o que percebo é muito pouco. minha visão de mundo é limitada. a sua também, não se preocupe. e não tem como ser diferente, porque não temos o superpoder de estarmos em vários locais ao mesmo tempo (a internet até nos dá a ilusão de que podemos, mas a qual profundidade?).
tem gente que acha que sabe mais da minha vida do que eu. ledo engano! não há como... é realmente uma conta impossível.
só eu posso ver do meu ponto de vista a partir das minhas inúmeras experiências até aqui.
e só você pode ver do seu ponto de vista a partir das suas próprias experiências até aqui.
nisso enxergo a preciosidade dos encontros e dos diálogos, a oportunidade de conhecer universos tão diferentes e complexos (e de se deixar conhecer).
provavelmente eu morrerei sem me conhecer por inteira (e olha que sou a pessoa que mais me conhece), então, qual sentido há em alguém inferir algo a meu respeito por pouco mais de meia dúzia de palavras ditas (ou escritas)?
... o que eu queria dizer hoje é apenas uma reflexão que me cutucou mais cedo: não permita que o outro rotule você ou diga o que e quem você é.
muito fácil querer dominar o espaço e a vida alheia e fugir de si mesmo, enquanto pensa que o outro deve ser subordinado aos caprichos do seu próprio ego...
mais uma vez, repito: bom seria se houvesse respeito à beleza da diversidade!
quem sabe um dia esta utopia já não precise ser sonhada.
quando digo que não tenho religião, algumas pessoas se espantam e desejam me converter à sua, algumas pessoas se aborrecem e afastam-se, outras pessoas dizem que ainda encontrarei meu caminho e há ainda aquelas que aplaudem.
não me importo com nenhuma reação, se elas respeitam o limite do bom senso.
o que eu desejo mesmo é que as pessoas compreendam que aquilo que faz bem a elas (e faz sentido para elas) não necessariamente satisfará ao outro.
se cada um pudesse cultivar o melhor que sua crença prega, talvez o mundo fosse mais bonito.
não é inteligente, nem honesto, nem respeitoso ficar com proselitismo.
gosto de pessoas que conseguem dialogar sobre diversos assuntos sem precisar ser a dona da verdade sobre nada. gosto de pessoas que estão abertas às possibilidades da vida, da existência, gosto de pessoas que celebram a vida de forma a comportar que o outro também a celebre a seu próprio modo.
é bom ver diversidade em todos os aspectos da vida!
o colorido é a cor mais bela...
...
reflexões de um dia frio de sol no céu.
eu não dou conta de mim
por isso deságuo em letras
nas minhas estranhas certezas
deixo o rio brotar
a água, fluida de grandezas,
devolve a alma à presa
até a dor passar…
límpida
serena
viva
renasço
[escrever é meu desaguar… ]
a vida é claudicante
não devo exigir dela estabilidade
a vida é movimento
não devo cobrar dela inatividade
a vida é corda bamba
não devo exigir dela tranquilidade
a vida é emoção
não devo cobrar dela frialdade
a vida é estranheza
não devo exigir dela banalidade
claudicante
movimento
corda bamba
emoção
estranheza
a vida é esta completa cinesia:
entrego-me a ela
faça noite
ou faça dia…
trabalhar com palavras
mergulhar em sentimentos
costurar mágoas e alegrias
em versos e pensamentos
transportar a outros mundos
na ponta da imaginação
envolver em tantas tramas
pulsando o coração
antes de amanhã
ainda tem hoje
a vida não perdoa
o transcorrer contrário das horas
simbora!
viver o agora
é chama que acende
a fogueira da alegria
no coração.
seja perene
insistente em teimosia
de amar este dia
como se derradeiro fosse
escute o tinido
da velha esperança
entre na dança
desta danação!
sofra enquanto há sofrimento
brinde quando chegar o alento
viva o instante
antes
da morte
e, com sorte,
ainda poderá lembrar!
há um poema em meu armário
vou catá-lo
e vestir seu tecido sobre minha pele
[há instantes de inexistência]
apesar das aparências
ainda estou transvestida
pelo seu olhar.
como pesa deixar ir:
estou tão agarrada aos meus pedaços
no compasso de uma dança destemida
tudo se torna fragmento de mim
mãe
pai
irmã
irmão
filha
filho
todos são peças do meu quebra-cabeça particular
e o adeus dilacera um pouco mais
o que ainda resta dentro da garganta:
estilhaços de uma voz emudecida
pela despedida
das partes do meu espírito que
ainda sonham
vejo os olhos deles pela última vez
mas nunca sei!
até que um alarme soe e me avise:
outra parte de você
se foi…
[nunca existi inteira
agora
sou a peça derradeira]
eu não me impressiono tanto
quanto talvez devesse
eu não me importo tanto
quando da vez de ver-se
eu não me iludo tanto
quanto talvez temesse
eu não me espanto tanto
quando da vez de ter-se
quando nada mais me causar espanto
nem as belezas nem as tristezas
da existência
quando a felicidade ou o pranto
deixar de ser turbulência
sinto que não existirei também
acordei tão animada
ia fazer um mundo bonito
criar histórias
reinventar a fórmula da Poesia
duas horas
deslizando o polegar
numa esteira lisa
e já me perdi de mim:
não sirvo para a vida
tudo parece estar pronto!
que bobagem querer agradar a todos.
você não vai conseguir!
então, sinta-se um pouco mais livre
para ser o seu melhor
de acordo com seus próprios
parâmetros.