço
Volta e meia entro nesta escuridão.
O dia que não se faz jamais dia.
A noite que se repete livre pra ser noite todo dia.
Eu sei que vale a pena... esse vale da morte.
Desafios, incompreensões, períodos de crise...
Fatalidade do destino: perder meu tino.
Vai secando o meu mar...
Estou prestes a me afogar... no desespero e confusão... dessa profusão de tristeza.
Mas eu dou a volta por cima... volta e meia respiro o ar viciado ao meu redor
e me liberto... um novo balão de oxigênio... um riso belo de aconchego... a certeza da tua beleza.
Tal Fênix... renasço... assopro as cinzas pra longe...
Dos laços me desfaço.
Faço-me nova...
Mais uma vez minha vida se renova.
De gota em gota me refaço.
Sigo... eu consigo
Só tenho de continuar respirando
Tal náufrago tenho de continuar tentando.
Ondas me submergem.
Nada à vista.
Mas também não há lugar pra ir.
Perambulo.
Na próxima esquina o escuro.
Nada do outro lado do muro.
Ruas desertas.
Sentidos em alerta.
Titubeio... vacilo... hesito
Ondas de frio me submergem.
Lembranças me consomem.
Por que o amor vem... e some?
Visões de oásis...
Sonhos vãos?
Nada é em vão...
Sigo.
Um porto seguro...
Alguém trará amanhã consigo?
Amanhã o sol vai nascer...
Quem sabe o que a maré vai me trazer?
Sigo...
...
consigo!
Percepção
A sensação era de estar desperta...
Alerta!
Mas, na verdade, devia de sonambulismo constante sofrer.
O Sol não tinha o calor do verão...
parecia ter continuado a dormir depois de o inverno ter chegado ao fim.
Fazia frio...
Mas a fria sensação não a fazia tremer
Parecia não haver nada a temer.
Nada a atemorizar, nada a exorcizar.
Seus demônios eram só seus...
Na sua sonolência desperta...
Ou no seu despertar sonolento...
Ah! tanto faz...
de continuar do jeito que estava pela eternidade era capaz.
Nunca acordava totalmente... vivia um pouco dormente... em estado latente... demente.
Não via luz nenhuma no fim do túnel.
Não se sentia membro da raça humana.
Então continuava... do jeito que estava... continuava...
Mas... de vez em quando... não aguentava, meio que se revoltava...
... e chorava.
Who cares?
Deserto
Atravesso desertos fora de mim.
Não encontro oásis no recôndito de minha alma.
Deserto incerto...
Nada é proporcional.
Miragens de mim.
Desejo intencional.
Deste-me um beijo.
Disseste-me adeus.
Gosto amargo e seco.
Tempestade de areia.
Uma serpente serpenteia.
Grito em silêncio.
Ecos num vazio amargurado...
Tudo desajustado.
Oásis embaciado.
Deixe-me
Deixe-me, como a noite deixa o dia...
Nas trevas, na escuridão total... quando nada mais reluz.
O Sol mergulha na fenda do horizonte.
Engole, a noite, todos os raios da mais ínfima luz.
Cobre-se com a escuridão o céu.
A noite... o dia seduz.
Deixe-me...
Prefiro a escuridão da solidão.
Prefiro a dor da verdade escancarada
das tristes, frias e vazias madrugadas.
Deixe-me...
Apenas... deixe-me.
Eu sei me virar sozinha.
Eu sei lidar com a perda.
Eu sei trancar a porta...
Apagar as luzes... artificiais...
Entrar no quarto e ficar quietinha...
Chorar baixinho...
Já me convenci a viver bem... sem o seu carinho.
Aprendi a viver na falta
de luz
de calor
do seu amor...
...só não aprendi, como a noite, a acreditar na mentirosa luz das estrelas.
Um pouco de felicidade
Tento segurar com as mãos um pouco de felicidade...
Mas tudo são saudades.
Passam em minha mente filmes de nossa trajetória... nossa história.
Falas eternizadas no passado
Ruídos arrastados.
Voos de esperança
que vem como ondas do mar...
Espero com toda a esperança que um dia voltes a me amar.
Meus sonhos
Coração machucado
dentro do peito
bate descompassado.
É tu que lá vens.
Guerreiro sem escudo
Bate forte... mantém-se mudo.
É tu que lá vens.
Coração magoado
chora baixinho
ama grande
se faz pequenininho.
É tu que lá vens.
Machucar mais meu coração...
Faz isso não...
Vá embora, mas vá pra sempre
Diga adeus definitivamente
Não volte nos meus sonhos
Se eles não são mais os teus.
Sua falta dói
Um caminhar solitário
é o que sobrou pra mim.
Dias sem calor
são apenas dias sem seu amor.
Um triste abandono.
Cão sem dono.
Coração tosco e pobre.
Sente saudades... se fecha e de dor se cobre.
Machucado.
Demora tanto pra ser curado.
Despedida eterna
Uma dura concha de indiferença se formou sobre minhas emoções...
Esse o resultado de tua passagem pela minha vida.
Os girassóis deixaram de acompanhar o Sol em seu caminho...
E ele agora segue sozinho.
Meu sorriso se apagou
Como apaga as pisadas na areia a onda que pela praia solitária vagueia.
Evito lugares desconhecidos.
Evito lugares já idos.
Evito acordar de manhã.
Evito dormir quando a noite chega.
Estou em suspensão...
Em nada me envolvo com paixão...
Submerjo... não absorvo... nada pra vida devolvo...
Sou eterna interrupção.
Só teima em continuar a bater batidas novas meu coração.
Tua passagem pela minha vida...
Eterna despedida.
Fim
Lágrimas brotavam dos meus olhos perdidos.
Os olhos transbordados não conseguiam mais contê-las.
O sofrimento escorria pelas mãos...
Ensina a decepção... mas machuca o coração.
Muito mais a noite se fazia noite...
O tempo era-me um eterno açoite.
Afastava-me de ti...
que eu só queria que estivesse aqui.
Mas o tempo cura... não é isso?
Dias e noites passaram...
O tempo passou...
A dor o tempo curou... e o amor acabou.
Tenho-te em mim
Tenho-te no olhar.
Sem qualquer outra intenção que te amar,
visto-me de ti.
Tenho-te no coração.
Por mais que eu estenda minha mão não consigo te tocar.
Estás tatuado em mim.
Em mim é teu lugar.
Por que vives a te mudar?