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Frases de Olavo de Carvalho

1.382 frases

Desde logo, os atributos de justiça e injustiça só se aplicam aos entes reais capazes de agir. Um ser humano pode agir, uma empresa pode agir, um grupo político pode agir, mas 'a sociedade', como um todo, não pode. Toda ação subentende a unidade da intenção que a determina, e nen…
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Desde logo, os atributos de justiça e injustiça só se aplicam aos entes reais capazes de agir. Um ser humano pode agir, uma empresa pode agir, um grupo político pode agir, mas 'a sociedade', como um todo, não pode. Toda ação subentende a unidade da intenção que a determina, e nenhuma sociedade chega a ter jamais uma unidade de intenções que justifique apontá-la como sujeito concreto de uma ação determinada. A sociedade, como tal, não é um agente: é o terreno, a moldura onde as ações de milhares de agentes, movidos por intenções diversas, produzem resultados que não correspondem integralmente nem mesmo às intenções deles, quanto mais às de um ente genérico chamado 'a sociedade'! 'Sociedade justa' não é portanto um conceito descritivo. É uma figura de linguagem, uma metonímia. Por isso mesmo, tem necessariamente uma multiplicidade de sentidos que se superpõem e se mesclam numa confusão indeslindável, que basta para explicar por que os maiores crimes e injustiças do mundo foram praticados, precisamente, em nome da 'sociedade justa'. [...] Se algum significado substantivo pode ter a expressão 'sociedade justa', é o de uma sociedade onde os diversos agentes têm meios e disposição para ajudar uns aos outros a evitar atos injustos ou a repará-los quando não puderam ser evitados. Sociedade justa, no fim das contas, significa apenas uma sociedade onde a luta pela justiça é possível. 'Meios' quer dizer: poder. Poder legal, decerto, mas não só isso: se você não tem meios econômicos, políticos e culturais de fazer valer a justiça, pouco adianta a lei estar do seu lado. [...] Na medida em que a expressão 'sociedade justa' pode se transmutar de figura de linguagem em conceito descritivo viável, torna-se claro que uma realidade correspondente a esse conceito só pode existir como obra de um povo dotado de iniciativa e criatividade – um povo cujos atos e empreendimentos sejam variados, inéditos e criativos o bastante para que não possam ser controlados por nenhuma elite, seja de oligarcas acomodados, seja de revolucionários ávidos de poder.

Nenhum acontecimento, por mínimo que seja, pode se produzir sem que um número indefinido de acidentes faça convergir para o preciso momento e o preciso lugar em que ele se manifesta as inumeráveis linhas de causas e condições que sustentam sua manifestação. O acontecimento assim…
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Nenhum acontecimento, por mínimo que seja, pode se produzir sem que um número indefinido de acidentes faça convergir para o preciso momento e o preciso lugar em que ele se manifesta as inumeráveis linhas de causas e condições que sustentam sua manifestação. O acontecimento assim considerado denomina-se fato concreto. Concreto vem de cum+crescior, designando o crescimento concomitante e convergente desses vários fatores causais. Uma das tarefas essenciais da filosofia é preparar o fato concreto para exame científico, discernindo nele os vários pontos de vista possíveis e julgando-os segundo sua maior ou menor validade em função dos diversos interesses cognitivos. Sem essa depuração, sugestões mais ou menos implícitas na narrativa se filtrarão subrepticiamente para dentro enfoque científico adotado, maculando a pureza de linhas do objeto abstrato e invalidando as conclusões obtidas de seu estudo. Toda narrativa de fato concreto é 'poética', no sentido de operar nele um primeiro recorte que não é definido por nenhum interesse cognitivo posterior mas segundo o próprio impacto imediato do acontecimento, considerado enquanto massa de informações e reações vivenciada como experiência humana real. Seja em torno das crenças, seja dos fatos mesmos, pode acumular-se uma massa de opiniões ao menos aparentemente incompatíveis, derivadas do exame do fato desde interesses cognitivos diversos e não articulados uns com os outros. Quando a acumulação dessa massa atinge o ponto crítico, isto é, quando as diversas crenças se tornaram fatos e a acumulação desses fatos toma a forma de um conflito geral, a necessidade de articular racionalmente os diversos pontos de vista (e respectivos interesses cognitivos), para transcendê-los num ponto de vista abrangente capaz de dar conta de todos e arbitrá-los, este é precisamente o momento da entrada em cena do filósofo. O filósofo procede ao exame dialético da massa de opiniões, mas não o faz com propósito puramente dialético (impugnar racionalmente esta ou aquela opinião), mas com o propósito de fazer dela, mediante sucessivas depurações dialéticas das crenças envolvidas, um objeto possível de demonstração científica.

