Em mim
Em mim um temporal destruidor,
E lá fora sol e calor.
Em mim inverno tenebroso
Lá fora primavera florida.
Em mim escuridão e trevas
Lá fora luz em aquarelas.
Em mim o meu mundo
Lá fora o de todo mundo.
Ficou
Restou um rastro de poesia
Em folhas rabiscadas
Um rascunho de poema
Uma caneta trincada
Um caderno envelhecido
Pelo café marcado
Bitucas abundantes
Num cinzeiro enferrujado.
Ficou a vida sem óculos
O poeta foi cegado.
Amantes
O poema pronto precisou de muitos rascunhos,
Quem o lê nem sempre imagina,
As noites de luz acessa e as xícaras de café sobre a mesa.
Quanto se fez e desfez por uma frase,
Por um verso interessante.
Mais do que vício
Poesia é para amantes.
Em mim
Em mim morrerão os amigos,
Os encantos da juventude
As tardes adultas de matinê
As nadadas nos açudes
As noites de chaminé.
Em mim morrerão os dias
Que antes eu nem percebia
Que poderiam falecer.
Em mim morrerão os que amo
Olhos que brilharam nos meus
A voz feminina da saudade
Os que de mim nasceram
Na plenitude da idade.
Em mim morrerá a lua
O mar azul de encantar
A inspiração não mais brotará.
E a poesia silenciará.
Em mim morrerá a rima
Os versos brancos das composições
De mim morrerá a poesia
E as mais lindas canções.
Em mim morrerá, enfim
O que sempre me cercou
Todos meus versos de amor
De um coração que me matou.
Super real
Não faço da poesia um drama
Nem da vida uma fantasia
Crie-me num ambiente sem fama
Onde herói não existia.
Caio sem receios no lugar comum
Sem criar nem dizer nada original
Não conheci super-herói nenhum
Cresci num mundo “super real”.
Lá o progresso não tinha chegado,
Lá os poderes eram falhos e normais
Tendo eles seus filhos bem criados,
Heróis de verdade eram nossos pais.
Negou-me, a vida, esta parte.
Talvez pondo outra em seu lugar,
Brinquei com minhas próprias artes
Heroísmo era poder se alimentar.
Noite fria
A noite prateada entrou gelada.
Só um zumbido do minuano,
Igualmente gélido se ouvia.
Tímida a lua parecia tremer
Ao ver nos vidros partículas de gelo,
E o fogo na lareira a crescer.
Pensei que tudo congelaria
De dentro vinha o frio que eu sentia,
Mas alma arrepiada me blinda,
Pois a noite, assim mesmo, é linda.
E no amanhecer avistei,
Em meio ao campo de branco lençol,
Um cavalo solitário
Parecendo feito de sol.
Escuro
A noite ocultou as ondas,
Sem silenciar meus ouvidos.
Doce embalos de ninar,
Doces ondas de amar.
Desenhei o paraíso
E nele me deitei,
Ouço a canção de sonhar,
Adormeço ouvindo o mar.
Te bendigo
Eu te bendigo
Porque há uma dor tua
Doendo em mim.
Bendigo ainda mais
Porque há uma luz dos teus
Iluminando os olhos meus.
Te bendigo, enfim,
Porque te abrigo
Dentro de mim.
Atitude gentil
Gentileza na convivência
É sempre um gesto bonito
O coração grifa em negrito
E perdura a vida inteira
Entre os seus favoritos.
O melhor é que não tem custo
Mesmo tendo grande valor
É tão simples ser gentil
Atitude generosa
De bondade, gratidão e amor.
Vinho pra mim é verbo:
“Vinhar”
E sua conjugação
É perfeita e regular.
Nos meus tempos verbais
Nem preciso dizer
Muito mais-que-perfeito
É degustar um tinto Cabernet.
Feliz
Tarefa danada de peculiar
Escolher o nome para um bichano
Não inspira nada este miar. Miar?
Não. Daria pra manga muito pano
Passaria as sete vidas a reclamar.
Não quero deixa-lo sem batismo,
Quem não tem nome se some
Chama-lo apenas gato
É como ser chamado só de homem.
Escutando seu tranquilo ronronar
Dou-lhe a esperada diretriz
Percebo que está a me escutar
Olhos fechados, aconchegado... FELIZ.