O VERBO POETA
Nasceu, conjugou-se, amor
Em tudo que há de perfeito infinito
Na voz, n’alma; n’um só grito
Criou-se d’estrela esplendor...
Mas por nuvens escuras chorou
Triste, desdenhado, restrito:
Poeta de amor aos versos bonito
Que ao cantar, sorriu e amou...
Mas antes que não fosse o chorar,
Quais luas que veria profundo?
Se n’alma que não fosse o sofrer,
O que seria o cantar neste mundo?
De qual verbo seria o amar
Se o amor é cantar, e chorar, e viver...
NOITE MORTA
Nesta noite angustiante que aqui estou,
Lembro-me todas as coisas ditas por ela
Naquela voz fina, naquela voz bela...
Todos aqueles instantes em mim ficou.
Amo-te tanto porque tanto me amou...
Naquela noite fria de uma luz tão singela,
Que era o clarão da lua ao entrar a janela
Iluminando aquele instante, que parou...
Ao tempo, minha bela, de voz alta...
Todos aqueles momentos, que me falta
Quero gritar ao mundo o que era meu!
Mas como estrangular contentamento
Se não tenho o seu amor, neste momento
O sonho daquela noite em mim morreu!
SENTIMENTOS SÓRDIDOS
Eu sou a sensibilidade dos teus sentidos,
O abortamento da tua inaudível paixão;
O alento que fita a tua alma da solidão,
E os teus mais tensos sentimentos vividos.
Eu sou a tua escolha de fardos erguidos,
O amor, o fogo, a chama de teu coração;
A dor que não dói, sou a tua ilusão...
Os prazeres que por ti serão consumidos.
Eu sou o teu querer e os teus encantos,
Os teus momentos, eu sou teus prantos,
A tua alegria, a tua esperança e o teu viver...
Mas quem vive e sente também sonha,
No entanto, sou também a tua artimanha
De amar e amar pra não se perder...
SER AMIGO
Ser amigo é ser verdadeiro,
É ser infante, mas inteiramente,
É entregar a alma por inteiro,
É desvendar o amor independente.
É dividir lealdade e ser o primeiro,
É doar, oferecer-se completamente,
É ser a flecha de um arqueiro,
É almejar o afeto que não mente.
Ser amigo é ser coração,
É amar com alegria e com paixão,
É ser verdade, até mesmo na dor.
Sem um amigo, nada se tem,
Nem mesmo uma causa que faz bem,
Porque ama... Com tanto pudor!
TUAS VERDADES
Eu sou a inspiração viva do teu amor...
Sou a chama que queima em teu coração.
Eu sou a vida, a luz, a alma da tua paixão,
Sou teu perfume, o suor, sou teu calor...
Eu sou o teu desejo de tão vivo fulgor...
Sou as tuas saudades do amor ardente...
Eu sou a tua aflição, sou teu beijo quente,
Sou a tua harmonia e seu pranto sem dor.
Eu sou o teu mar de tempestade alta...
Sou a tua fonte de água pura que não falta,
Sou os sentimentos que te fazem chorar...
Eu sou a ilusão que tão pouco importa...
Sou a solidão que em ti não tem porta...
Porque sou as verdades, que te fazem amar!
AMOR ROUBADO
− Viúva-negra
Eu só tentei te esconder da chuva,
Levando-a abraçada comigo...
Fiz dos meus braços teu abrigo,
Tal como a sombrite cobre a uva...
E da tua mão molhada tirei a luva,
Que encharcada era um perigo...
Defrontei-me com um anel antigo,
Tal como fosse de uma viúva...
De repente, do céu veio a calmaria
E o meu amor ardente você levou
Junto à tempestade que caía...
Secou... O meu coração você secou!
Agora só sei sair pela noite vazia...
À procura da paixão que me roubou.
ANTES DO SOL SE PÔR
Hoje, eu venho aqui por lhe dizer
O que sente o meu coração,
Mas amor, não tentes entender
A minha louca e vultosa paixão...
“Assim como é o sol o seu clarão,
Assim como é a lua o seu luzir,
Tu és o meu amor em existir,
Tu és o meu amor à devassidão...
Pregado à cruz do meu caminho,
Tu és a minha plena felicidade...
E como é o lírio entre os espinhos,
Tu és em mim, à densa claridade...
E dentre as trevas é o meu ninho,
Assim como é dos céus a eternidade.”
ALMA PERFEITA
Se eu pudesse ser
Cada sentir de teus desejos,
O calor que sai de teus beijos,
A emoção que te faz viver...
Se eu pudesse ser
O pulsar de seu coração,
O teu sangue quente, em expansão...
Que a si se faz exceder!
Se eu pudesse ser
A tua magia e o teu encanto,
A paixão, que em ti és tanto,
O afeto, que não te faz perecer!
Se eu pudesse ser
Só em ti, a tua alma pura,
Tão meiga, oh, bela criatura,
Por amor, jamais iria sofrer!
DIGA-ME, AMOR...
Como posso amar assim como eu te amo
Que amor é esse a me perder
Esqueço tudo nem me lembro do engano
Que o amor pode a gente envolver...