A sorte dos psicopatas é que as pessoas normais em geral não acreditam que existam seres humanos tão maus. Todos os vírus e bactérias, somados, não fazem tanto mal à humanidade quanto um único idiota embalado na ilusão de que tem as soluções para todos os problemas do mundo. Os…
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A sorte dos psicopatas é que as pessoas normais em geral não acreditam que existam seres humanos tão maus. Todos os vírus e bactérias, somados, não fazem tanto mal à humanidade quanto um único idiota embalado na ilusão de que tem as soluções para todos os problemas do mundo. Os que gritam 'Um outro mundo é possível' deveriam ir para lá e nos deixar em paz neste aqui.

A função do governo não é resolver problemas. É renunciar aos meios de criá-los. Nenhum governo jamais educou a população. Quando se mete na área, é só para reduzir a educação à propaganda. As universidades surgiram como associações de estudantes, que livremente escolhiam e con…
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A função do governo não é resolver problemas. É renunciar aos meios de criá-los. Nenhum governo jamais educou a população. Quando se mete na área, é só para reduzir a educação à propaganda. As universidades surgiram como associações de estudantes, que livremente escolhiam e contratavam seus professores. As grandes forças educadoras da humanidade são: (a) as mães; (b) as igrejas; (c) os intelectuais criativos; (d) a livre associação dos interessados em educar-se. O resto é comedeira e manipulação.

Liberal education é, para resumir, a educação da mente para os debates culturais e cívicos mediante a leitura meditada dos clássicos. Acabo de escrever esta palavra, 'clássicos', e já vejo que não sou compreendido. A falta de uma liberal education dá a esse termo a acepção estrit…
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Liberal education é, para resumir, a educação da mente para os debates culturais e cívicos mediante a leitura meditada dos clássicos. Acabo de escrever esta palavra, 'clássicos', e já vejo que não sou compreendido. A falta de uma liberal education dá a esse termo a acepção estrita de obras literárias famosas e antigas, lidas por lazer ou obrigação escolar. Um clássico, no sentido de Adler, não é sempre uma obra de literatura: entre os clássicos há livros sobre eletricidade e fisiologia animal, os milagres de Cristo e a constituição romana: coisas que ninguém hoje leria por lazer e que geralmente são deixadas aos especialistas. Mas um clássico não é um livro para especialistas. É um livro que deu origem aos termos, conceitos e valores que usamos na vida diária e nos debates públicos. É um livro para o homem comum que pretenda ser o cidadão consciente de uma democracia. Clássicos são livros que criaram as noções de realidade e fantasia, senso comum e extravagância, razão e irrazão, liberdade e tirania, absoluto e relativo – as noções que usamos diariamente para expressar nossos pontos de vista. Só que, quando o fazemos sem uma educação liberal, limitamo-nos a repetir um script que não compreendemos. Nossas palavras não têm fundo, não refletem uma longa experiência humana nem um sólido senso de realidade, apenas a superfície verbal do momento, as ilusões de um vocabulário prêt-à-porter. A educação liberal consiste não somente em dar esses livros a ler, mas em ensinar a lê-los segundo uma técnica de compreensão e interpretação que começa com os eruditos greco-romanos e atravessa, como um fio condutor, toda a história da consciência ocidental.

