en-Caixa
entre cápsulas e comprimidos
são tantos planos forjados
são sonhos arrependidos
são veias acinzentadas
entre cápsulas e comprimidos
são penas e assinaturas
são perdas e tecituras
são aquarelas desbotadas
entre cápsulas e comprimidos
o relógio perde o tempo
o velho morre ao relento
eu continuo a estrada
entre cápsulas e comprimidos
o sinal toca na escola
o sapato perde a sola
meu tudo vira um nada
entre comprimidos e cápsulas...
Hoje me dei conta do quanto te admiro, meu amor.
Sua sensibilidade e sua força.
Sua voz e seu silêncio.
Sua calma e sua coragem.
Sua verdade e seus devaneios.
Hoje me dei conta do quanto te amo, meu admirável.
Meu? Não, você não é meu. Mas tenho sorte por ter você nesta caminhada chamada Existência.
Minha vida tem sido bem mais plena desde que me permiti viver o melhor da vida no presente, com seus altos e baixos, alegrias e tristezas, encontros e despedidas. A certeza que tenho é que entre o nascer e o morrer há vida. E eu quero desfrutar de cada instantinho desta preciosidade.
Fechar os olhos é confiar
se entregar de peito aberto
alma leve
se jogar no abismo
coração pulsante
se envolver no abraço
corpo solto
passos incertos
aposta alta
jogo arriscado
fruta agridoce
Fechar os olhos é eternizar
o momento do enlace
a procura do instante
o tempo medido em vidas
a vida em suas nuances
queria nunca ter visto seu olhar
queria não sentir sua presença a me observar
queria deixar de te amar
queria esquecer que o encontrei
queria deixar-me em paz
queria deixá-lo em paz
QUERIA?
in-sa-tis-feitos
Vestir-se com o ideal de si
A fantasia do seu próprio eu
Aflora narciso
Abaixa decência
-- a tal decadência
!
O máximo e o mal
O bom e o real
A vida
O caos
O filtro
A foto
A pose
O jeito
Janela
Quebrada
É boa a estrada
Pra quem é perfeito
!
Doce ilusão
Amarga verdade
A tal vaidade
Que enche o peito
!
Que golpe num ego
Tão frágil e ferido
Um pobre menino
Que busca respeito...
Mas ele, em seu leito,
Dormente
Insano
Um santo profano
!
Esquece o eleito...
Vive como a ilusão de si
Sem conhecer-se
Sem se amar
Sem merecer-se
Sem se encontrar...
Um dia, ele há de ser!
Um dia
!
ele acordará...
¿Será?
dis-forme
falsa simetria
doses de agonia
ao olhar perplexo
da cidadania.
quem vive de versos
rotos de existir…
passa pelas ruas
esgotos do devir.
fala-se em direitos
falácias sem um jeito
próprio de servir.
os versos tão disformes
da minha boca escorrem
não têm pra onde ir…
como pode uma alma ser tão triste, tão triste
a ponto de não conseguir nem mais sonhar?
– a tristeza profunda é isso:
nada de sonhos
nada de perspectivas
nada de ilusões as quais se agarrar...
sonhos mal-ditos
se a fama dilacera
imagina a cama vazia!
se a lama entorpece
imagina a sanha luzidia!
se a gama impede
imagina a dama-fantasia!
dos pesadelos sedentos
a devorar meus olhos em noites quentes
o pior é o sonho
que nunca se realizou!
capataz do destino
um bandido ferino
de olhar tão amedrontado quanto o meu!
e ainda há tanta futilidade
a embaralhar os devaneios de uma alma
num corpo imperfeito...
há a sede!
há a fome!
há o sono!
há um desejo ardente pela vida!
e isso tudo me consome
como uma ferida purulenta
sem dó nem piedade
sem voz nem silêncio
sem clamor nem liberdade
sem tristeza nem alento!
oh, sonhos impuros!
que mal há em querer
aquilo que me falta?
se são partes da carne ou do espírito,
nunca consigo identificar!
são vermes corroendo
o melhor de um alguém que nunca fui...
mas poderia ter sido
nos sonhos mal-ditos
de outro ninguém...
ponte-iro
entre passagens e paisagens
somos pontes uns para os outros
é como se eu carregasse segredos
de outro alguém
estou correndo para o nada
com medo
de ser descoberta
lendo as linhas secretas
que nunca escrevi…
um dia deixarei
todos sem resposta
um dia darei
meu último suspiro
pode ser hoje, pode ser agora…
enquanto isso
continuo entre passagens e paisagens
sendo ponte para quem
encontro no caminho…
cada centelha importa
e cada importância centelha
entre passagens e paisagens
somos pontes uns para os outros…
O que será que se escreve
Quando os pensamentos já não são suficientes?
O que será que se pensa
Quando as palavras se fazem ausentes?
O que será que se sente
Quando a alma não está mais presente?
O que será? O que será?
O que será das verdades sem a gente?
des-encontro
o meu alguém está em casa
esperando com a mesa de jantar posta
ele passou um café
preparou os pratos
colocou uma flor ao lado da minha cadeira…
o meu alguém está em casa
aguardando eu retornar para lhe fazer companhia
rirmos juntos das bobagens do dia
e descansar nos braços um do outro
sem medo de julgamentos…
o meu alguém está em casa
com a porta aberta a aguardar minha chegada
eu o vejo olhar o relógio
estou atrasada… já é tarde e ele me liga
muitas chamadas não atendidas…
o meu alguém está em casa
olhando pela janela,
na expectativa de me ver atravessar a esquina
e minha sina
é não ver seu doce olhar…
o meu alguém está em casa
me esperando
me chamando
mas ele ainda não sabe
– meu amor, me perdoe!
… nunca mais irei chegar!
o meu alguém está em casa
tão despedaçado quanto eu…
– eu não queria que fosse assim!
se, ao menos, ele pudesse me escutar
eu diria… eu diria:
– meu amor, estou aqui… olha pra mim...
[redes]coberta
estou seca
ressecada sem a seiva
a nutrição já não enseja
fazer parte de mim
amarelada desde o caule
fino trapo me desnuda
sou flor distante e muda
no chão deste jardim
estou seca
ressecada
ressequida
sem alma, corpo ou vida
pelas veias do meu ser:
a água sumiu do xilema
a fibra vedou meu floema
nunca pude acontecer!
resta-me agora a palavra
filha sou desta lavra
adubo transformado em brasa
desvendo em mim o poema
que nunca pude fazer…