Que paixão é essa que me faz
Te procurar o tempo todo e não desfaz
A vontade louca de te amar...
Tanta coisa me disfarça sem que a dor
Consigo disfarçar por tua ausência
Como eu te amo assim com tão primor
Se nem viver por mim é tua essência...
Amor, quero te dizer que neste mundo
Eu nunca amei alguém assim igual
Meu coração jamais pulsou tão profundo
Como pulsa ao teu amor não é normal...
Que amor é esse a me perder
Esqueço tudo nem me lembro do engano
Que o amor pode a gente envolver
Como posso amar assim como eu te amo...
RESPOSTA
Nos meus dias de tristeza, nesta esfera,
Neste globo santo de vida e de morte,
Pareço-me uma praga vinda do norte,
Qual uma folha seca que o frio dilacera...
Uma alma bendita, mas posto numa era
Em que nos dias todo sofre tão forte,
E que vive a buscar as mantas da sorte
Do Deus que te veste, e voltar te espera!
Estão longe de mim às frases benditas,
As que aos meus olhos são infinitas...
As que no meu coração só rogam amor!
As minhas noites são frias, são mortas...
Será que a mim Deus fechou as portas?
“Espero-te, meu filho”, respondeu o Senhor.
CASTIDADE
Fizeste de mim um arrebol bendito,
Do meu amor um feitiço imaculado...
Da minh’alma de crença o pecado
Fez-se de paixão um cerne erudito...
Fizeste de meu corpo teu bem restrito
Abrasado ao perfume de seu andado...
E do meu sentimento, conspirado,
Notou-me em versos teu feito infinito...
O meu espírito se mantém acesso,
Desde outrora ao notado em que nasci,
Desde que eu vivo a desventurar...
Que sol que nasce, em que sol avesso,
Em que casto tempo, em qual vivi,
Em qual vida, amor, vou te encontrar...
SONETO DA RAZÃO
Nesta vida de pressentimento altivo,
Elevado e ardente como a chama,
Que aos desejos incendeia e ama,
É por teu prazer que o amor cativo...
E neste sentimento insano, explosivo,
Que de ardor te deseja insana,
Endoidecida, a minha voz que clama,
É por tua espera que sonho e vivo...
Que bem, de paixão tanta, fosse à lua...
Mas, amor, que vivo pr’alma tua,
Que é de mim toda razão nesta vida!...
E, por antes, que não fosse à loucura...
Pois, que te vivo a desventura...
Mas, seja o amor como for, é a lida!
MAIS QUE AMAR
Qual amor eu sinto
Se não o que vem de você
Em mim nada mais
Será tão forte em dizer...
Este sentimento, esta paz
Ninguém mais me terá
Quais vêm de você
Não poderão encontrar...
Além de tudo o que sou
Este amor é maior que o mar
Maior que todos os astros
Que paixão e desejo
Mais que o sol a queimar...
Por tantos caminhos andei
Tanta dor eu senti
E além dos sonhos busquei
O teu amor pra amar...
Agora em você renasci
Como renasce o sol e o luar
São duas vidas de amor
Que todos sentem viver...
Dois astros no mundo
De amor imenso e profundo
Tão mais eu sinto em você...
NO CAMINHO DE UM AMOR
Aqui tu passaste numa hora viva do amor,
Invocando os meus profundos sentimentos...
Aqui tu passaste sem trevas e sem dor,
Aprofundando, em mim, os teus momentos.
Aqui tu passaste e deixaste o teu furor...
Tão quente, tão vivo, nos meus pensamentos...
Aqui tu passaste tão viva no teu esplendor,
Que não pude conter os teus movimentos!
Tão ledo, fraco, confuso nos teus encantos...
Minha alma, por te amar, esquece os prantos,
Esquece a noite, ao véu do dia, pra te envolver.
E se minhas noites por ti não tem cansaços...
Sim, quero envolver-te sobre os meus braços
Pra cantar a vida, na hora viva do teu querer!
LOUCO
Deste acaso imprecado sem razão,
Em que eu vivo a desventura,
Tudo é pálido, é morto, tudo é vão
Dentre a minh’alma intensa e dura!
Não me há sentimento de ilusão
Neste transbordar de tortura...
Que já inventivo à solidão
Transpõe os meus olhos e perdura...
Eu já tanto sinto esse compasso,
Que já me é amor, que já é laço,
Que já me é tormento de conforto!
E deste blasfemo que vence a morte,
Que sorrio pela vida, desta sorte,
Já me sou de afeto intenso e absorto...
A MINHA DESGRAÇA
O mais alto entre os abutres! Vão
De amor e ódio, descontente...
Sem luz, sem nada... ao sol poente
Flamejando em mágoas o coração...
O mais alto! Um fantasma ao chão
Rastejando em labirintos, dolente
Ao seu orgulho, e, unicamente
Qual um blasfemado sem paixão...
Um mar morto, uma estrela caída...
O mais vil, de aflição, sem lida,
No vozear de mais um são-pecador!
Sem vigor, e desgraçado, e triste...
D’olhos fechados, que à dor persiste,
No amar sem vida o próprio amor!