Uma das muitas causas do seu desaparecimento [do leitor autêntico], no nosso país, é que a formação dos jovens leitores — e falo dos melhores — se faz sob uma influência predominantemente anglófona. Ninguém lê mais em francês, espanhol, italiano ou latim. Muito menos lê os clássi…
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Uma das muitas causas do seu desaparecimento [do leitor autêntico], no nosso país, é que a formação dos jovens leitores — e falo dos melhores — se faz sob uma influência predominantemente anglófona. Ninguém lê mais em francês, espanhol, italiano ou latim. Muito menos lê os clássicos portugueses. Como os princípios da estilística inglesa são intransponíveis para o português, esses leitores acabam perdendo o ouvido para o próprio idioma. Quando lêem, não captam as nuances de sentido nem a ordem musical. Quando escrevem, imitam trejeitos ingleses que não dão certo em português e terminam em pura macaquice. E não falo só de trejeitos lingüísticos, mas psicológicos — de certos cacoetes de percepção que são típicos da intelectualidade norte-americana.

Vencer os comunolarápios não basta. É preciso bani-los da vida pública PARA SEMPRE. Entenderam? PARA SEMPRE. E só há um meio de fazer isso: Não deixar que a velha geração esqueça e as novas gerações ignorem o que eles fizeram. Os crimes inumeráveis que eles cometeram -- e os muit…
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Vencer os comunolarápios não basta. É preciso bani-los da vida pública PARA SEMPRE. Entenderam? PARA SEMPRE. E só há um meio de fazer isso: Não deixar que a velha geração esqueça e as novas gerações ignorem o que eles fizeram. Os crimes inumeráveis que eles cometeram -- e os muitos outros que preparavam -- garantiram para eles o direito à imortalidade: a imortalidade da vergonha, do opróbrio e da desonra. Negar-lhes isso é fazer-lhes uma tremenda injustiça.

Jeremy Bentham dividiu as ciências em 'cenoscópicas' e 'ideoscópicas'. Ajustando um pouco as definições, digo que as primeiras estudam a realidade tal como ela se apresenta à experiência comum da espécie humana, as segundas a realidade tal como aparece segundo os recortes especia…
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Jeremy Bentham dividiu as ciências em 'cenoscópicas' e 'ideoscópicas'. Ajustando um pouco as definições, digo que as primeiras estudam a realidade tal como ela se apresenta à experiência comum da espécie humana, as segundas a realidade tal como aparece segundo os recortes especializados que a tornam acessível aos métodos das várias ciências. Os que estudam a ciência política ou, em geral, as ciências sociais só pelo ângulo ideoscópico cometem erro após erro, e nunca se emendam. Mas a preparação do intelecto para as ciências cenoscópicas nada tem a ver com a educação científica habitual e especializada. Ela passa pela impregnação imaginativa do estudioso no 'senso comum', no modo como as pessoas de carne e osso vêem as coisas na sua experiência concreta. É toda uma disciplina da percepção, do sentimento, da imaginação, em suma: da alma. Essa é uma das normas básicas que orientam o COF. Tê-la aprendido faz com que os meus alunos acertem em suas análises políticas cem vezes mais que os opinadores jornalísticos e acadêmicos usuais.

No Brasil, quando o sujeito aprendeu a comparar uma frase com outra frase para ver se concordam ou discordam, acha que chegou ao cume do desenvolvimento humano. Mas eu me lembro de que o primeiro feito intelectual que me impressionou, quando eu tinha uns dezoito anos de idade, f…
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No Brasil, quando o sujeito aprendeu a comparar uma frase com outra frase para ver se concordam ou discordam, acha que chegou ao cume do desenvolvimento humano. Mas eu me lembro de que o primeiro feito intelectual que me impressionou, quando eu tinha uns dezoito anos de idade, foi a similaridade que Georg Lukacs encontrou entre o gênero romance e a ordem capitalista -- uma comparação entre duas estruturas invisíveis, escondidas no fundo de um longo processo histórico. Ainda acho essa descoberta um momento de brilho incomum na história dos estudos literários.