O MESMO BEM
Por onde andei... amigo, cantando...
Nada de mal encontrei comigo!
Pois, por onde passei fui edificando
O amor, que agora, divido contigo!
Nesta canção que te canto exaltando,
Trago-te aos pés descalços abrigo!
Ao coração o sorriso espelhando
O mesmo bem, que me tens, consigo!
E, cantemos ao mundo assim: veja,
A vida se traça quando se deseja
O melhor perfume as mãos amigas...
Pois, o mal invejoso desencontrado
Tende a morrer por se querer elevado
O amor de graças e de belas cantigas...
OLHAR ATEU
Tão lindos eram aqueles olhos, meu Deus!
Eram estrelas cintilando luzes de pecado...
Tão trêmulos ficavam ao mirar os meus...
Que desviavam, do meu olhar aparelhado.
Tão linda era aquela face de olhares ateus!
Tinha a fronte desenhada, e lábio acetinado.
Tinha à boca o mel, na voz não tinha adeus...
Era canção viva, pura, de som edenizado!
O corpo era escultura de curvas desenhadas...
Os seios eram montes, das pombas embaladas.
Um anjo, uma donzela, a vagar a luz do dia!
Que eu a venha mirar nos olhos novamente...
Se for pra me perder, far-me-ei de contente...
Já que amá-la, meu Deus, é a minha fantasia!
AMOR DE NÓS DOIS
Que ao te encontrar seja assim
Que seja amor pra você e pra mim
Que por fim nessa estrada
Seja eu teu amor e você minha amada
A cantar, a chorar e sorrir
E no sofrer do amar e viver
Que nos seja um prazer de existir...
Que ao te amar você possa querer
Que eu volte a encontrar você
E que este amor que insiste
Seja entre nós um amor de verdade
E que de imensa saudade
Possa chorar sem ser triste...
E no lembrar do depois
No passar desta vida
Que a melhor coisa cumprida
Seja o amor de nós dois...
NOS TEUS ANSEIOS
Eu quero tuas horas tristes e sozinhas
Tão pedinte de amor e noites quentes,
De orgias marcadas, beijos ardentes...
A saciar as infantes vontades minhas...
Eu quero aqueles desejos que tinhas...
Nos meus iguais momentos eloquentes
Onde pregava as insônias dormentes
Na manhã rara do dia que nos vinha...
Tantos instantes perdidos e largados...
Tantas indiferenças, amores amarrados
Pelos enganos que o coração fantasia!
Mas eu hei de ter as tuas horas puras...
E ser dos anseios todos que procuras
O verdadeiro amor a juntar-te um dia!
SE TUDO NÃO FOSSE SONHO
Se tudo pudesse ser
Do jeito que é agora,
Do jeito em que me devora
Com tanta ânsia assim...
Se tudo fosse a você
O amor louco que me têm,
O amor que te contêm
Dentro d’alma pra mim...
Seria infinita a paixão,
Seria sem saudade ou ilusão
A forma louca d’eu te amar.
(Se tudo não fosse sonho)
O amor que te disponho,
Eu não mais queria acordar.
MEU PRECIOSO AMOR
Vem, amor, para quem te ama tanto!
Para quem não sabe mais o que fazer,
Nem mesmo sabe mais ficar sem ter
Os teus sorrisos belos e o teu encanto...
Vem, que te desejo não sabes o quanto,
Vivo por tua paixão, por teu querer...
Sim, amor, sonho e vivo por teu viver,
Sou da tua canção o teu vultoso pranto!
Choro e canto, mas a chorar sem dor...
Na face escorres as lágrimas de amor,
Por tão humilde alma que há em mim!
Tu és da minha vida o tudo que já amei,
A essência mais rara que tanto esperei
Estar aprisionada no meu amor sem fim!
NAS ERAS D’ ELA
Estrela dos meus céus e dos meus delírios,
Fonte de meus desejos e da minha paixão,
Flor que entre os espinhos me reluz os lírios,
Vida de minha vida e do meu coração...
Lua de cor plena, luz dos meus martírios...
Água de minha sede a me banhar as mãos,
Anciã dos meus pecados e dos meus satírios,
Eis a minh’alma em sua imensidão...
Fazeis d’ela unção, que de mim és santificada.
Oh rosa de acalanto e amortalhada,
Amor de meus amores aos céus perdidos...
Vida que me és estrela aos sonhos loucos
Nada te és em vão, nem tempos são cavoucos,
Eis que n’outro ressurge o teu amor antigo...
POESIA ELEITA
Donde vem esta beleza tão rara?
Que é o oiro da alvorada que deita,
Na noite é o clarão da lua que para,
Na face de olhos à boca perfeita!
É do mar o azul que o céu depara,
Da voz o deleite d’uma poesia eleita,
Uma canção que da alma dispara
Na manhã clara, que a vida rejeita!
É a ambição, os desejos e loucuras
Ao ansiar das fontes as águas puras
Nas melodias dos cantos que têm!
Donde tu vens tens amor infinito?
Pois tu mais me pareces um mito
Dos olhos sofredores d’um alguém!