O socioconstrutivismo foi inventado PARA bloquear a passagem normal e natural da percepção ao pensamento abstrato e substitui-la por associações de idéias forjadas por planejadores sociais. O dano afeta a pessoa FISICAMENTE e, ao contrário da ignorância gramatical, não pode ser c…
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O socioconstrutivismo foi inventado PARA bloquear a passagem normal e natural da percepção ao pensamento abstrato e substitui-la por associações de idéias forjadas por planejadores sociais. O dano afeta a pessoa FISICAMENTE e, ao contrário da ignorância gramatical, não pode ser corrigido por mero estudo. O analfabetismo funcional é uma TRAGÉDIA DE PROPORÇÕES COLOSSAIS. Os analfabetos funcionais ajudam uns aos outros a não perceber que o são. Repito: o analfabetismo funcional endêmico entre as classes ditas letradas é O MAIOR PROBLEMA DO BRASIL, muito acima da corrupção, do nacotráfico, da violência generalizada, da pobreza e do desemprego, pois é ele que impede que qualquer desses problemas tenha solução. Uma pessoa perfeitamente alfabetizada pode ser ruim de gramática pelo resto da vida se parar de estudar o assunto logo na adolescência, mas o analfabeto funcional já está pronto para uma vida de burrice entre os cinco e os oito anos. A inépcia gramatical pode ser corrigida com uma simples retomada dos estudos, mas superar o analfabetismo funcional exige a realfabetização e quase uma metanóia. A escrita literária é a arte da ambiguidade controlada -- algo eternamente inacessível às mentes viciadas no conforto fácil das correspondências biunívocas. É o mata-burros do analfabeto funcional diplomado. O analfabeto funcional é estruturalmente incapaz de perceber que, quando apontamos nas suas idéias uma 'ignoratio elenchi", NÃO ESTAMOS contestando suas opiniões sobre o tema e sim apenas mostrando que elas não existem. Os retóricos romanos julgavam mais fácil, para o argumentador, persuadir um inimigo feroz do que um ouvinte incapaz. Eu que o diga. A ignorância da gramática vem junto com complexo de inferioridade e inibição social com a mesma freqúência com que o analfabetismo funcional vem acompanhado de síndrome de Dunning-Kruger. É incrível -- para quem estuda o assunto --, mas ainda há pessoas que confundem analfabetismo funcional com escasso domínio da gramática -- dois fenômenos que frequentemente vêm juntos, mas que não são o mesmo de maneira alguma. O ignorante de gramática não tem a menor dificuldade para reconhecer sua deficiência, mas o analfabeto funcional, quase sempre, imagina que entende tudo e, quando lhe mostramos que não entende, acha que é mera diferença de opiniões ou então maldade nossa.

Se você quer me ofender gravemente, me diga coisas como: 'Admiro muito você e a véia dos gatos', 'Admiro muito você e o Marco Antonio Vil', 'Admiro muito você e o Arruinaldo Azevedo', 'Admiro muito você e o Rodrigo Cocô', 'Admiro muito você e o hominho dos dois dedos.' Se você q…
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Se você quer me ofender gravemente, me diga coisas como: 'Admiro muito você e a véia dos gatos', 'Admiro muito você e o Marco Antonio Vil', 'Admiro muito você e o Arruinaldo Azevedo', 'Admiro muito você e o Rodrigo Cocô', 'Admiro muito você e o hominho dos dois dedos.' Se você quer me ofender mais ainda, diga que o meu problema com essas pessoas é divergência de opiniões.

Durante mais de uma década só tive, na intelectualidade, amigos entre quinze e trinta anos mais velhos, como o Paulo Mercadante, o Meira Penna, o Roberto Campos, o Romano Galeffi, o Vamireh Chacon, o Antonio Olinto, o Miguel Reale, o Paulo Francis e outros sobreviventes da época…
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Durante mais de uma década só tive, na intelectualidade, amigos entre quinze e trinta anos mais velhos, como o Paulo Mercadante, o Meira Penna, o Roberto Campos, o Romano Galeffi, o Vamireh Chacon, o Antonio Olinto, o Miguel Reale, o Paulo Francis e outros sobreviventes da época áurea da cultura brasileira. Da minha geração, só tive o Bruno Tolentino (quando voltou da Inglaterra), o José Mário Pereira, o Ângelo Monteiro e, quando mudei para o Paraná, o José Monir Nasser.